Cláudia Silva Ferreira é um nome que nunca mais vou esquecer. Desde que vi a imagem dessa mulher sendo arrastada pelo carro da Polícia Militar do Rio de Janeiro como um saco que cai de um caminhão de lixo em movimento, ver uma abordagem policial me revira o estômago. Cláudia era uma mulher negra de 38 anos, auxiliar de limpeza, mãe de duas filhas e moradora do Morro da Congonha no Rio de Janeiro.

Era mais uma Silva, como muitos outros Silvas que acordam cedo e trabalham duro para sustentar suas famílias, e, também como muitos outros Silvas, poderia ter tido uma morte invisível se não fosse a mobilização popular em torno do caso. Infelizmente, diante de casos como de Cláudia, Amarildo, DG, Douglas e Jean, carregamos a incerteza diária de não saber, ao sairmos de casa, se ou quando iremos retornar, se a exemplo de Amarildo sumirão com nossos corpos ou se a exemplo do jovem Douglas nossos filhos serão obrigados a perguntar para um policial: “Por que o senhor atirou em mim?”.

Os números de mortes dos negros no Brasil são dados de um verdadeiro genocídio. Segundo o Ministério da Saúde, foram registrados 272.422 assassinatos de negros no país entre 2002 e 2010 e temos uma das maiores populações carcerárias do mundo, dentre a qual 61% é negra ou parda.

Mesmo assim, não são esses os dados noticiados nas grandes mídias. Seguimos morrendo nas quebradas ou nas penitenciárias, seja pela violência policial, seja pela própria guerra interna da periferia, mas se vez ou outra nossas mortes aparecem nos noticiários por conta da mobilização popular ou pelo forte impacto, não trazem tanta audiência quanto a notícia de uma mulher que matou seu marido por ciúme ou o Lucas não ter sido convocado para a seleção brasileira que jogará a Copa do Mundo 2014.

O pior é que não pára por aí. A população negra passa por um processo de extermínio desde que foi raptada de seus países de origem na África e trazida para o Brasil para ser vendida como “coisa”, e falar sobre esse assunto não é tão simples. É que ainda que a principal causa de morte dos negros no país seja os assassinatos, também é preta a cara das mulheres que morrem na fila do SUS aguardando para fazer seu parto, é preta a cara da população em situação de rua ou das ocupações urbanas que são removidas para a construção de estádios de futebol, é preta a cara das pessoas que se esmagam como sardinhas enlatadas nos vagões de trem que vão para a periferia e mais se parecem com navios negreiros.

O tempo todo, a elite branca brasileira quer acabar conosco: banalizam nossas religiões, criminalizam nossa música, nos negam acesso a direitos básicos como saúde, educação e moradia, matam e encarceram nossos jovens e ensinam às nossas meninas que seus cabelos e narizes não são bonitos o suficiente.

A história do povo preto foi e continua sendo escrita sob muita luta e resistência. Quilombo dos Palmares e Revolta dos Malês nos mostraram o caminho, e é essa inspiração que nos faz não deixar passar desapercebidas as mortes de Douglas, Jeans, Cláudias, Amarildos, MCs Duda do Marapé, Marias, Pedros, Joãos, Felipes, e tantos outros…

Seguimos assim, porque a cada vez que um nosso se vai, muitos outros se erguem para fazer jus à nossa história!