E por falar em mãe, a minha adorava bater perna no centro de São Paulo. Na época, havia um Mappin na Praça Ramos: eu, criança de uns 6 anos, andava segurando sua mão de dedos gordinhos. Meu irmão, o descolado de 10, ia mais solto atrás da gente, misturando-se à multidão.

Até que um dia, num desses passeios em família, a polícia viu a cena e teve certeza que meu irmão deveria ser um trombadinha, prestes a assaltar a ingênua senhora quase branca que passeava apressada, alheia ao perigo que seu próprio filho representava à sociedade.

O menino foi parado imediatamente para revista; e este foi o primeiro baculejo da sua vida. Anos depois, já adolescente, corintiano e negro, ele teria que provar a outros policiais que morava, realmente, no Edifício Lugano da Avenida Higienópolis. “Conhecem este rapaz?”, perguntaram ao porteiro nordestino do nosso prédio. Aliás, naquela época, a expressão de preconceito da “moda” (aprendi no meu colégio de freiras, o tradicional Sion) era “que baiano”. Imagina o significado… Sendo que nós tínhamos nos mudado exatamente de Itabuna, terra de Jorge Amado.

Enfim… Com voz trêmula, a criança sangue do meu sangue chamou: “mãããããeee!”. E o que se deu a seguir, acredito, foi uma cena de amor explícito, escancarado para quem quisesse assistir. Quando mamãe viu sua cria sendo “gentilmente” apalpada pelos gambés, virou leoa ninja. A bolsa (comprada na liquidação do Mappin) que carregava presa ao peito, voou na velocidade da luz rumo aos homens da lei, com os gritos de “Solta meu filho! Larga ele!”. Impressionante como mamãe é boa nisso! Foi bolsada pra todo lado.

Abriu-se um clarão; o povo gosta de show. Os fardados, envergonhados pelo engano e possivelmente cientes da violência que cometeram, arregalaram os olhos como quem pede desculpas. Bastaram 3 ou 4 bolsadas para tirarem as mãos do moleque. Salvo. E o povo dispersou.

Então, novamente, mamãe cruzou a bolsa junto ao corpo, segura. Os dedos gordinhos da sua mão esquerda seguraram meu pulso, enquanto os da direita, o do meu irmão. Nós três voltamos pra casa de mãos dadas, numa cumplicidade velada, e num amor que nos unia ainda mais.

*FIM*
Imagem – Brenda Lígia, arquivo pessoal.

(Quando eu virar mãe, também quero rugir e atacar feito leoa quando preciso for).