Como professora (também) de Ensino Médio e Pré-Vestibular, volta e meia tenho que trabalhar com meus alunos questões de interpretação de charges. As charges são gêneros textuais bastante peculiares, principalmente porque sua interpretação depende de que se esteja inteirado dos assuntos em voga: no Brasil e no mundo.

Além disso, na relação de complementaridade entre texto verbal e texto não-verbal pode acontecer de os desenhos serem mais expressivos que o próprio texto: isso quer dizer que a imagem pode valer mais que as palavras ali expressas. E é por isso que uma charge veicula muitos sentidos e discursos para além do meramente “dito”; e é pelo mesmo motivo que se tem que ter cuidado redobrado quando pretendemos expressar uma opinião através/fazer a análise de uma charge – o perigo de se reproduzirem estereótipos racistas, classistas, homofóbicos, misóginos etc. é ainda maior.

A edição número 212 do jornal Fato Paulista – que tem distribuição gratuita e circulação pela Zona Leste e Centro da capital paulista – publicou na primeira página, em posição de destaque, uma charge, no mínimo, infeliz. Nela, estereótipos racistas e classistas são reforçados escancaradamente, naturalizando associações que ajudam a manter o status quo do negro e, no caso, da mulher negra na sociedade brasileira.

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Como todo texto, essa charge em questão tem mil entradas para se começar a explorá-la e interpretá-la: fica difícil escolher o primeiro caminho a ser tomado, porque essa charge em específico tem o que costumo chamar de “problema de concepção” – no caso, a concepção (as duas) do próprio cartunista. Não pretendo esgotá-la, mas abrir caminho para que vocês percebam como ela é problemática por outros vieses.

Vamos começar pelo personagem “que fala” na charge: uma empregada doméstica e, acima dela, os dizeres “a pergunta que não quer calar”. Isso significa que a pergunta feita partiria dessas trabalhadoras porque elas estariam preocupadas com possível divisão de moradia com os haitianos: quer dizer, já não tem pra gente aqui, vocês ainda vão colocar mais? Mais ainda, é como se a charge tivesse sido concebida a partir do ponto de vista de uma mulher negra doméstica. Desconfiamos que não, né? E isso é um problema: colocar uma fala em uma mulher negra doméstica é associá-la necessariamente a essa fala, e isso não pode ser feito. Escutaram-se as empregadas domésticas para falar sobre o assunto? A que interessa que o povo ache que essa preocupação seja, de fato, dessa classe trabalhadora?

Quem fala nessa charge é o cartunista: quem teme, quem está insatisfeito com a chegada dos haitianos a São Paulo é ele. Não nos enganemos…

Já que falamos do personagem que fala (e que não fala é nada, como já vimos): que caricatura é essa, alguém pode me dizer? A concepção do cartunista de empregada doméstica é essa aí: três quilos de blush na cara, flor amarela no cabelo bem excêntrica, um batom vermelho e uma monocelha pra arrematar o combo. Perdão, o que arremata o combo é a cor! Porque, claro, empregadas domésticas quando vão trabalhar desenham duas bolas de blush rosa na cara, botam uma florzona amarela no cabelo, mandam um batom vermelho, não fazem a sobrancelha e…. são pretas! Como dois e dois são quatro, né, não?

Fora a caricatura estereotipada que ajuda a manter a naturalização com quem algumas profissões são associadas a cor e classe social (o que já é uma senhor de um problema), o que o cartunista está, afinal, dizendo? O que ele quer dizer com “como abrigar tanto haitianos se não temos moradias suficientes para a gente daqui”?

Eu digo (aliás, interpreto): o que o cartunista quer dizer para a população da Zona Leste, onde a renda per capita média é quase 68% inferior à média do resto da cidade e é a região onde se registra a menor concentração de atividade econômica, é que já tem pretx e pobre de mais para brigar por moradia e emprego, e que os haitianos estão chegando para aumentar essa guerra. Quer dizer, além de – de novo – associar cor e classe a determinados empregos (e naturalizar isso), o cartunista pretende colocar brasileiros x haitianos como lados opostos numa guerra em que não se questiona quem é o responsável por ela.

Na verdade, quem é que se pergunta sobre a vinda dos haitianos? A quem interessa que eles não venham? Que tipo de impacto e impacto na vida de quem essa vinda deles traria? Quem não tem moradia suficiente, não tem por quê? Os haitianos vão, no melhor estilo “cuidado com os comunistas”, invadir as casas da população e ocupá-las? Comerão as criancinhas?

Charge é discurso, e como discurso ela reverbera outros tantos discursos que a ela subjazem. O cuidado na hora de não reproduzir e não perpetuar estereótipos de todos os tipos há de ser redobrado quando estamos lidando com assuntos que interferem diretamente numa política como a de ACOLHIMENTO de pessoas que perderam tudo: casa, trabalho, família por conta de um terremoto que devastou o país. A não ser que a intenção seja essa mesma: a de incitar a população contra os haitianos. Aí já é mau-caratismo mesmo.