Tudo que nos coloca fora do duvidoso padrão vigente é considerado errado, mas para mulheres lésbicas e negras as coisas acontecem de um jeito bem pior. O corpo é meu, junto com minha identidade e minha orientação, mas certamente não é fácil ser lésbica e negra na sociedade racista, patriarcal e consequentemente machista.

Apesar da nossa existência, quase não nos reconhecemos nos espaços de destaque para que haja uma identificação. Ver uma mulher negra e lésbica na grande mídia é algo ainda raro e quando chegamos a ver, a quantidade de comentários machistas, racistas e lesbofóbicos saltam tanto aos nossos olhos que achamos verdadeiramente impossível a população não perceber seus preconceitos. Lembro-me de quando a Ellen Oléria venceu o primeiro The Voice Brasil e o quanto eu escutei: “ah, ela é sapatão, mas canta bem”, junto com: “nêga sempre tem voz bonita”. A lesbofobia alcança todas as mulheres lésbicas, mas a mulher branca nunca vai sofrer com o racismo aliado a essa opressão.

Ser lésbica e negra num país ainda racista e machista nos trás o pesar cotidiano da lesbofobia conectado ao racismo dos últimos 484 anos. A objetificação e erotização dos nossos corpos são frequentes. Digitar lésbica e negra no Google é prova disso e fora da virtualidade não é muito diferente.

Para além disso tudo, ao nos afirmarmos como lésbicas sempre ouvimos comentários descrentes quanto a nossa orientação. Tudo ainda funciona como se estivéssemos na senzala, obrigadas a estarmos à disposição da nojenta violência sexual dos senhores.

A lesbianidade negra existe e resiste. Embora ainda seja algo difícil por ainda enfrentarmos a lesbofobia, inclusive nos espaços de militância, é necessário que nos organizemos para que nos fortaleçamos e juntas possamos encontrar maneiras de resistência diária. Nossa afetividade e nosso prazer são nossos e temos o direito de vivenciarmos nossas experiências da maneira e das maneiras que quisermos.