“Nossa cota se chama mérito!”

Essa foi a resposta da toda poderosa DisneyCamp aos movimentos sociais que lutam para que negrxs e pobres ocupem outros lugares e funções nos domínios sagrados da universidade pública além de limpar e servir. Sem novidade para os acostumados às tradições do feudo campineiro… Além disso, a palavra mérito se tornou um acalanto aos corações e mentes da elite desesperada com a iminente, e inevitável, ascensão social dos grupos que ela acostumou a considerar subalternos, dominados, marginalizados, excluídos, carentes, vulneráveis, gentios, pagãos, proletários, escravos…

Enfim, suas categorias político-sociais-econômicas-blá-blá-blá não foram suficientes para nos manter sob controle e agora queremos mais e mais. Queremos ocupar as cadeiras, queremos salas com nossos nomes gravados nas placas da porta com títulos e mais títulos antes deles, currículos que falam por si e tornam nossos rostos negros e duros ainda mais assustadores. Afinal,  desmascaramos suas mentiras e dominamos também seus conhecimentos, invadimos sua praia e estamos à vontade para empreender as mudanças necessárias, abrindo com foices e facões as trilhas para os outros que virão. E eles certamente virão, aos montes e trarão outros!

Mas não é só isso que apavora a burguesada, pois além dos conhecimentos deles, temos ainda a força de caráter que os séculos de luta por sobrevivência nos deu, a dignidade de quem nasceu com sangue de rei, a paixão ardente de quem vive com a possibilidade real de não ter um amanhã. Sim, foi o racismo deles que nos transformou em um exército imbatível de guerreiros incansáveis!

E eis que o opressor recalçou as botas, engatilhou as espingardas, colocou o lençol branco pra quarar e incendiou sua grande cruz de madeira. Os gigantes do conhecimento tacanho e mesquinho, do academicismo caduco e estagnado no século XIX, USP e Unicamp, se uniram para defender os interesses daqueles que MERECEM estar do muro pra dentro. Dos que “querem e conseguem”; dos esforçados filhos de nossa burguesia que se matam para passar no vestibular, cuja prova eles repetem e decoram desde a mais tenra idade, o único vislumbre de cultura para muitos; dos que abandonam o seio familiar para se aventurar nos descaminhos de apartamentos e kitnets pagos pelos pais; dos que enfrentam a dureza do trânsito cerceando a liberdade que seus carros – conquistados com o sacrifício de ter feito 18 anos – deveriam oferecer.

Diante de tão grande dilema de nossa elite acuada pela nossa intolerância e ingratidão, só tenho um recado para xs nossxs:

“Toda vez que a gente avança, eles nos pedem calma

Cotas é só o começo, eles nos devem até a alma”

(grupo Opanijé Bahia)