2014 é o ano do meu nascimento. Durante três décadas, ou desde o que dia em que tenho lembranças de quem fui ou tornei-me a ser, fui “morena clara”, morena e também achei-me branca. Mas, eu negra? Não,não… Ouvia frases do tipo: “olha que morena mais bonitinha”.

Como todo ser humano que se constitui dentro do seu meio, fui educada como sendo branca, de religião católica. E assim saí da infância lutando para negar marcas genéticas, como o tipo de cabelo. Cabelo este que eu considerava ruim e difícil de manter-se domado, dominado. Afinal, os outros reproduziam e insistiam: “cabelo ruim é assim mesmo”.

Quando a idade de mocinha foi chegando, achava-me feia e escondia-me em mim. Porém quando o som dos tambores ecoava através dos grupos afrobaianos, que eu via na televisão, sentia fortaleza e atração. Naquele tempo, eu menina-moça morava à beira do rio São Francisco, nascida em terras baianas de Juazeiro e crescendo em terras pernambucanas de Petrolina. Missas e alisamentos colocavam a herança negra bem longe de mim; era mundo de apreciação.

Mas o gosto pela música vindo da minha Bahia, onde foi gerada e recebida, ecoava em minha alma e me trazia sensação de ligação e de que querer chegar mais perto. Mas eu? Negra não! A música era deles, dos negros lá de Salvador.

No crescimento do corpo físico e desejo de crescimento intelectual sigo para capital Recife, desejando cursar Jornalismo. Os olhos abrem-se para novos “mundos” representados em sons, em textos, em gente. Era maracatu, coco, ciranda, afoxé,frevo…Todo som que ecoava em mim. Conquistando-me… Religando-me. Mas eu? Negra não!

Na minha mente já estava plantada a certeza de uma forte identificação com o mundo negro; gostava do som dos tambores, vibrava ao ver negros engajados na política e em causas sociais; ficava feliz quando uma negra (o) conseguia sua ascensão conquistada com esforço e educação. Mas e eu? Sim, sim, a morena do curso. Vinda do interior, de escola pública e cursando Jornalismo numa Universidade Federal. Estava num lugar para brancos e “ricos”, “mérito” para brancos, as cotas não existiam.

Os primeiros anos na capital também marcaram a minha vida na busca por uma religiosidade mais profunda. Foram tempos de andanças e de buscas… Neste tempo, começaram a nascer as mudanças. Era tempo de ser gerada, chamada… Os dogmas do catolicismo já não me pertenciam. Abraço o espiritismo kardecista que me mostrou a imensidão do mundo espiritual. E eu? Morena, não católica.

Religiões afro-brasileiras, não, não. Não poderiam fazer parte de mim. Religiões como o candomblé era espaço para eles, os negros, as negras. Tinha respeito e admiração por aquele mundo. E eu? Divulgava já com orgulho: Sou branca, mas minha alma é negra.

E em meio aos vendavais encontrei o candomblé ou o candomblé encontrou-me. Fui iniciada aos 34 anos, adentrando em novos espaços, que já conhecia de longe, de tempo atrás. Encontrei pertença, riqueza; a ligação estava concluída. Mas, e eu? Não podia ser a negra que queria. Minha pele não era preta, preta como a deles.

Durante 30 anos fui ensinada a ser “morena”, num panorama de sociedade e de conhecimento que vivi. Minha cabeça encheu-se dúvidas, as quais foram sanadas com leituras que me trouxeram uma grande resposta, que antes eu não buscava; afinal, eu não era negra. Eis que as respostas chegaram: a denominação de uma pele morena, no Brasil, é usada para camuflar a pertença à raça negra, de ter o sangue negro no corpo.

Tenho nariz achatado, cabelo crespo, lábios grossos, sangue negro em minhas veias, não pele negra, tão negra como a lua, eis-me aqui nascida negra. Nascimento que não foi forçado como na cesárea. Foi parto natural, parto amadurecido, parto que esperou tantos anos, filho mais que desejado. Foi gestado e alimentado com leitura, pois nasceu um tempo em busca da cura física que foi transformada em tempo de alimento.

Nasci negra em meio à busca da cura física. Nasci negra e agora como uma criança tenho desejos infinitos de entender este meu mundo negro. Cada dia tem sido posto para grande descobertas, momentos do passado que tento entender, pessoas e fatos que tento entender. Encantamento com a vida nova. Braços vão sendo apresentados a mim, mãos me ensinam a caminhar, pessoas maravilhosas vão me guiando. E como toda criança, vou enchendo meu coração de sonhos e ficando feliz com os presentes que me chegam (amig@s, espaços de aprendizagem, leituras).