Séculos de colonialismo europeu no continente africano e de desumanização através da escravização em países das Américas deixaram marcas profundas em africanos e negros da diáspora africana. São diversos os traumas causados por anos de aculturação, negação de direitos, trabalhos forçados, tráfico de pessoas. Em países como o nosso esses traumas são relembrados e revividos nos episódios diários de racismo. Na África o colonialismo continua existindo na atuação de multinacionais e diversos investores estrangeiros. Mas o colonialismo invisível, praticado pelos meios de comunicação eurocentrados, também reforçam antigas ideologias racistas, tendo como consequência a auto-negação e a auto-mutilação através de processos de embranquecimento da pele.

Cremes de embranquecimento são hoje um problema muito sério em diversos países africanos e das Américas. Estima-se que mais de 60% das senegalesas usem produtos para clarear a pele, em Togo os números chegam a 58%, em Mali 25 % e na Jamaica mais de 40%. Em todos esses países o problema também afeta os homens, ainda que esse número seja pequeno. O creme clareador é aplicado como qualquer outro para o cuidado da pele e é aplicado em todo o corpo. Em alguns países africanos porém, é comum encontrar mulheres que claream somente o rosto e as mãos por não poderem comprar o produto para o corpo todo.

A cineasta queniana Ng’endo Mukii fez um filme sobre o assunto com o título “Yellow Fever” (Febre Amarela) que descreve exatamente o tom da pele de quem passa por esse método extremanente agressivo de clareamento. Durante esse processo os melanócitos, que são responsáveis pela produção da melanina, são destruídos e a pele perde sua proteção natural contra os efeitos nocivos dos raios solares. O resultado é câncer de pele e outros problemas causados através de substâncias extremamente prejudiciais à saúde, encontrados em cremes clandestinos, única opção daqueles que não têm como pagar os cremes originais que chegam a custar até mais de 120 dólares por pote. No Senegal os casos de tratamento dermartológico em decorrência de usos de produtos para clareamento lideram a lista, metade das mulheres tratadas apresentam lesões irreparáveis.

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No Brasil esse tipo de clareamento não parece ser tão popular como em países africanos, do Caribe ou nos EUA, mas a ideia de que a pele branca ou mais clara seja a mais bonita também predomina aqui. Outro modo de branqueamento parece ser aqui melhor aceito e popular que nesses outros países: a miscigenação. Apesar de todo o trabalho de conscientização da população negra, a ideia de que seja necessário “clarear” a família ainda persiste.

Há alguma diferença entre o “clarear” a próxima geração e o clarear da própria pele? Não, psicologicamente as duas atitudes podem nascer do mesmo sentimento: do auto-ódio e da não-aceitação de seu próprio fenótipo negro.

Ora, ninguém nasce odiando a si mesmo, quem ensina uma criança a odiar-se é o seu meio, é a sociedade em que vive. Numa sociedade como a brasileira em que na mídia, a imagem da criança negra é constantemente associada à criminalidade, à pobreza e toda sorte de estereótipos negativos, não surpreende perceber, já na mais tenra idade, marcas de auto-negação e auto-ódio. Além desses ataques, essas crianças sofrem represálias racistas em suas rotinas diárias, através de colegas de escolas, de vizinhos, de professores e às vezes até mesmo de membros da própria família.

Quando chegam à adolescência a necessidade de serem aceitas pelo grupo torna-se ainda maior e é comum que se iniciem nesse período, o uso de substâncias químicas com o intuito de modificar o fenótipo negro e aproximar-se do ideal branco. Outras crianças porém já são submetidas a alisamentos na idade de 5 anos ou menos. Fala-se muito pouco sobre os danos físicos que esses tratamentos químicos podem fazer à saúde a longo prazo, da mesma maneira, os vários relatos de lesões, alopecia causada pela química, são pouco comentados na mídia. Toda mulher negra, no entanto, conhece na própria pele essa problemática ou no mínimo conhece alguém que já passou por essas situações. O maior dos danos, porém, é pouco questionado: a baixa auto-estima que se constrói cada vez que um desses processos acontece.

O alisamento é a materialzação da ideia racista de que os traços físicos eurocêntricos, nesse caso capilares, são “melhores” ou mais bonitos e que para alcançá-los é legítimo violentar o próprio corpo. A mudança capilar, assim como a despigmentação, é um processo de desligamento da própria ancestralidade, de apagamento da própria identidade. Através dele o sujeito é forçado a abdicar física e muitas vezes ideologicamente de parte de sua existência em prol da outra.

Muitas mulheres negras passam por sua primeira transição de volta aos cabelos naturais durante a gravidez, período em que tais produtos, assim como as tintas para cabelo, não devem ser usados. Também muitas delas vivênciam um momento de redescoberta da própria beleza e passam por um processo de auto-aceitação. O nascimento de um ser com os mesmos traços físicos que os seus, a quem amam e por quem são amadas incondicionalmente como realmente são, ajuda muito nesse processo.

Ainda que o alisamento seja algo nocivo para a auto-estima negra e seja um método de embranquecimento, uma pessoa não deixa de ser negra porque alisa seu cabelo. Alisar os cabelos pode ser apenas um procedimento necessário para ser aceito ou menos incomodado no meio em que essa pessoa vive. Quem embranquece sua pele demonstra porém que seu objetivo é mais do que o de ser aceito pela sociedade, seu objetivo é na verdade a auto-aceitação, que para ele só é possíve através da destruição da pele escura. Essa é a mais pura materialização do auto-ódio, da condenação da própria existência. Dessa maneira afirmar que cremes clareadores não têm nada a ver com o racismo, como foi afirmado por uma médica em um programa de televisão brasileiro há pouco tempo, mostra como a mutilação dos corpos negros, assim como a destruição da identidade negra está naturalizada na nossa sociedade.

Pessoas que recorrem a processos de clareamento de pele não devem jamais ser condenadas por suas atitudes. Condená-las por terem sucumbido ao peso da supremacia branca seria estigmatizá-las uma vez mais. Não podemos nos esquecer que, enquanto vivermos em um mundo onde somente a beleza eurocêntrica e aquelas que delas mais se aproximem sejam possíveis, o embranquecimento jamais será uma opção.

Tão importante quanto o nosso trabalho de conscientização e desvelamento do racismo implícito nesses processos, é a conscientização da população branca de sua branquitude e seus vícios racistas; assim como de sua responsabilidade pelos traumas que esses vícios causam na população negra.

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Fontes de pesquisa:

Charles, Christopher A.D.. Skin Bleaching and the desconstruction of Blackness:

http://www.academia.edu/899580/Skin_Bleaching_and_the_Deconstruction_of_Blackness

Entrevista com Ng’endo Mukii: http://www.youtube.com/watch?v=ixNGF3-v1C8