Ver as bailarinas na televisão, espetáculos, festivais e as do grupo de Jazz que participei como interprete fez criar em mim a vontade inigualável de querer ser igual a elas e executar os mesmos movimentos e as diversas piruetas que elas faziam. Tinha quatorze anos quando entrei pela primeira vez em um teatro e assisti um espetáculo de dança. Ao término desta apresentação minha irmã descobriu as oficinas de dança oferecidas por este grupo que tinha um vinculo com a prefeitura convencendo-me de participar junto a ela. Não tinha nenhum propósito em tirar proveito das aulas, sou de periferia onde dançar é “hobby de patricinha”, e que “ isto é coisa de quem tem dinheiro”. Era algo de fato longe da minha realidade.

Fui para minha primeira aula de dança, e é obvio que aconteceu o que vocês estão imaginando, errei tudo na aula, não conseguia acompanhar quase nada dos passos, enquanto todos se deslocavam para um lado eu ia para o outro. Sai daquele lugar com a sensação de que deveria aprender aqueles movimentos, me enfureci! E a teimosia dentro de mim me fez ser responsável por hoje conseguir executar a maioria dos movimentos que realizo. Este foi o primeiro componente que fez meu corpo chegar a adquirir marcas para formação de meu repertorio de movimentação.

A repetição, teimosia e ansiedade foram elementos do composto que justificam a minha melhora em aprimorar meus passos, era interessante como meu corpo reagia aos tantos esforços repetitivos, e como eles modificavam meu corpo. Graças à teimosia posso dizer que comecei a ter uma infância, que antes foi afetada por conflitos familiares que me custaram uma defasagem na minha formação de individuo. Só após o aparecimento da dança na minha vida que me foi restaurá-la. Fechava-me naquele universo que era só meu, onde só eu podia ser o que eu quisesse ser. Só eu sabia a quanto significante era fazer aquele “espaço”. A dança não só encheu meu corpo, mente, ela foi além tirou minha fome e o foco da família que não tivera. A dança foi meu remo e eu decidi remar contra maré.

Com a busca pela perfeição dos movimentos eu consegui um pequeno repertório de movimentações, os quais eu executava com louvor. Eu não sabia bem o que buscava. Sentia que o barco o qual remava podia me levar a milhares de lugares inesperados, lugares os quais eu nunca vi chegar, mas me fez adquirir experiência em alguns aspectos físicos que fizeram almejar ser uma “grande bailarina”. Então descobri para o quê remava, e o porquê, para ser o melhor do que eu poderia ser. Nessa busca fui perdendo o lúdico do sonho que se transformou em um objetivo realista, ou seja, não era mais um fruto de esperança e sim uma mera meta proposta dentro de um espaço curto de tempo estabelecido por mim para alcançar o topo da perfeição mesmo não sabendo onde isso ia me levar.

Depois com o tempo me veio como confirmação pessoal de que eu deveria ser bailarina profissional. Prestei alguns testes, mas não passava na maioria deles. As pessoas que apareceram na minha trajetória falavam que eu tinha que fazer balé clássico para conseguir entrar em uma companhia, pois até o presente momento só tive contato com outras modalidades. Fazer aulas de balé clássico estava fora da minha questão financeira que foi possível posteriormente após ter conseguir diversas bolsas.

Aos dezenove anos de idade entrei como bolsista em uma escola de ballet clássico, foi quando comecei a dar meus primeiros passos nas pontas. Você deve estar se perguntado como eu consegui? Mas uma vez entrou o composto fórmula em ação. Tive que recomeçar a estudar novos símbolos e reconstruir uma nova visão do que é ser uma bailarina.

Se antes era estranho pensar em assistir a um espetáculo ou faze aulas de dança, agora os embates eram outros. Ser a única negra de uma escola de uma escola com aproximadamente 80% dos alunos oriundos da elite brasileira em uma turma onde todas as meninas estavam em um grau avançado com quinze anos de idade e eu sendo a mais velha dentre todas isso fazia uma tempestade na minha cabeça. Creio que você como os outros devem estar pensando que eu deveria me orgulhar disto, mas diante dos fatos eu começava a conflitar comigo mesma todas essas questões sociais a qual estava inserida. Existia uma diferença e não era da minha cabeça, a imaturidade não deixava perceber que era de fato tratada diferente dos outros.

No primeiro momento encarava como fossem mesmo minha falta de “experiência” aceitava calada as decisões que foram tomando sobre mim, as taxações e estereotipias, as quais não são validas apresentar. Mas o que é valido resaltar é que esses fatos fizeram acreditar que a busca pela minha perfeição de movimentos faria alcançar a ascensão e reconhecimento, permitindo galgar cargos os quais meus colegas de trabalhos diziam que merecia pela minha dedicação e sinceridade que tinha pelo meu trabalho.

Isentaram-me e eu permiti, pois não tinha voz não sabia falar pois fui criada para reproduzir, “bailarina não fala, dança!”. Estava envolvida demais com a figura perfeita da bailarina, para não perceber que já era perfeita. As lutas que travei com meu corpo foi por causa não do certo patrão de perfil que a bailarina clássica tem que ter para dançar. Eu não entendia! Então me infiltrava mais em aprimorar mais minha técnica. Me fazia diversas perguntas e uma delas era. “Porque eu não era escolhida se as meninas da minha sala nunca atingiam a grau de qualidade que meus professores exigiam?” Qualquer motivo era motivo suficiente para me cortarem de cena. A questão era outra eu não era escolhida pela minha falta de padrão físico aprimorado na técnica e musicalidade e sim pela minha “cor” e condições sociais financeiras.

Enlouqueci e para não parar num caminho sem volta, por ter tendências a doenças psíquicas, decidi me prender aos movimentos que me levavam para outra espera de prazeres e sentidos que a minha vida bruta calejava meu rosto de menina e não me permitia sonhar.

Tabata Yara, arquivo pessoal.

Tabata Yara, arquivo pessoal.