É comum vermos manifestações de descontentamento nas redes sociais, em sentindo contrário ao de minorias, a partir do momento que alguém se posiciona a favor de pessoas socialmente oprimidas. Até aí, nada de especial. Cada um tem o direito de pensar o que quiser acerca das inúmeras demandas políticas recorrentes em nosso país.

As dificuldades se iniciam quando os temas em pauta afetam – direta ou indiretamente – a vida de negros, índios, mulheres, gays e transexuais. Justamente por conta deste motivo, é que se torna de vital importância a reflexão consciente antes de rejeitar, logo de cara, os problemas suscitados pelos respectivos grupos.

Com frequência, assisto a multiplicação das “ondas de protesto” nas redes sociais cujos argumentos se assentam em convicções politicamente frágeis e filosoficamente pobres. As falas mais comuns têm o condão de deslegitimar questionamentos colocados em evidência por minorias; muitas vezes por meio do deboche e da banalização de ocorrências gravíssimas.

Declarações corriqueiras tais como “as feministas planejam dominar o mundo”; “negros veem racismo em tudo que é canto”; “deveríamos parar de falar da consciência negra e começarmos a focar na raça humana”; ou, ainda, o discurso da moda, que é aquele que denuncia a “instauração da famigerada ditadura gay” (entre várias outras afirmações de natureza semelhante) possuem o único objetivo de esvaziar o conteúdo político da atuação de gente estigmatizada pela sociedade e historicamente alijada de direitos.

Não se identifica, com pronunciamentos deste perfil, nenhum esforço no sentido de implementar ações destinadas a superação de desigualdades sociais. Muito pelo contrário. O que se verifica é tão somente a nítida intenção de desmantelar o trabalho conjunto de pessoas que reivindicam avanços políticos traduzidos em melhores condições de vida. A propositura de críticas intelectualmente desonestas visa apenas à desqualificação de demandas socialmente legítimas.

Pois bem. Dito isto, gostaria de explicar que o texto se destina a desenvolver a ideia da importância de educar-se sobre do outro. Em outras palavras, a intenção é apontar o quão relevante é – a partir da dimensão política – esforçar-se mentalmente para compreender as problemáticas concernentes às minorias (antes de se posicionar imediatamente contra o que é apresentado sem o mínimo de conhecimento do assunto).

Embora a reflexão se restrinja a temática do negro, o raciocínio análogo pode ser aplicado a outros segmentos sociais.

Primeiramente, quando se fala da condição social da população negra e, em específico, a correlação desta com o “entendimento” do educar-se sobre o outro, isto significa falar necessariamente de racismo; uma vez que o mesmo é a mola-mestra propulsora de todas as demais situações resultantes desta mentalidade negativa.

Racismo – para o senso comum – é apenas identificado em situações chocantes e extremas. Na maioria das vezes, só existente em casos de grande repercussão midiática, ou, melhor dizendo, aqueles que são bastante emblemáticos e nitidamente discriminatórios. Apenas quando se tem notícias de fatos com repercussão nacional é que as pessoas percebem que acontece algo de muito errado na sociedade.

A “sensibilidade coletiva” aflora no momento em que torcedor atira banana em jogador de futebol; quando mulher negra é algemada em ambiente de trabalho e é escoltada pela PM à delegacia, por conta de suposto “desacato à autoridade”. Sem falar que toda a confusão foi gerada, pelo menos, aparentemente, devido a desentendimentos quanto ao preço do cafezinho!

As pessoas só voltam à atenção para o racismo quando ator negro passa 16 dias preso por engano ou, ainda, com a notícia de que mulher negra e trabalhadora foi arrastada por carro da polícia militar.

Ou seja: apenas em situações extremas e absurdas a sociedade como um todo tem momentos de lucidez, conseguindo enxergar a gravidade dos problemas a que diariamente a população negra é submetida.

De resto, nos outros dias, sempre que o fato não ganha espaço nos grandes veículos de comunicação, o que impera é a invisibilidade. É por isso que quando alguém denuncia o problema, acontece a tal “enxurrada de protestos” já comentada.

É justamente neste ponto que se inscreve a necessidade de educar-se sobre o outro.

Isto porque fica difícil entender o mundo de outra pessoa – com todas as peculiaridades que permeiam a realidade alheia – se não há mínima informação acerca das questões em pauta.

Esta busca por conhecimento é de extrema relevância social. A abertura psíquica para realização do esforço intelectual para o entendimento das mazelas que atingem a outrem é o que viabilizará o processo educativo.

Cada um de nós possui dentro de si – de forma bem cristalina – a importância da manutenção de uma rotina de estudos associada às matérias ensinadas na escola; bem como dos assuntos relacionados às disciplinas ministradas na faculdade ou aos apontamentos destacados em cursos de capacitação profissional. O que raramente praticamos é a reprodução da mesma postura estudantil, agora, com foco nas questões sociais.

Educar-se sobre o outro é de fundamental importância. É no movimento da leitura, no esforço mental empregado ao considerar o mundo do ponto de vista “do mundo do seu interlocutor” que se consegue enxergar a realidade com os “óculos” do outro.

Não importa quem seja o interlocutor, o caminho cognitivo é o mesmo. Pode ser a mulher, o negro, o gay, o transexual, o índio ou qualquer outro grupo que milite pela conquista de direitos.

Somente quando nos dispomos intelectualmente a entender as demandas do próximo, a partir do seu lugar de fala, é que saímos da “zona rasa” da observação. Local este, por sua vez, perigoso e limitado dado a tendência à naturalização de problemas graves.

Este é o principal efeito resultante da ausência de educação política. Os obstáculos que “embaçam” a visão se derivam justamente da falta de instrução e de conscientização acerca da conjuntura social relativa às minorias, assim como das causas que levaram esses grupos a reivindicarem direitos e a criticarem determinados comportamentos.

Quando, de fato, aprendemos com o estudo do “universo” do outro, treinamos nossa mente para reconhecer atitudes e posicionamentos “estranhos” os quais passariam despercebidos ou seriam classificados como “naturais” se fôssemos desinformados.

Em relação ao negro, à medida que alguém decide educar-se a respeito da temática, esta pessoa passa a entender que o racismo vai além das atitudes chocantes, extremistas e truculentas. Estas, sim, são apenas a ponta do iceberg.

O educando entenderá, paulatinamente, que racismo é uma visão de mundo. Visão esta deletéria e com profundas raízes históricas; construída a partir de vivência social. Assim, percebendo que, por tratar-se de um tipo de mentalidade a qual orientará determinadas disposições comportamentais, quem se propõe a educar-se sobre o outro capacita seu intelecto para detectar quando esta maneira de pensar o mundo se manifesta em situações corriqueiramente consideradas naturais e insignificantes.

O fato de ser categorizada como banal não “apaga” as consequências reais na vida de quem sofre o resultado destas ações.

Neste ponto, a bagagem educacional a respeito do outro se torna imprescindível. O trabalho de reflexão ocasionado pela vontade de entender a demanda alheia é o que estimulará a identificação, ou melhor, a visualização da linha de raciocínio que conduziu seu interlocutor àquela conclusão ou ao questionamento “Y” ou “Z”.

O exercício de manter a abertura psíquica para o entendimento das questões alheias, informando-se a respeito da problematização de situações aparentemente normais é que terá o condão de propiciar a visão crítica. Até mesmo para discordância, caso seja esta a conclusão formulada. Afinal de contas, todos têm esse direito!

A diferença é que agora a crítica se calcará em argumentos conscientes e não mais em preconceitos do senso comum ou em divagações rasas e falaciosas.

Portanto, com base nos “episódios” citados, é possível ilustrar que os argumentos apresentados no início do texto de que “feministas planejam dominar o mundo”; “negros veem racismo em tudo que é canto”; além do “é preciso parar de falar da consciência negra e deve-se focar na raça humana” e, por fim, a famosa demonização da militância gay – com argumento proselitista de que vivemos sob a égide de uma “ditadura homossexual” – não mais dão conta de explicar toda a complexidade por trás das diversas ocorrências discriminatórias.

A ideia de que todos nós somos vistos, reconhecidos e tratados igualitariamente em uma sociedade hipotética, na qual o racismo inexiste, não consegue explicar com folga as situações enunciadas. Diariamente, por todo Brasil, anônimos vivenciam casos similares, sem que seu histórico de vida venha à tona por meio da divulgação midiática.

Educar-se sobre o outro é politizar-se. E politizar-se, nas palavras da historiadora Marjorie Chaves, “é uma escolha de vida, não tem volta”. Quando nos educamos sobre o ponto de vista do outro, estamos nos capacitando intelectualmente para nos posicionarmos de forma mais consciente e justa em face das demandas sociais que se apresentam. Tal maturidade crítica se faz urgente na atualidade, pois é a partir do real entendimento – tanto da dimensão subjetiva quanto da dimensão coletiva – da condição social do negro que se poderá combater o racismo com efetividade.

 Imagem – Coletivo Negro – USP.

  • Flávia

    Genial. Grata pelo texto.

    • Obrigada, Flávia. O texto é nosso! A missão do Blogueiras Negras é ajudar a conscientizar pessoas e a fortalecer nossa autoestima e disposição para militância. Abraços!

    • josé

      O problema é que a lei nao reconhece diferenças entre os cidadoes, a igualdade de direitos de deveres ja existe (oficialmente) , o que falta é a igualdade social (ja viram um millionario ser discriminado?) e é precisamente isso que o sistema nao quer tocar, porque a pobreza permite manter salarios baixos entao lucros importantes ( exercito de reserva do capital , roubo da mais valia etc..) Que seja o genero , a raça , ou a orientaça sexual , nada disso constitue uma categoria social pois existe mulheres de classe alta, mulheres de classe baixa , mesma coisa pros homosexuais e negros ….todas essas categorias sao atravessadas por posiçao social, nao existe condiçao “da mulher ” no brasil , entre ivete sangalo e as suas empregadas domesticas qual é o ponto commum? também nao existe solidariedade de raça, os brancos se exploram entre si tambem, e entre um negro do candomblé e um negro evangelico (por exemplo ) eles nem compartilham a mesma visao do mundo. Entao infelizmente “racializar” ou “sexualisar ” um problema que é social, impede entender a verdadeira origem deste problema. Isso nao quer dizer que nao existe machismo, racismo e homofobia , mas sao geralmente consequencias da destruiçao do tessido social por um sistema economico desequilibrado que favorece a opressao de classe e consequentemente das pessoas entre si… entao pergunto a voces a ideia é suprimir a opressao ? ou obter privilegios comunitarios pra passar de “categoria” oprimida a opressor? (desculpa a falta de açentos , é um tecado estrangeiro, espero nao ter sido confuso , é um assunto tao complicado a resumir em um paragrafo so) um abraço a todos 😉

  • Muito bom o texto, mesmo! Essa reflexão é extremamente necessária pra que uma mudança prática ocorra na sociedade. E acredito que tal mudança no modo de pensar e agir precisa vir acompanhada de uma mudança na condição de inferioridade econômica, marginalização e descaso ao qual o homem negro é historicamente submetido no Brasil. É preciso que haja igualdade nesse sentido, preciso que as disparidades sejam diminuídas. Tendo esse aspecto mudado, o preconceito étnico não terá mais respaldo para manter-se nos hábitos enraizados do brasileiro.

    • Débora, sua observação é de extrema pertinência social. Nossa missão é árdua, mas não é impossível. Seguiremos fazendo nossa parte, a partir de nossos lugares. Um dos desafios mais importantes é colaborar para o processo de empoderamento da população negra. Um grande abraço. ^^

  • Suéria Dantas

    Texto pedagogicamente educativo, indo exatamente no ponto da questão que é o conhecimento das particularidades do outro. Sem falar na sorte que é ter acesso a narrativas não eurocentradas. Amei seu texto!

    • Obrigada, Suéria! Uma das intenções do texto também foi esta. Faz-se urgente, em nosso país, a produção de uma escrita feminista que não esteja sob a perspectiva eurocêntrica. Abraços!

  • Isadora

    Texto ótimo! Vale a pena refletir.

    • Obrigada, minha querida. Fico feliz que tenha gostado do texto. A ideia é ser justamente isso aí que você pensou: um convite à reflexão. Abraços!