Mais uma vez nós, mulheres negras, iremos à rua. Mais uma vez mostraremos nossa cara para reafirmarmos a nossa humanidade, sistematicamente subtraída por força do racismo. É de nossa natureza sairmos em defesa dos nossos direitos, da nossa família e da nossa comunidade. Temos motivos suficientes para reatualizar as nossas propostas em torno do projeto de país que desenhamos e projetar novas formas de inclusão numa sociedade em que ainda vivemos nas franjas.

A despeito das inegáveis conquistas alcançadas nas últimas décadas, os indicadores socioeconômicos não deixam margem a dúvida: a discriminação racial e de gênero são eixos extremos de exclusão, aprisionando mulheres e homens negros nos extratos mais baixos da pirâmide social, por vezes com mobilidade ainda insuficiente para diminuir o fosso entre brancos e negros. Os dados oficiais são instrutivos, pois reafirmam o que, de resto, constitui realidade incontornável: ainda que a população negra tenha sido a grande beneficiada pelas políticas inclusivas dos últimos anos, ela permanece como a principal vítima das desigualdades, fruto da discriminação e do racismo. Tal situação reclama desenho e execução de políticas capazes de não apenas melhorar as condições de vida de homens e mulheres negras, mas diminuir e eliminar a distância, em muitos casos, que os separa da população branca.

É preciso, portanto, insistirmos na denúncia tenaz do racismo, operação pela qual se subalterniza e, portanto, se cria cidadãos de segunda classe, se tanto, em uma sociedade hierarquizada racialmente. A admissão do caráter estruturante do racismo no tecido social nos leva a fazer uma avaliação profunda dos modelos de desenvolvimento em voga e a pensar em novos pactos sociais, em perspectivas que possam fundar uma outra dinâmica social. Nós, mulheres negras, estamos profundamente empenhadas em contribuir com essa avaliação.

O bem viver como categoria política

A Marcha das Mulheres Negras 2015 ordena-se em torno do enunciado “contra o racismo e pelo bem viver”. A conjugação desses dois termos não se constitui apenas como estratégia retórica, mas procura incidir no projeto de nação levado a cabo desde tempos remotos até às primeiras décadas do século XXI. Nesse projeto, como se vê, a população negra sempre figurou como extrato rebaixado que procurou, sem o consórcio de outros sujeitos, a plena participação na sociedade brasileira no pós-escravidão (estávamos e continuamos, em muitos expedientes, por nossa própria conta). As experiências e os exemplos de nossas formas de resistência são múltiplos e atestam inequivocamente o lugar marginal a que fomos inseridas. Desse lugar, reivindicamos a vida plena, reivindicamos por saúde, educação, arte, lazer, moradia, em lutas infatigáveis. Das práticas dos terreiros, dos laços comunitários entre famílias negras, das manifestações culturais e religiosas, dos investimentos em educação – ações revestidas de caráter político – extrai-se um expressivo repertório de estratégias para o governo de si e dos pares.

São vários os focos de onde o termo emerge. Herdando os princípios de vida das populações indígenas, as constituições da Bolívia e do Equador integram o Bem Viver como nexo prioritário para a gestão do social (o Bem Viver ou sumak kawsay, em quéchua, e Viver Bem ou suma qamaña, em aimará, e sumak kawsay, em quéchua). A Carta desses dois países, parte do entendimento de que povos historicamente discriminados possuem saberes e conhecimentos que podem, legitimamente, ser partilhados para a construção de um novo mundo, para a instauração de outra matriz civilizatória.

A filosofia do Bem Viver ganhou densidade, nos últimos anos, como uma plataforma que interroga os limites do desenvolvimento no mundo: “Neste contexto, o Bem Viver emerge das sociedades historicamente marginalizadas e se projeta como plataforma para discutir alternativas conceituais, assim como respostas concretas urgentes para os problemas que o desenvolvimentismo atual não consegue resolver. É tanto uma crítica ao desenvolvimentismo, como um ensaio de alternativas. É um questionamento que abandona a ideia convencional de desenvolvimento e não procura reformá-la. Pelo contrário, quer transcendê-la”.

Quando deslocamos os princípios do Bem Viver para a sociedade brasileira, percebemos o quanto tais questionamentos nos concernem. Negros e indígenas devem postular lugar ao centro como protagonistas na construção do país e pôr em questionamento princípios e escolhas políticas que acabam por nos excluir do projeto de Nação. É preciso questionar o ideário de desenvolvimento que nos move e propor outras perspectivas e angulações. Necessário se faz recuperar os saberes e fazeres de mulheres negras e concebê-los como ação transformadora com potência para lograrmos as conquistas ainda necessárias para o alcance do pleno desenvolvimento humano.

O desenho e execução de políticas públicas focalistas, o reconhecimento das desigualdades com fundamento racial mostram-se insuficientes se não tomarmos como prerrogativa o reconhecimento das mulheres e homens negros como sujeitos de direitos e, portanto, como humanos. Tal reconhecimento nos reenvia para as discussões em torno da implosão do imaginário racista que, antecipadamente, nos destitui; do papel ativo das mulheres negras no dinamismo da economia brasileira; das buscas criativas e alternativas para sobrevivência material e simbólica; do rebaixamento intelectual a que fomos submetidas; da responsabilidade de cuidar das nossas famílias e das famílias dos outros, na transmutação do trabalho escravo da casa grande para o trabalho doméstico, que só agora porta alguns traços de dignidade com a PEC das Domésticas….

Marcharemos em 2015 nos apropriando do Bem Viver como um valor inegociável. Como dissemos, reconhecemos as conquistas obtidas até o momento, por outro lado, reconhecemos, com tanto mais razão, que é a persistência do racismo a responsável por manter distâncias socioeconômicas que mantêm metade da população vulnerável à própria vida. Repisemos os dados sobre a morte da juventude negra, que exorbitam mais e mais.

Mais do que simples reedição de questões reiteradas, a Marcha das Mulheres Negras será um marco para reinaugurarmos, à luz do repertório já acumulado pelas nossas ancestrais, um outro modo de vida, onde a dignidade, a soberania dos direitos, condições materiais aceitáveis, a educação, o lazer, e o bem-estar configurem padrões de existência para aquelas e aqueles vêm experimentando, mesmo com o avanço das políticas públicas, o direito à vida de modo deficitário e incompleto. Reajamos ao racismo e reivindiquemos o Bem Viver!

Post originalmente publicado em Marcha das Mulhesres Negras 2015.

Imagem de destaque – Comunicadoras baianas expressam apoio para a Marcha
Foto: Isabel Clavelin.