A moça que morreu na queda do viaduto se chamava Hanna Cristina. Tinha mais ou menos o mesmo nome, a mesma idade, a mesma cor que eu. Provavelmente, mais ou menos os mesmos sonhos de jovem mulher e a esperança de um futuro melhor. Muita vida pela frente. “Cancelaram” a festa de hoje, mas será suficiente? Temos (quase) todos a memória muito curta, sobretudo com tanto ópio disponível. Mais tarde tem cerveja, aí a gente esquece, né? Tem gringo, futebol e samba… Suponho que os amigos da Hanna não vão conseguir sambar hoje. Tampouco os do Charlys, a outra vítima, também jovem, também gente. Hoje quem os ama não vai comemorar.

Vamos chorar no Hino enquanto derramam lágrimas mais verdadeiras, muito mais doloridas. Espero que eles tenham algum conforto, algum dia. Que consigam reestruturar suas famílias, lidar com a dor da perda e a revolta com a irresponsabilidade. Que os gritos de gol não incomodem seu silêncio de luto. E que o cruel e absurdo vídeo que está circulando não chegue até eles… Respeito.

Em breve, nem a Cowan, nem a Consol, nem a Prefeitura ou a Secretaria de Obras e Infra-estrutura, nem eu e nem você vamos nos lembrar dessas dores. Lamentar não traz Hanna de volta, não dá a seu pai inválido um substituto no ofício do ônibus, não garante que seu irmão possa dar conta das contas. Amanhã, falaremos sobre outras coisas: BRT, manifestações, polícia, hexa… E o micro-ônibus, o viaduto, Charlys e Hanna, vão caindo no esquecimento. Não para a esposa dele, não para a filhinha dela. Para elas, paz. E justiça para os responsáveis por essas mortes. Mais uma morte.

Imagem destacada: Hoje em dia.