http://colunastortas.files.wordpress.com/2013/04/favela.jpg

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Dizia-se muito da forma elitizada da construção do feminismo, da sua expansão. Diz-se muito que feminismo é coisa de mulher que não tem o que fazer e, cutucando mais a ironia, mulher negra tem coisa demais pra fazer, mexer com essas coisas de feminismo não poderia passar pela cabeça de uma mulher negra. Mas o feminismo negro sempre foi presente e aparentemente bem mais acessível do que “outros” feminismos (deixo como outros pois é muito complicado, pra mim, definir tipos de feminismo). A acessibilidade, no meu caso, se faz exatamente pelas pessoas que compõe os coletivos que fui ingressando, os tópicos debatidos e os problemas citados para a articulação de inúmeras coisas convergiam com o que eu pensava, acrescentavam ao meu pensamento cru e inicial e, ainda por cima, incitavam cada vez mais a minha participação contínua na ocupação de espaços, na expansão do meu conhecimento sobre o assunto e na minha reflexão crítica enquanto mulher, negra, lésbica.

Tive muito receio do feminismo por achar que era algo acadêmico, algo que eu teria que saber explicar, que eu teria que saber escrever e teria que ficar lendo um monte de livros, fazendo um monte de pesquisas e ficar horas debruçada em páginas (o que não é mentira, existe MUITO conteúdo feminista compartilhado pela internet e é só um pequeno começo). Mas conhecendo melhor o feminismo, pude perceber que ele é muito prático também. Mulheres possuem inúmeras capacidades que se completam e é claro que precisamos das mulheres mais acadêmicas e também é claro que precisamos das mulheres mais práticas e isso foi como uma luva. Clareou ainda mais o resquício de receio que eu tinha de trilhar pelo feminismo e, finalmente, conhecer as outras várias oportunidades diferentes que isso me proporcionaria.

O feminismo negro, em uma visão particular minha, se faz muito mais prático. A praticidade citada aqui não se iguala a trabalho braçal, a necessidade de menos leituras, menos tempo de reflexão e uma mente menos crítica, a praticidade citada aqui se iguala a um dos fatores principais do feminismo: igualdade. E assim, concluo que o feminismo negro é, então, principalmente periférico porque muitas das mulheres periféricas são negras, são feministas, mas não tiveram o contato com as pesquisas, os livros, o conteúdo que é de fácil acesso na internet. Quando se fala de feminismo em periferias, juntamente à moradoras de rua, não se nota estranhamento, não se nota um questionamento, aquela sensação de acreditar que concorda mas não exatamente por não saber o que está em discussão. O feminismo negro é prático, pois dialoga com a periferia e necessita desse diálogo uma vez que se constrói dentro e juntamente com ela.

Nas periferias, pode-se perceber claramente que a grande maioria das mulheres são feministas e as mesmas nem sempre conhecem o termo e muito menos obtém informações sobre seus direitos. As mulheres periféricas são quase que automaticamente feministas, nas suas triplas, quíntuplas jornadas. Pensar no feminismo como algo puramente acadêmico é necessário para as mulheres negras e, também, pensar no feminismo como algo prático, de ações diárias, é necessário para as mulheres negras.

Recentemente, junto com a Luana Hansen e a Drika Ferreira, fizemos uma participação na IV Copa Rebelde, em uma ocupação de um local público onde querem construir uma continuação da Sala São Paulo e onde também circulam e residem vários moradores de rua. Durante o show, mulheres que aparentemente nunca tiveram um contato assim com o feminismo se sentiram empoderadas e agregaram ainda mais na minha vontade de expandir o feminismo na sua forma prática. E quem está mais propício para adentrar na periferia? O feminismo negro. Quem possui mais propriedade para abordar o feminismo dentro da periferia com moradores de rua? O feminismo negro. E é por isso que o feminismo negro é, principalmente, periférico – não deixando de lado sua forma acadêmica mas levando em forma prática os estudos acadêmicos de feministas negras, afrodescendentes e brancas para as ruas, de forma que, companheiras que não têm a praticidade da leitura e da escrita, consigam compreender o feminismo e se aprofundarem no conhecimento dos seus direitos e lutarem por eles.