“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.”
bell hooks

A frase no início do texto é da escritora negra norte-americana bell hooks e embora se refira ao contexto daquele país se aplica perfeitamente a realidade das mulheres negras brasileiras. De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres solteiras no Brasil são negras. O mesmo Censo aponta que as mulheres negras são as que menos se casam e as mais propensas ao “celibato definitivo” (FREITAS, 2014).

O fenômeno já rendeu estudos como os de Ana Claudia Pacheco (“Branca para casar, mulata para f…, negra para trabalhar”: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia) e Claudete Alves (Virou regra?). Frutos de entrevistas e observações, os estudos aprofundam o que o Censo 2010 aponta através da pesquisa quantitativa: mulheres negras tem menos possibilidades no mercado afetivo.

A mulher negra enfrenta a solidão independente do extrato social. Não se trata de uma exceção, é a regra, um sintoma histórico que indica um comportamento real, as mulheres negras não têm (em sua grande maioria) a experiência do amor (FREITAS apud ALVES, 2010).

O tema é assunto recorrente nos círculos de mulheres negras, desde as rodas de conversa informais entre amigas até entre as feministas negras. Por aqui já foi discutido em textos como o de Mabia Barros, Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra, que trata a questão a partir da aparente “preferência” dos homens negros pelas mulheres brancas. Ana Claudia Pacheco (2008) afirma que essa situação é recorrente mesmo entre ativistas dos movimentos negros. A aparente “preferência” dos homens negros pelas mulheres brancas estaria relacionada à ideia de que um relacionamento nesses moldes proporcionaria um esmaecimento das fronteiras raciais e, portanto, maior mobilidade social.

A afetividade da mulher negra também foi abordada recentemente no espetáculo Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas da Cia. teatral Os Crespos – texto de Cidinha da Silva. O drama é resultado de uma pesquisa realizada com 55 mulheres negras provenientes de camadas sociais distintas, graus de instrução e atividades profissionais variadas que foram solicitadas a falar a partir de suas experiências pessoais sobre temas como sexo, relacionamentos afetivos, violência etc. Segundo o co-diretor do espetáculo, a afetividade da população negra deve ser tratada como uma questão de saúde emocional:

A arte tem como dever do presente inserir temáticas caras à nossa sociabilidade negra e pensar que nossa saúde emocional é tão importante quanto todas as outras inserções (Sidney Santiago – Cia. Os Crespos In: FREITAS, 2014).

As mulheres negras são ainda as mais prejudicadas em outros segmentos como aponta o Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil (2013) desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. O racismo e sexismo a que estão submetidas perpetuam desigualdades e criam barreiras no acesso a direitos e oportunidades.

Segundo o Dossiê, em 2009 as mulheres negras correspondiam a aproximadamente um quarto da população brasileira, portanto, quase 50 milhões de mulheres. De acordo com a pesquisa, as desigualdades entre brancos e negros no acesso ao ensino superior, oportunidades no mercado de trabalho e outros vem se mantendo. Apesar do aumento no número de negros e negras no ensino superior (proporcionado por políticas públicas), a pesquisa demonstra que os cursos a que essa população vem tendo acesso são os de menor prestígio e que alcançam menor remuneração no mercado de trabalho. Mas, a maior parcela da população negra feminina economicamente ativa segue ocupando postos no serviço doméstico. A pesquisa do IPEA confirma a manutenção das mulheres negras na última posição do ranking salarial (1. Homens brancos; 2. Mulheres brancas; 3. Homens negros; 4. Mulheres negras).

Muitos dos estudos apresentados informam que, além de haver um diferencial de raça e gênero, a combinação destes atributos leva a uma considerável desvantagem deste grupo no que diz respeito à sua forma de inserção no mercado de trabalho e, principalmente, às disparidades de rendimentos.

As mulheres negras são ainda, segundo a pesquisa IPEA, as mais vitimizadas pela violência doméstica. Jackeline Romio (2013) ao analisar os dados sobre violência contra a mulher negra destaca como aspectos que impulsionam as agressões contra essas mulheres a “exploração da sua imagem pela mídia nacional como objetos sexuais, […]; propagandas em que são vistas como produto sexual e nacional a ser consumido […] – imagem da mulata e o carnaval […]”.

Todos os dados apresentados anteriormente demonstram a situação de vulnerabilidade a que estão submetidas as mulheres negras no Brasil. O binômio sexismo e racismo (poderíamos acrescentar ainda o critério de classe) enraizados na sociedade brasileira se materializam em obstáculos que tornam o cotidiano dessas mulheres um verdadeiro campo de batalha. A maior parte dos estudos sobre mulheres negras se debruçam sobre os aspectos materiais de suas vidas e pouco aludem ao universo subjetivo, ao sensível. Os estudos e discussões sobre a saúde da população negra e da mulher negra particularmente tratam das questões do corpo, mas não se ocupam de analisar a saúde emocional dessa população (são raros os estudos acerca da relação entre racismo e adoecimento emocional da população negra).

Para uns, falar de amor tornou-se piegas; para outros, pensar e falar sobre afetividade e experiência do amor dentro do segmento afrofeminino ganha conotação “rancorosa” e vitimizada. Contudo, são anos de silêncio, submissão e incompreensão das relações. “Quanto mais quebramos o silêncio, mais vamos nos empoderando e mudando o que está posto historicamente”, afirma Flavia Rosa (FREITAS, 2014).

O tema afetividade não alude apenas às relações conjugais, mas também às relações familiares e os laços de amizade. Todos esses aspectos carecem de estudos no que concerne à população negra. A abordagem da afetividade seja através de ações e práticas sócio-culturais ou educacionais é fundamental no processo de empoderamento e fortalecimento da auto-estima das mulheres negras.

À medida que essa mulher se empodera e encontra histórias iguais à dela, a solidão perde a conotação de dor e passa a ser sinônimo de liberdade, ou, […], um ato politico e curativo. “O corpo ressignifica esse processo com a autoestima. A corporalidade pode ser revista e traz uma reconstrução da autoimagem. São mulheres que têm algo em comum, mas não são todas iguais”, explica Ana Claudia Lemos Pacheco. “A saída é um empoderamento da mulher negra, lembremos que somos nós que educamos esses homens e que alguns estereótipos precisam deixar de ser reafirmados por nós, mulheres negras. É a nossa verdade, quando a mulher negra fala, incomoda e gera o inconformismo”, reitera Claudete Alves (FREITAS, 2014).

Os espaços de encontro, discussão e expressão das experiências afetivas das mulheres negras ainda são restritos. Iniciativas como a das Blogueiras Negras são fundamentais para alargar esses espaços e propiciar às mulheres a possibilidade de trabalhar suas questões afetivas e cuidar de sua saúde emocional através do encontro, compartilhamento de experiências e da sororidade.

Notas

[1] LIMA, Marcia [et al] (org.). Articulando gênero e raça: a participação das mulheres negras no mercado de trabalho (1995-2009). In: Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília: IPEA, 2013.

[2] ROMIO, Jackeline Aparecida Ferreira. A vitimização de mulheres por agressão física, segundo raça/cor no Brasil. In: Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília: IPEA, 2013.

Referências Bibliográficas

ALVES, Claudete. Virou regra? São Paulo: Scortecci, 2011.
ARAÚJO, Clarice Fortunato. Porque as mulheres negras são minoria no mercado matrimonial? Disponível em: http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1314405972_ARQUIVO_PORQUEASMULHERESNEGRASSAOMINORIANOMERCADOMATRIMONIAL.pdf. Acesso em 10 de jun. 2014.
BARROS, Mabia. Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra. Disponível em: http://blogueirasnegras.org/2013/06/14/sindrome-de-cirilo-e-a-solidao-da-mulher-negra/. Acesso em 10 de jun. 2014.
FREITAS, Maitê. A cor do amor. O cotidiano afetivo da mulher negra: da compreensão da solidão ao empoderamento. Edição 188, março 2014. Disponível em: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/188/artigo308843-2.asp/. Acesso em 10 de jun. 2014.
GONÇALVES, Juliana. Afetividade negra – porque beijar sua preta em público é um ato de resistência. Disponível em: http://www.ceert.org.br/programas/juridico/noticias/noticia.php?id=3587. Acesso em: 10 de jun. 2014.
HOOKS, Bell. Vivendo de amor. Disponível em: http://naluidread.blogspot.com.br/2008/06/vivendo-de-amor-bell-hooks-o-amor-cura_9183.html. Acesso em 10 de jun. 2014.
MARCONDES, Mariana Mazzini…[et al] (org.). Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília: IPEA, 2013.
PACHECO, Ana Claudia Lemos. À procura de um parceiro: raça, gênero e solidão na trajetória social e afetiva das mulheres negras em Salvador, Bahia. IX Congresso Internacional da Brazilian Studies Association. New Orleans: Tulane University, 2008. Disponível em: http://www.brasa.org/Documents/BRASA_IX/Ana-Pacheco.pdf. Acesso em: 10 jun. 2014.
_________________________. “Branca para casar, mulata para f…, negra para trabalhar”: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia. Tese doutorado. Campinas: Unicamp, 2008.

  • LL

    Eu vejo os comentários das outras negras aqui e penso que eu devia falar algo empoderador, mas só consigo pensar em “Infelizmente, eu me identifiquei.”.
    Solidão é uma coisa muito pesada, e eu me sinto mais seca a cada dia.

    Ótimo texto. Obrigada!

  • Ceci

    Quando digo que a mulher negra é sim solitária, ouço das pessoas que sou paranoica, que tenho mania de perseguição e tantas outras sandices. Inclusive ouço isso de mulheres negras e solitárias, que não admitem a realidade. Com todo o respeito àquelas que fazem alisam os cabelos, muitas o fazem para serem aceitas nessa sociedade racista, que quando se referem a lugar frequentado pela chamada “gente bonita”(termo que eu particularmente abomino) , geralmente estão se referindo a um local frequentado por pessoas brancas.

  • Priscila Nonato

    Gostaria de adquiri o livro Virou Regra .Alguém poderia me fornecer o Facebook da autora ? Desde já agradeço.

  • Telma xavier

    Excelente texto, esse assunto foi abordado de uma forma lógica e coerente, eu sendo negra mulher de 43 anos casada com um homem negro que amo, tenho dois filhos negros lindos, venho observando a bastante tempo, e fico muito incomodada com essa questão, será que os homens negros acham que nós, mulheres negras somos todas feias?.Quando ainda namorava com meu marido, um amigo negro disse que eu tenho que casar com um branco para poder limpar minha cor, eu não acreditei no que ouvir. Tive uma conversa franca com ele sobre o pouco esclarecimento que eu tinha , hoje ele tem outra visão.Quanto a mim cabe a ensinar aos meus filhos a se amarem ,espero que eles não precisem passa pela terça metade do que passei.

  • Estou chocada com os comentários e como me identifico com todas vocês! Venho passando por isso minha vida inteira e vejo minhas amigas ,que inclusive são bonitas passando pelo mesmo. Algumas meninas por não terem opção melhor ,preferem ficar sozinhas como eu,outras aceitam o que vem pela frente pra não acabarem sozinhas. É como se os caras que eu conheci sentissem atração por mim,me achavam legal e boa ,mas pra namorar /casar não…” Vc é ótima,muito legal…mas com vc só quero ficar.” (Ou até pior: com vc só quero transar).
    Não estamos dizendo que isso não acontece com as mulheres brancas também,mas dificilmente NÃO vai acontecer com as negras e nós sabemos o porquê. Por preferência,conforto..e tudo mais,a gente já sabe!
    E quando comentamos isso com alguém,parece que estamos loucas,que tudo é bobagem da nossa cabeça. Mas Se vc não sente na pele,não vai entender.
    Não estamos falando de ficante,ou algo do tipo…estamos falando de relacionamento sério,de amor! Nós também queremos e com quem a gente julgar melhor pra gente.

  • Ana Beatriz

    Olá, meninas!!! Eu queria saber se existe uma forma mais fácil de ter acesso aos textos de vocês, como por exemplo, uma página no Facebook. Os textos são ótimos e eu adoria poder compartilhar-los com mais pessoas.

  • Vanessa

    Pela primeira vez vi todos meus questionamentos expressos num texto!! Gostaria que minhas amigas pudessem ler e perceberem que eu não tenho baixa estima mais vejo a realidade, onde nós mulheres negras não passamos de meros objetos sexuais e que devemos nos acostumar a vivermos escondidas nos encontros que as madrugadas nos impõem.

  • Luara

    Estou amando esse blog, situações que vivenciava, mas nao compartilhava com ninguém hj posso ler, saber que existem explicações, pessoas que passam pelo mesmo. Me sinto entendida e encontro explicações para o que eu nao tinha!!!

  • Paula Mendes

    Já ouvi muita coisa ruim. Uma delas foi “Pra gostar de você só se for um bêbado”.

  • Rita

    Desculpa Domingos! Mas, nunca mais na minha vida ajudo um homem (seja ele negro ou branco) a crescer na vida. Não mesmo!
    Fiz isso com o meu ex-marido (homem afro descendente), ajudei-o a crescer, a conquistar um bom emprego (hoje é servidor público e ganha muito bem graças a minha ajuda)… e o que eu ganhei? Abandono na hora em que mais precisei! Aprontou tanto, me fez sofrer tanto que fiquei enferma e não aguentando mais tantas angústias, tanto descaso, falta de respeito e etc…pedi que fosse embora. E ele aceitou! Me deixou doente, depressiva e com a moral totalmente desgastada. E o que ele fez mais? 10 meses depois da separação, casou-se com outra. E pasmem! Com uma mulher branca. :\
    Preconceitos? Piadas com a cor da minha pele, tipo de cabelo? Ouvi demais no tempo da escola. Hoje sou mulher afro descendente empoderada SIM! Graças a Deus, aos meus pais e aos meus estudos.
    Eu cresci, estou onde estou (sou pedagoga, servidora pública) devido aos meus esforços e a ajuda dos meus pais. Se eu me esforcei…por que um marmanjo não pode fazer isso, se virar e crescer na vida sem “subir” nas costas de uma mulher negra/afro descendente que pode está apaixonada acreditando que terá ao menos o retorno emocional?

    • Preta A

      Estou com você Rita!!! Também tive um namoro com um angolano. Ajudei ele na faculdade durante todo o namoro. Depois que ele formou me inventou uma história e voltou para a Angola. Lá, eu ainda ajudei ele com materiais para começar a dar aula. Agora que ele está bem, simplesmente me disse que o mínimo que ele poderia me fazer é apresentar a família dele e cada um seguir o seu rumo. Nunca mais na minha vida eu ajudo um homem!!!!! Eu sei que fui ingênua, mais não justificava tanto abuso.

  • Elisângela

    olá quero agradecer a pessoa que teve essa idéia incrivel de criar esse blog. Falando sobre esse assunto queria acrescentar sobre a questão da negra ser magra… acreditem levei um fora por causa disso, meus amigos fazem piada com a minha cor (ex: Cafetina, Noite feliz) eu até que tento rir, achar engraçado. Tenho vontade de sumir… me sinto muito mal vou fazer 19 anos em abril e me sinto ainda como uma criança que ainda vai entrar na adolescência. Eu tento gostar da minha cor, do meu corpo. mas a mídia, a música, as redes sociais, amigos e etc te faz lembrar que você não se encaixa. puta que pariu seu eu nasci negra porque não veio com o corpã também? Ser negra e magricela é a pior desgraça que ja aconteceu! Pior se essa neguinha morar no brasil…
    Mas tenho meus planos: estudar, conseguir um bom emprego e se eu quiser ter momentos de prazer, garotos de progamas!!!
    Ps: só fiquei com 3 garotos na minha vida. Nunca namorei ninguem.

    • Você não precisa do aval da mídia, da musica, das redes sociais, dos amigos, ou de quem quer que seja, para gostar de si mesma. Nascer negra não é defeito, muito pelo contrário, é lindo, apesar do preconceito de algumas pessoas. Mas se te incomoda ser magra, faça musculação, digo isso porque nunca gostei de ser magro, com o aumento da massa muscular, aumentou minha auto estima também, isso faz toda a diferença na hora de encontrar pessoas interessantes e interessadxs. Em primeiro lugar goste de você mesma, sei que não é fácil, mas vale a pena tentar. Eu tive a oportunidade de treinar mulheres que se sentiam assim, como eu e você, o resultado demora um pouco, mas vem e não, não precisa usar esteroides, nem nada dessas porcarias. Te desejo tudo de bom! ^_ ^

  • Angela Medeiros

    O que é o amor? Que tipo de amor se referem? Ao amor cristão? Ao amor cristão do homem negro, até mesmo do amor cristão do homem branco? Porque queremos esse tipo de amor se sabemos que é o mais cruel? Pq ainda escrevemos o quanto somos “desamadas”, sendo que o amor verdadeiro que devemos lutar é pelo amor próprio? Oh não baby, eu não compactuo com esse discurso.

  • Fernanda Rachel

    Adorei este texto e me vieram muitas cenas importantes vividas durante minha vida.

  • Esse texto é muito bom! Toca em vários aspectos importantes relacionados a afetividade da mulher negra, mas o que mais me chama a atenção é a questão do silenciamento imposto a mulher negra em relação às suas vivências. Com as usuais estratégias de desqualificação da fala para impedir a pronúncia, a verbalização. Questiono até o argumento de bell hooks (quem sou eu pra fazê-lo? rsrs) quando afirma que é a dor que produz o silêncio. Concordo apenas em parte com hooks porque além da dor imposta pela situação em si, a dor pode ser intensificada por falas que geralmente ouvimos quando expomos nossos sentimentos. É como na cantiga de roda: “não foi nada, quem sentiu a dor fui eu…” Minimizar o que a outra sente é uma forma de insensibilidade com o sentimento alheio e motiva o silenciamento. Ou seja, engula o que te incomoda e siga a vida. Mesmo se o que você tiver que engolir possa cortar ou entalar sua garganta. Precisamos criar espaços de fala sobre nossas questões. E, principalmente de escuta…

  • rebeca

    Eu já passei por isso,tenho 18 anos e percebi que sofria com a solidão quando um rapaz negro me disse que eu era bonita mas que não ia ficar comigo e nunca me explicou muito bem, eu não entendia o porque,achava que era culpa minha .E depois que comecei a me empoderar,percebi que nunca tinha ficado com alguém que eu realmente gostasse e por mais arrumada que estivesse numa festa nunca era a primeira opção,ao contrario das minhas amigas brancas que nem precisavam se arrumar tanto.Eu e uma amiga negra conversamos sobre isso e ela passa o mesmo que eu,temos 18 anos e nunca namoramos,já cheguei a aceitar proposta de relacionamento aberto sem nunca ter experimentado um namoro.Minha tia ,que tem nivel superior chegava chorando na casa da minha mãe porque já tinha 30 anos e não arranjava ninguém,sempre tinha que sustentar seus namorados e minha mãe foi abandonada grávida.Tenho medo de estar fadada a solidão.

    • Ester

      Eu entendo o que você passa rebeca também tenho 18 anos e isso me frustra bastante. Realmente penso que vou passar o resto da vida sozinha, parece que para mim sempre é mais difícil, principalmente nessa área dos relacionamentos. Me sinto solitária e não tenho ninguém com quem conversar sobre isso, quero dizer uma mulher negra que entenda o que estou passando na minha vida agora. Esse texto me deu de certa forma um alívio por saber que não sou só eu nessa situação e certa tristeza por saber que minhas irmãs, assim como eu também sentem essa dor, a dor da solidão.

  • Jose Cupertino da Luz Neto

    Desculpem-me por invadir o espaço de vocês mulheres. Mas,, se o faço, é em solidariedade. Já sofri discriminação na pele, quando morei nos EUA, em 1972, porquanto não admito discriminação de espécie alguma. Viva a igualdade. A sociedade brasileira deve, e muito, à população negra que ajudou a desenvolver e ainda contribui para o crescimento deste país. José Cupertino. Advogado.

  • Só tenho a lamentar não ter lido este texto 20 anos atrás.
    Na minha família multi-racial, sou a mais “escurinha”, a feinha, a pretinha, a do cabelo ruim. Cresci totalmente sem referências positivas. Me apeguei aos livros, porém como um abrigo para a solidão, e não com um objetivo. Mesmo sendo boa aluna, não via horizontes além de balconista ou doméstica.
    Letrada, pobre e “metida”, era boa demais para o frentista, porém invisível para os colegas de faculdade.
    Tive um longo relacionamento com um homem branco, mais velho e casado. Até hoje diz sentir minha falta, dos nossos “altos papos”, mas jamais cogitou me assumir perante a família.
    Consegui um emprego melhor, e depois dos 35 anos, acabei casando com um rapaz sem instrução, com o qual não tenho nem metade da cumplicidade que sonhei no casamento, mas que me faz companhia, me deu filhos, e trabalha seu machismo para resistir a tentação de me tolher.
    Cheguei a este texto buscando respostas para a solidão que me assola, que nunca largou de mim. Sempre pensei em psicologia, carma ou caráter para responder esta questão, e me surpreendi com esta visão como problema social e coletivo.
    Hoje é terça-feira de carnaval, e muitas escolas de samba, além de agremiações em todo o país exaltam a cultura e a comunidade negra, esta a que nunca tive oportunidade de pertencer, mas que agora me faz pensar: não estaria aí a resposta que venho procurando? Meus problemas, afinal, não são só meus, mas há uma composição grande de pessoas que passam pelo mesmo que eu?
    Vou manter este blog nos meus favoritos.
    Obrigada!

  • Gabriela Muniz

    E justamente por essa falta de opção (de boas opções), a mulher negra se vê limitada e tem que se sujeitar a viver em relacionamentos por migalhas…para não ficar sozinha.

    Muitas sonhadoras se espelham em amigas que conseguiram se casar com europeus, mas elas não têm a real noção do preço alto que terão que pagar, tendo que deixar a sua família aqui para viverem em outro país, sem apoio e torcendo para não serem frustradas nesse relacionamento também.Não dá para se esperançar apenas em gringos!

    Não estou dizendo que toda mulher negra vai ser infeliz num relacionamento, mas raramente vejo uma mulher negra casada que é devidamente valorizada como mulher, companheira e pessoa….e tenho certeza que muitos já notaram essa realidade.

  • Aparecida

    Não só a Mulher negra como também nós Mulheres com deficiência.Sou branca,hetero,inteligente,bem humorada,educada.Tenho 1,74,loira de cabelos cacheados,corpo em forma (faço academia)mas,masssssssssssss nasci com uma deficiência no braço direito.Ser assim é como se me reduzissem a nada,nada mesmo.Todo meu valor,essência não importa.Sou paquerada mas pra namorar nunca,só querem T…entre quatro paredes.Já ouuvi de homens na rua “gostosa mas sem braço” “E ai cara,tem coragem?um perguntando pro outro na minha cara.Sei o que é solidão,indiferença,rejeição desde que nasci.Vivo hoje um celibato forçado,pois a concorrência não anda fácil pras que estão dentro dos padrões,imagine pra gente.Essa falta de relacionamentos amorosos dói no osso.

    • LL

      “.Essa falta de relacionamentos amorosos dói no osso.”

      Exatamente a dor que sinto. Ela vai no osso, no estômago, na alma.

  • E agora o racismo-sexismo do show de mulatas encontrou espaço dentro do Ipea! O pior é que o Ipea, ao invés de declarar que não admite esse tipo de coisas, tenta apenas se esquivar e abafar o caso. Típico.

    http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2014/10/03/servidores-do-ipea-protestam-contra-show-de-mulatas-em-congresso-academico/

  • Gabriela Muniz

    Esse assunto é tão delicado e doloroso, sei porque sou mulher e negra, tenho 27 anos e já vivi situações discriminatórias por diversas vezes no que diz respeito a autoestima e relacionamentos.
    Na escola, com já disseram, nós, mulheres negras já sentimos as diferenças. Quando era adolescente, percebia que os garotos da classe sempre davam mais atenção as garotas brancas, mesmo aquelas que não eram tão belas assim.
    Sabemos que nós negras nunca fomos mulheres de receber muita atenção, sermos cortejadas e paqueradas….para que isso aconteça, a negra tem que ter um corpo desenvolvido, cabelos alisados e de preferência longos, ah, e ser sociável….se vc for negra e se impor um pouco mais é sempre vista como “a metida a besta”….
    Quando saía com algumas amigas brancas, mesmo estando bem arrumada e produzida, via que os garotos só chegavam nelas, e eu ficava de lado, cheguei a chorar uma vez depois que cheguei em casa de uma balada…nós negras sabemos que é assim!
    Eu mesma tenho nivel superior e não consigo me relacionar com um rapaz do mesmo nível que o meu. Não que eu seja arrogante, mas eu gostaria de ter a opção de também poder escolher um rapaz assim, mas até o momento não tenho.
    É muito complicado falar sobre isso, porque nos fere de uma forma muito intensa, e só sendo mulher negra para falar disso com propriedade, sem errar.
    Apesar disso tudo, eu não me deixo abater, sigo em frente estudando e buscando ser feliz na vida sentimental, só quis compartilhar aqui um pouquinho da minha história, do que já passei.

  • Isa

    Feliz em encontrar um texto que organizou e acrescentou algo que eu, de forma não tão consistente, já tenho ciência a muito tempo.
    Como mulher, jovem, pobre e ingressante no ensino superior de uma universidade federal, sinto meu ciclo de amizades diminuindo. Como se eu estivesse isolada num pequeno quadrado na fronteira entre classes, socialmente , economicamente , intelectualmente, culturalmente falando.
    Entre muitas aspas, para não soar como complexo de superioridade nem falta de auto estima, hoje, é como se eu fosse “boa” de mais para um(a) frentista , (que prefere as brancas ) e “ruim” de mais para um(a) alguém desse novo meio ( que prefere as brancas) meio sem pobres , praticamente sem negros ( dos poucos que existem, preferindo as brancas).

    Lembro de um episódio no ensino fundamental. Para formar casais a professora achou adequado que os meninos, minoria, escolhessem as meninas e nessa ordem foram escolhidas: as brancas, as magras e as negras. A última foi uma menina mulata (odeio usar esse termo) , de cabelos lisos e compridos, nesse dia sobrou eu, negra, gordinha (na época) cabelos crespos e uma garota com deficiência mental. Percebi que as coisas seriam “menos piores” se eu me adequasse a essa preferência da forma que fosse possível, magreza, cabelo, uma plastica no nariz virou sonho de consumo. Bom, hoje, adulta, confronto isso de uma forma mais inteligente, assumindo minhas características e origens, me empoderando. Mas quando se é criança e sem orientação, isso machuca e foi naquele dia que percebi que as coisas seriam diferentes para as negras, para mim.

    Excelente , texto, parabéns. 🙂

    • Dulci Lima

      Isa, essa situação que você colocou da escola é tão comum entre nós, né?! Triste, mas muito comum. A escola é o lugar onde a gente entende na vivência cotidiana o que é o racismo! Mas, fico feliz que esteja empoderada hoje.
      Bjs, querida!

    • Domingos

      Um exemplo…existem homens negros com nível superior, que não conseguem colocação profissional nas suas áreas de atuação…lembre-se o homem negro é sempre empurrado para serviços de baixa qualificação, mesmo tendo boa formação!

    • Isa, me identifiquei muito com o que você escreveu, também vim de uma família pobre, fui a primeira a me formar no ensino superior e a única a estudar em uma federal. Também somente depois de adulta, lendo sobre gênero e raça, é que abri meus horizontes. Ainda estou em busca de respostas, mas antes a procura do que a inércia de se acomodar.

    • Ceci

      A escola me deixou marcas profundas e até hoje luto para supera-las.

  • Isa

    Feliz em encontrar um texto que organizou e acrescentou algo que a pouco tempo venho notado. Como mulher, jovem, pobre e ingressante do ensino superior numa universidade federal sinto meus ciclos de amizade de diminuindo. Como se eu estivesse isolada numa na fronteira das classes sociais, economicamente, intelectualmente e culturalmente falando.
    Entre muitas e muitas aspas, para que não soe falta de autoestima, nem complexo de superioridade, enfim, hoje é como se eu fosse “boa” de mais para o/a frentista e “ruim” de mais para um/a estudante dessa nova classe que estou me inserindo. Classe sem negros, sem pobres, sem mim.
    Estando nessa situação ninguém precisa ter traços anti-sociais para sentir solidão.

    O texto foi brilhante, parabéns.

    • Domingos

      Muito bom o texto…sou negro, pós graduado e concursado, não na minha área de formação mas num cargo de nível médio, sou casado com uma mulher negra que não tem meu nível de escolaridade nem intelectual, mas relevo pois sei que nossa raça vem sendo oprimida desde de o nascimento desse pais, e minha esposa não tem culpa de muitas vezes mesmo tendo nível médio…escrever errado ou entender termos do linguajar erudito…simplesmente não converso com ela sobre questões mais filosóficas…me silencio…mas estou investindo no meu filho …e ele sim fara parte de uma nova geração de homens negros e cultos! Conselho: Conheça um homem negro e o ajude a fazer uma faculdade eleve-o!

  • Suéria Dantas

    Que reconfortante é saber que mesmo distantes fisicamente podemos entender as questões de cada uma de nós, é inegável o quanto esse blog vem sendo importante para mim. Parabéns a todas vocês e minha gratidão pelo esforço em elucidar essas questões que são tão nossas e que não poderiam ser esmiuçadas em outro espaço que não fosse particularmente tão familiar a todas nós.

    • Dulci Lima

      Que bom, Suéria! Muito obrigada!

  • Fernanda

    Sinto urgência em tratar deste assunto seja o da solterice e das relações abusivas que a maioria das mulheres negra vivem, disse aqui a maioria pra não cair no erro em generalizar, porém todas a mulheres negras que conheço e me incluo aí, sofrem em algum grau abusos em suas relações afetivas seja conjugal familiar ou de amizade e muitas vezes não se dão conta do que estão vivendo. Por muito tempo achei que o erro estava em mim que tinha quer uma filha melhor, uma garota mais atraente, uma esposa mais amável e condescendente, uma profissional mais esforçada, uma mãe mais mãe, entretanto tudo que eu preciso ser sou eu na minha mais profunda autenticidade e aceitação, então tudo que eu fizer enunciará na minha contribuição o melhor de mim e Não o que me exige o patriarcado. Dulci Amei seu texto falou profundamente comigo e quero convida-la pra rode conversa que estmaos fazendo na minha cidade como podemos conversar sobre esse encontro?

    • Dulci Lima

      Que legal, Fernanda! Me procure no e-mail dulcilei@gmail.com. Aguardo seu contato.

  • Mayara

    Não há como negar que esse blog foi útil para mim já vinha acompanhando há a algum tempo e ver historias de mulheres negras ajudou muito na minha identidade. Moro em salvador tenho 19 anos, e sou negra e sou bonita apesar da sociedade mostra todos os dias o contrario. Frequento lugares onde a maioria é branca sinto na pele o racismo no dia a dia no começo quando eu tinha meus 8 anos não entendia porque sofria, o que havia errado comigo porque as pessoas não gostavam de mim, cresci sendo uma menina tímida, foi chegando a adolescência e percebi que era meu cabelo que não estava certo que a minha cor da pele não era aceita, tentei me encaixar na padrões da mídia e quando sofria um racismo por debaixo do pano ignorava, meu lema foi, aceita que dói menos. Porém fui ficando deprimida não podia mais suportar isso calada e quando eu abria a boca para defender a minha cor as pessoas (até mesmo meus pais) diziam para esquecer essa mania de que tudo é racismo. Quando falava demais do povo negro me diziam que branco também sofre racismo sem falar da minha religião, um membro bem respeitado que é presidente de lá mandou alisar meus cabelos, pois como pregamos de casa em casa falando com as pessoas o cabelo afro ia causa uma má impressão e desconforto nelas e ordenou que parasse de compartilhar no facebook noticias sobre movimento negros , ficava triste e humilhada com essa situação, quando tinha noticias sobre racismo contra o negro via vários comentários falando que o negro se faz de coitadinho, que favelado já gosta de amar uma confusão fora de contexto e um monte de baboseira que faz mal repetir.
    Foi pesquisando no google achei pessoas que não se conforma com essa situação adoro todos os posts daqui, são interessantes e inteligentes e embora o racismo seja tão cruel e ignorante as pessoas daqui sabem debater com educação tenho orgulho disso e me sinto representada.

    • Dulci Lima

      Lindo depoimento, Mayara! O Blogueiras é um espaço incrível exatamente porque nos permite encontrar nossos pares e trocar experiências. Não deixe de compartilhar os debates sobre racismo, não deixe os racistas vencerem! Bj

  • Irací

    Lamentável esta situação. Em plena era em que estamos e algumas pessoas com uma mente fechada, sem poder pensar e refletir que as negras também são seres humanos e portanto merecem o nosso respeito e aceitação na sociedade. Como sabemos cor não faz a pessoa e sim as qualidades que ela possui. Portanto acho de extrema importância que as escolas continuem com os trabalhos étnico-raciais orientando as crianças e quem sabe futuramente poderemos ter seres com mentalidade diferenciada.

    • Dulci Lima

      Iraci (xará da minha mãe), acho que ainda estamos engatinhando no ensino para relações étnico-raciais, mas já é um começo. Espero que minha filha quando estiver na idade adulta já enfrente uma situação melhor do que a minha.

  • Leonardo Aguiar

    Dulci Lima, esse assunto vem tomando minha atenção há algum tempo, a impossibilidade do amor para as mulheres negras! Um crime social, como muitos outros, que enquanto negros somos submetidos. Adorei o seu texto, me deu mais condições de, inclusive, refletir sobre a minha postura, enquanto homem e negro! Mais um vez, obrigado!

    • Dulci Lima

      Que demais, Leonardo! Você não imagina o quanto me deixa feliz saber que você foi tocado pelo texto. As pessoas costumam acreditar que o amor, o afeto é mágico e está livre das amarras sociais e preconceitos. Infelizmente, não está. Nossas escolhas não são tão livres assim! Faço votos de que siga nesse caminho.

  • Mariana Santos de Assis

    Impressionante! Excelente reflexão e maravilha de trabalho de pesquisa! Sempre falo que nosso maior desafio ao lutar contra a opressão é tornar político e científico, algo que as pessoas acostumaram a considerar totalmente subjetivo e particular. Vc ahazou Dulci!!!

    • Dulci Lima

      Pôxa, Mariana! Muito obrigada mesmo! Concordo com você! É importante abordarmos as questões a partir de nossas experiências pessoais, mas é também fundamental que façamos dessas experiências material para trabalhos mais científicos que possam atingir outros públicos e serem utilizados como argumento para proposição de políticas públicas e outras ações de combate ao racismo!

  • Walquíria

    Excelente texto. Esse assunto merece ser melhor discutido, pois mesmo na s chamadas relações amorosas “estaveis” (para quem ?) mostram uma inferiorizaçao da mulher negra por seu parceiro, o que gera conflitos e acaba por tornar a convivência impossível. E o medo de repetir o erro acaba também fazendo com que novas tentativas sejam evitadas.

    • Dulci Lima

      Estou de acordo, Walquíria! Gostaria de mais reflexões, olhares diversos sobre esse assunto. A solidão da mulher negra não se resume a solteirice, mas também em estar numa relação abusiva.

  • Dulci Lima, só tenho que te parabenizar e te agradecer por tocar em um assunto tão delicado, que nos fere tão seriamente. O texto está muito bem escrito e sua reflexão, acertou na mosca! Obrigada por denunciar uma construção sociopolítica de opressão que atinge a tantas mulheres negras. Um grande abraço!

    • Dulci Lima

      Muito obrigada, Amanda! Fico feliz em contribuir!