A nossa maioria se acostuma a só dar atenção aos casos de racismo quando eles ganham uma exposição maior na mídia.

Esses casos se tornam notícia quando chegam a situações extremas como mortes, sequestros, torturas e prisões “por engano”. Não digo que esses casos não mereçam a devida atenção, acontece que no dia a dia de negrxs, os atos de racismo são maquiados, sutis e acontecem com uma frequência absurda. Os olhares de reprovação, o afastamento das pessoas, o rico segurando firme a bolsa, a porta do banco travando, a “batida” indevida da polícia, a reprovação em entrevistas de emprego, o turismos sexual e a expulsão da padaria de classe média são exemplos. Sim, expulsão da padaria!

No dia 04 de julho de 2014, eu e alguns amigos de maioria negros fomos na padaria Diplomata no centro de Belo Horizonte comprar umas bebidas quando decidimos sentar lá para comer e conversar. A padaria estava cheia por ser dia de jogo da seleção e, além das funcionárias, nós éramos os únicos negros de lá. Mesmo todxs com as comandas na mão, um suposto gerente da padaria não parava de questionar, exclusivamente a nós negrx, se havíamos pagado o produto. Ressalto que durante todo o questionamento, ainda estávamos consumindo. Nosso papo foi interrompido várias vezes pra saber se a gente tinha a intenção de sair sem pagar. Uma amiga, educadamente, indagou o gerente já que a situação já estava ficando incômoda ao extremo, quando foi surpreendida com berros. O moço dizia que só estava vigiando a padaria dele, estava só fazendo o trabalho dele e que não precisava da gente lá. Mandou que fossemos embora.

Claro que não acatamos pois estávamos pagando como qualquer outro cliente “branco classe média” comum daquele estabelecimento e tínhamos o direito de concluir nosso lanche antes de ir.

O bate boca se estendeu quando nos recusamos a retirar nossa presença negra daquele lugar tão puramente branco, e como se não bastasse, o gerente se direciona a mulher negra e recita em alto e bom tom que “Essa padaria não é pra você, seu lugar é padaria de periferia”.

Depois da expulsão e das falas racistas do gerente, acionamos a PM para registrar B.O. Mais uma luta: lidar com a PM também racista. Ao conversar com os policiais já tivemos que ouvir que “nem é pra tanto já que somos todos negros” e que era melhor a gente deixar isso pra depois pois a delegacia estava muito cheia. No caminho da delegacia ao expressar minha indignação com a situação em uma conversa com outro policial, tive que ouvir que aquilo que eu estava dizendo era “ser racista comigo mesma”. Já dentro da delegacia, o mesmo policial que disse que “somos todos negros” ao preencher nossa ficha, nos colocou como pardos, não como negros, desrespeitando mais uma vez em nossa identidade e vontade. Alegou que de acordo com o sistema nós nem éramos negros. Mesmo com nossa reclamação ele disse que não poderia mudar.

O gerente da padaria já tinha mandado de prisão por descumprir medidas socioeducativas e por este motivo ficou detido. Registramos o boletim de ocorrência e agora estamos aguardando decisões do Ministério Público.

A sociedade vai dizer que é coisa da nossa cabeça e que vemos racismo em tudo. A policia vai dizer que somos todos negros, que estamos sendo racistas com nós mesmos, que nem somos tão negros assim e tratar em segundo plano. Todas essas atitudes que a gente já conhece. Ter a dor desmerecida diante de uma humilhação, gastar o passeio de sexta a noite na delegacia, ouvir palavras de desdem vindas do agressor lá dentro sendo impunes não é coisa da nossa cabeça. É coisa da cabeça de vocês julgar isso como normal. Pra nós não é. É ilegal, é inadmissível e é doloroso.

Esse tipo de situação humilhante é bem cotidiano. Depois que falei sobre isso, muitas outrxs negrxs comentaram já terem passado por algo do tipo e infelizmente não tomaram as medidas necessárias. Essa exclusão de negrxs de determinados espaços é evidente e basta olhar pro lado pra perceber que existem negrxs sendo excluídos a cada metro quadrado. Restaurantes, bancos, galerias de arte, lojas caras e afins são de um nível tão alto que nossa cor não nos permite alcançar. Somos todxs suspeitos de que vamos roubar, assaltar ou sair sem pagar. A ideia é nos manter segregados na periferia para não acabar com o cenário branco forçado presente na zona sul. Se for entrar, só se for pra limpar e servir, nunca pra consumir.

Realmente me sinto melhor e muito mais bem tratada em estabelecimento de periferia, de lá que eu vim e lá que me sinto a vontade, porém, não nos limitemos a ocupar outros espaços apenas em cargos servis. A padaria da zona sul também é nossa já que quem protagoniza o funcionamento de lá é o nosso povo. Que possamos ocupar ambos sem questionamentos, e que quando questionados, destratados ou expulsos, que hajam denúncias, que os culpados sejam julgados e que haja, acima de tudo RESISTÊNCIA. Que o racismo, mesmo que sutil, seja apontado. Não aceitamos passar nem mais um dia “sob o olhar sanguinário do vigia”.