Embora o Brasil faça fronteira com diversos países, temos pouquíssimo conhecimento sobre muitos deles, como é o caso da República da Colômbia. Além disso, há uma grande invisibilidade sobre as populações negras que formam a América Latina e Caribe. Sua complexidade histórica e riqueza cultural estão fora dos compêndios de história e da grande mídia. A partir de uma experiência pessoal, quando estive na capital Bogotá e em Cartagena de Índias no início do ano, foi possível fazer algumas considerações acerca da situação das(os) afrocolombianas(os). A população negra concentra-se na costa do Pacífico colombiano, no arquipélago de San Andrés, Providência e Santa Catalina, na costa do Caribe colombiano e nas grandes cidades como Bogotá, Medelín, Cali, Barranquilla e Pereira, uma geografia racializada resultante das desigualdades sociais impostas pelo racismo estrutural.

As lutas por reconhecimento das comunidades negras como grupos étnicos com plenos direitos resultaram na lei 70 de 1993, instrumento legal que, embora reconheça as particularidades étnico-raciais e culturais de diferentes grupos que compõem a nação colombiana, não tem sido suficiente para garantir melhores condições de vida a esse contingente populacional. As regiões de maioria negra como o Pacífico e o Caribe apresentam as piores condições de vida do país. As desigualdades sociorraciais são resultado da discriminação racial e do histórico de exclusão a que mulheres e homens negros estão submetidos.

Se no Brasil temos o discurso falacioso da democracia racial, em Colômbia, o discurso da mestiçagem triétnica é uma ideologia poderosa que oculta as desigualdades e a necessidade de políticas públicas reparatórias. Os movimentos negros colombianos e as comunidades negras empreendem a luta pelo reconhecimento das tradições de matriz africana e pela inclusão socioeconômica com a reivindicação por políticas públicas junto ao Estado. A recente criação da Cátedra de Estudos Afrocolombianos tem dado maior visibilidade às questões relativas ao racismo e a discriminação que estabelecem entraves na mobilidade social da população negra e, principalmente das mulheres negras.

Cartagena de Índias é uma cidade colombiana localizada na região do Caribe fundada em 1533, é a quinta maior do país. Com seu belíssimo e preservado estilo colonial, vem atraindo cada vez mais turistas norte-americanos e europeus, mas sua aparente qualidade de vida somente pode ser vista dos muros coloniais para dentro. Do lado de fora, onde a cidade cresce, a realidade é outra como em qualquer periferia da América Latina: um grande número de trabalhadoras(es) em situação de pobreza e precarização das condições de trabalho. Segundo dados da pesquisa sobre condições de trabalho da população negra realizado pela Escuela Nacional Sindical (ENS), juntamente com pesquisadoras(es) das universidades de Cartagena, Antioquia e do Pacífico (2010), do total da população negra na economia informal, 51,9% são mulheres.

Grande parte das trabalhadoras afrocolombianas não tem garantidos seus direitos trabalhistas, incluindo a licença maternidade. As principais atividades econômicas do setor informal são comércio, hotelaria e alimentação, como se pode observar em Cartagena. Nas ruas da cidade amuralhada, senhoras negras de alegres vestidos coloridos vendem frutas e doces dia e noite no centro histórico, são as palenqueras. Palenque (ou San Basilio de Palenque) é um remanescente de quilombo ou de agrupamento de “cimarrones” como são chamados nos países de língua oficial espanhola”. Há 70km de distância de Cartagena, é considerado o primeiro povoado livre das Américas, conquistando sua liberdade em 1603. Além do espanhol, falam o palenquero, uma língua crioula que mistura castelhano com elementos bantos.

Em Palenque vive-se da agricultura de subsistência e da criação de pequenos animais. Além dos tradicionais doces caseiros, as mulheres palenqueras preservam sua identidade através das tranças e penteados nos cabelos naturais. Mais que uma questão estética, o processo de trançado é uma forma de contato com o próprio corpo, o reconhecimento de si que inverte os discursos de inferioridade manifestos na discriminação racial. As tranças e penteados palenqueros constituem uma estratégia coletiva de resistência em relação às imposições de uma cultura ocidental colonizadora, “de modo que o processo de trançar e pentear para a mulher palenquera é, por sua vez, uma celebração de seus próprios corpos como parte da luta por libertação” (HERRERA, 2012, p.35 – tradução minha).

Sem esgotar a complexidade de sua organização, é preciso (re)conhecer a importância da comunidade negra de Palenque e da experiência de mulheres negras palenqueras na história dos povos de ascendência africana nas Américas, assim como de suas práticas de resistência. Tanto aqui como lá, as vivências de mulheres negras formam um corpo coletivo não somente na dor da violência do racismo, mas na possibilidade de uma solidariedade transgressora.

Referências:

HERRERA, Alfonso Cassiani. Trenzando senderos. Resistencia, libertad y cultura. Cartagena de Indias (Colombia), Corpoataole, 2012.

ROSERO-LABBÉ, Claudia Mosquera; BARCELOS, Luiz Claudio (Ed.). Afro-reparaciones: memorias de la Esclavitud y Justicia Reparativa para negros, afrocolombianos y raizales. Bogotá: Universidade Nacional de Colombia, 2007.

REYES, Luís Simarra; DOVAL, Álvaro Enrique Triviño. Diccionario de la lengua palenquera. Cartagena de Indias (Colombia), Corpoataole, 2012.

Imagem de destaqu: Afrocolombiana, arquivo pessoal Marjorie Chaves.