Angela Yvonne Davis sorri, caminha forte enquanto a platéia emocionada aplaude. Seus passos largos denunciam nossa pressa – a dela e a nossa – ansiosos todos por ouví-la. Aquela mulher de black power grisalho, sorriso largo e gestos ao falar nos transporta a um tempo que não é aquele e nos põe a inclinar os ouvidos e escutar com alegria.

Na sua fala, que teve como tema “Feminismo negro e as lutas mundiais por equidade”, a escritora e filósofa membro dos Pantera Negras lembrou da sua primeira viagem ao Brasil, onde esteve no Maranhão, depois falou da sua ida à Bahia. Citou nome de ativistas presentes como Conceição Evaristo e falou da sua alegria em estar no Festival, depois de admitir que o Brasil é o seu país favorito no mundo.

Excitadas, ouvimos Angela agradecer ao Brasil por manter o legado dos feminismos negros e colocar que as mulheres no mundo todo estão se unindo e descobrindo as intersecções entre as lutas contra as opressões raciais, sexuais de gênero e classe. Ela não perdeu tempo em dizer que os feminismos negros precisam (e estão fazendo) englobar as demandas globais contra o sistema capitalista e a guerra, enfatizando que a solução nesse caso é o socialismo. Sob aplausos, a filósofa afirmou contundentemente: “Quando temos a oportunidade da auto-crítica, não podemos perdê-la. Precisamos encontrar uma forma de viver nesse mundo capitalista, sem ser essencialmente capitalista“.

Ela nos lembrou tambem da luta pela sexualidade, pela liberdade de escolher parceiros sexuais e pela nossa participação na luta pelos direitos LGBTT, que trazem dentre outras bandeiras o casamento entre pessoas do mesmo sexo, principalmente dentro da comunidade negra.

Angela não hesitou em explicitar suas impressões sobre o Brasil, especialmente quando se trata da presença de negros nos espaços de poder: ela questionou quantos Senadores são negros. Ela inclusive criticou a participação dos negros na TV, afirmando “Sempre assisto TV no Brasil para ver como o país se representa e a TV brasileira nunca permitiu que se pensasse que a população é majoritariamente negra. Se fosse a TV brasileira, o resto do mundo jamais saberia que o Brasil é feito de pessoas, em sua maioria, Negras.”

Inteligentemente, a Pantera Negra nos lembrou ainda que não é suficiente que os negros ocupem espaços de poder (lembrando Obama, num discurso engraçado e irônico), mas é preciso que tomem atitudes diante do preconceito, dizendo: “Não significa somente trazer pessoas negras para a esfera do poder, mas garantir que essas pessoas vão romper com os espaços de poder e não simplesmente se encaixar nesses espaços”.

E como não podia ser, Angela Davis falou sobre o Black Panter Party. Ela lembrou que, por ser dos Estados Unidos da América, pensam que ela tem uma consciência elevada sobre feminismo negro e suas questões e que lá existem teorias e práticas que muitos acreditam que precisam viajar para outros lugares. Mas ela mesma lembrou que muitas vezes as mulheres negras norte americanas tem muito o que aprender com os feminismos negros das outras mulheres, em especial das mulheres negras da América do Sul e América Latina.

Na sua fala, que emocionou a todas e todos, Angela lembrou do Haiti quando citou sobre as lutas globais pela democracia, onde os Estados Unidos tem se autodenominado, há séculos, sobre ser a primeira e grande democracia racial do mundo. Angela nos lembrou da história do Haiti e sua independência que produziu a primeira democracia racial do mundo, onde todos os cidadãos eram negros. E que por culpa dos franceses e seus boicotes desumanos, esse mesmo país que lutou e expulsou do seu território os exploradores é hoje um dos países mais pobres do mundo.

A mulher que integrou a lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI (agência federal de investigação dos Estados Unidos) e foi presa na década de 1970, inspirando sua campanha Libertem Angela Davis, que angariou apoiadores em todo o mundo.

“Ninguém de vocês saberiam meu nome, se não fosse um grande movimento mundial e o poder do coletivo. Não fiz tantas coisas assim. A luta radical travada no mundo, acontece agora”

Ela falou da atual crise no território de gaza e como os EUA tem mobilizado seus esforços e sua política para marginalizar, criminalizar e dizimar palestinos naquela região, afirmando: “O apartheid racial que vivemos em outrora, é o mesmo que vive hoje, os Palestinos. Mobilizações globais são necessárias para seu fim”

E no final, emocionando a todos, Angela agradeceu e convocou à luta todas as mulheres da América Latina e Caribe, fazendo do feminismo negro sua bandeira, interseccionalizando as pautas e trazendo à tona uma nova configuração de sociedade, de um mundo melhor.

Obrigada Angela Davis. As mulheres negras da América Latina e Caribe reconhecem em você a griô, a que veio primeiro e nos deixa um legado de luta.