Sempre escrevo sobre algo, curiosamente, inicio pelo fim. Por algum motivo que não sei qual é, considero mais fácil concluir e nomear o que ainda não comecei. Com este texto não foi diferente. Das inúmeras vezes que realizei esforço intelectivo para escrever, sem sombra de dúvidas, a reflexão que se descortinará foi a incumbência mais árdua de todas. Isto porque, longe da presunção de achar que disponho da palavra final sobre o tema, articular História Antiga, Mitologia e Arte já é –por si só– tarefa muito difícil. Aqui, em específico, o exercício mental circunscreve-se em outro: o de falar sobre um assunto aparentemente simples, mas que, em verdade, é bastante complexo: a culpabilização da mulher na cultura do estupro.

De antemão, desejo agradecer ao leitor pela abertura psíquica de mergulhar junto comigo no mar das minhas “impressões” de mundo e gostaria de desculpar-me pelas elaborações históricas de iniciante acerca do tema; vez que não sou historiadora.

Assim, retomando o título do texto, o objetivo da dissertação é tecer algumas considerações históricas que nos permitam compreender o quão antiga é a lógica de culpabilizar a mulher na ocorrência do estupro. Com base na identificação de como a estrutura deste modo de pensar foi construída e perpetuada ao longo da História, partiremos rumo à análise do mito concomitante a estrutura “simbólica” da Arte.

O desafio intelectual é imenso ao manejar um tema desta magnitude pelo viés de uma perspectiva interdisciplinar. O risco de incorrer em juízos de valor preconceituosos, ensejando leituras anacrônicas e simplificadas da realidade também é grande. Pensando nisso, quando tratarmos dos aspectos históricos da abordagem, usarei o tanto quanto possível – dentro dos limites do texto – referências bibliográficas da academia.

Ainda no bojo da narrativa mítica da Medusa, que é um dos motes da explanação, a esta altura do campeonato, várias perguntas já devem ter sido suscitadas na leitora: “O que o mito da Medusa tem a ver com a cultura do estupro?”, “O que a Medusa tem a ver com a culpabilização da mulher?”, “Qual é a ligação de uma alegoria tão antiga e –aparentemente– desprovida de “realidade” com os tempos atuais?” e, finalmente, “Onde se encaixam as mulheres negras em uma narrativa nitidamente eurocêntrica?”.

Tentarei responder ao longo da exposição as três primeiras perguntas. Já a última, alusiva a mulher negra, gostaria de explicar neste momento introdutório.

Embora saibamos que somos filhas da diáspora e que o arcabouço cultural de nossa ancestralidade repousa na África, involuntariamente, fomos colonizadas por pessoas que possuem valores morais inscritos no contexto mitológico greco-romano.

Desta forma, entender como se dá a “invenção” da cultura nos processos históricos e, posteriormente, sua projeção no jeito eurocêntrico de enxergar o mundo, nos ajuda a compreender de que maneira estes valores nos moldam – exercendo influência oculta em nosso comportamento e personalidade –.

A meu ver, este movimento de compreensão holística do homem europeu, que dialoga simultaneamente com diversos campos das humanidades, é extremamente útil. A partir do entendimento de como se opera a lógica dos discursos reproduzidos é que nos capacitamos para melhor combatê-los, transformá-los ou eliminá-los conforme se apresentem as situações vivenciadas.

 CASO JADA

jada

Recentemente fiquei profundamente tocada ao tomar ciência do estupro envolvendo Jada – adolescente negra de 16 anos – violentada em uma festa após a ingestão de uma bebida aparentemente normal.

Abaixo foi reproduzida a transcrição adaptada de um post compartilhado no Facebook a respeito do caso :

“Jada é uma adolescente negra de 16 anos residente em Houston (EUA) que, em uma festinha de amigos, consumiu bebida adulterada (“boa noite Cinderela”) e, logo após, foi violentada por diversos garotos…

Além do estupro, os jovens ainda registraram o fato e o divulgaram na internet. Pouco tempo depois, os vídeos já circulavam entre amigos. Posteriormente, começou uma zombaria virtual de várias pessoas fazendo piadas da condição de Jada – que estava completamente inconsciente durante o estupro –. Teve gente que tirou foto em poses que tentavam reproduzir o estado da menina durante o ato de violência sexual. Em seguida, publicaram as imagens nas redes sociais com a hashtag #jadapose, ridicularizando sua condição física vulnerável… Jada não se lembra de nada do que aconteceu, ela apenas recorda que dormiu e que depois acordou, achando que estava tudo bem… A jovem só tomou ciência do acontecimento terrível quando viu imagens do estupro expostas em sua rede social.

Jada está sofrendo diversos ataques até hoje, mas tem se mostrado uma menina muito forte. (…) Ela luta todos os dias contra os insultos que a têm atingido devido ao estupro e à exposição de seu corpo na rede. Foi quando percebeu que não estava sozinha para lutar contra isso e teve coragem de denunciar a violência, decidindo se mostrar ao mundo e expor o que aconteceu.

Jada transmite força para todas nós e, em especial, a todas as meninas que são expostas pela cultura do estupro todos os dias. Esta é uma luta árdua e bastante dolorosa para todas nós. (…)”.

É com pesar que digo isso, mas, infelizmente, episódios lamentáveis como o que aconteceu com Jada não são raros. Eles ocorrem diariamente com diversas mulheres e, na maioria das vezes, o estuprador é conhecido da família.

Como se não bastasse o sofrimento de ter sido violentada, a adolescente ainda tem que lidar com ataque e cyber ridicularização nas redes sociais por ter sido alvo de um crime que não cometeu.

CULTURA DO ESTUPRO E CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA

Inequivocamente, na tradição ocidental, tanto na Antiguidade quanto nos dias atuais, o estupro é considerado um ato de violência e de desrespeito aos padrões morais estabelecidos na vida em sociedade. No entanto, quando se avalia a situação dos envolvidos – como se verifica no caso Jada – bullyings coletivos a vítimas de estupro são frequentes.

Contrariando a lógica do discurso moral oficial, de que o estupro é prática condenável e, portanto, passível de repressão, quase sempre o estuprador é “inocentado” e a vítima, condenada. Os argumentos empregados na defesa masculina são os mais diversos e geralmente gravitam em torno do comportamento “promíscuo” da mulher; do tipo de roupa usada pela vítima e da “suposta” disponibilidade sexual da agredida. A existência de tatuagens em seu corpo e o fato de a vítima estar em local inapropriado –deserto– também são justificativas utilizadas com bastante frequência.

Do mesmo modo, quase sempre escutamos a fala de mulheres reforçando o discurso da culpabilização da vítima através da absolvição do agressor com base em algumas das desculpas já apresentadas. O que está por trás das teses defensivas é a ideia de que o homem possui incontrolável desejo sexual e se, por alguma razão, a mulher desencadeou sua excitação desequilibrada, esta será a responsável pelo ocorrido e não o último.

É muito importante entender que a educação transmitida possui raiz e identidade. Nenhum jeito de interpretar fatos é espontâneo, exclusivo ou isento. Pelo contrário, as maneiras de entender o mundo e de pensar a vida são resultado do processo de construção histórico-cultural em dada sociedade.

Por exemplo, na questão da culpabilização da mulher pela ocorrência do estupro em detrimento da verdadeira punição do culpado, verifica-se que este “entendimento” é uma lógica antiga perpetuada na mentalidade de tradição eurocêntrica. Lógica esta que iremos explorar com riqueza de detalhes através da análise histórica, mitológica e artística da alegoria da Medusa.

 ANTIGUIDADE GREGA: O MITO E  HISTÓRIA

Desde que esteja inserido em grupo, o homem tem a necessidade de criar vínculos e de se relacionar com outros homens. O ser humano está em constante interação com o outro. É assim que ele se humaniza, existindo nas relações sociais.  Por isso que, em todas as culturas, perguntas sobre a origem (De onde vim?) e sobre a identidade (Quem sou eu?) são sempre coletivas. E, por sua vez, os grupos sociais – a seu modo – formulam, respondem e registram estas indagações. Os relatos orais ou escritos nos servem de parâmetro e dão contam da nossa existência conferindo-a significado.

Nas sociedades primitivas, a primeira tentativa de explicar a origem da vida foi o mito transmitido em forma de tradição oral (BORGES, 1980).

No contexto helenístico, a História enquanto ciência credita aos gregos o status de terem sido seus inventores. A figura de Heródoto é emblemática e o mesmo recebeu o título de “pai da História”.

No entanto, o que diferenciou a maneira de Heródoto contar a História da estrutura narrativa dos Mitos foi justamente o rompimento com a tradição oral. Heródoto registrava conteúdo alegórico em seus apontamentos, porém também os questionava, criticava e investigava; buscando pessoas que testemunhassem sobre a veracidade das informações catalogadas. Assim, diferentemente do relato mítico, Heródoto assumiu uma distância crítica de seus registros.

“Nada se sabe de positivo sobre o que existe além do país de que falamos. Não encontrei ninguém que lá houvesse estado. Aristeu, de quem fizemos menção, não esteve adiante da terra dos Issédons, como ele diz no seu poema épico. Confessa ele ter sabido dos Issédons o que contava dos países mais afastados. De qualquer maneira, levamos nossas investigações até onde era possível, e vamos dizer o que soubemos de exato pelas fontes a que recorremos.” (HERÓDOTO, Livro 4, 16)

Heródoto registrava a História, mas a submetia a crítica. Ele pesquisava os dados obtidos a partir dos depoimentos anotados e os “confrontava” com a realidade a fim de diferenciar fantasias de fatos.

Por outro lado, com o uso do mito, o poeta não só o explicava o passado, mas também o recriava ao sabor de seu poema! Aristóteles, em Arte Poética, conceitua história e poesia deixando nítido o não comprometimento do poeta com a realidade (ARISTÓTELES, Capítulo IX).

Os mitos, de acordo com Finley (1985, p.6), “eram o grande mestre dos gregos em todas as questões do espírito. Com eles aprendiam moralidade e conduta; as virtudes da nobreza”.

A expressão por intermédio da narrativa poética tinha finalidade concreta: a de dar resposta aos problemas vivenciados e, neste sentido, era o marco referencial da identidade helênica. As alegorias mitológicas eram de fundamental importância, pois fazendo uso dos mitos os gregos explicavam tudo: desde a origem da Terra “cosmos” até sua própria existência (FARIA, 2008).

A partir da importância dada à alegoria mitológica, bem como sua repercussão na organização da vida grega, segundo Faria (2008, p.1) é compreensível que esta sociedade tenha buscado nos mitos o respaldo para a misoginia.

A lógica do pensamento mítico nos auxilia a compreender a situação da mulher na pólis ateniense e o repúdio acentuado ao feminino característico da cultura grega, sobretudo em Atenas. Esta “repulsa ao feminino” e a tudo que se classifica como tal é perceptível nas obras de Hesíodo Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Infelizmente, aqui não será possível explicar com mais detalhes. Caso tenham curiosidade, fica indicada a leitura.

No mito de Pandora, a primeira mulher não é criada como um ser – em si mesmo – feminino. Em Os Trabalhos e os Dias (v. 60 – 79) a mulher é formulada com a finalidade de ser flagelo e punição para os homens.

 CASAMENTO E SEXUALIDADE EM ATENAS

Na Grécia, em todas as fases da vida, havia bastante diferença entre o modelo de criação dos homens e das mulheres, desde o nascimento até a vida adulta.

A casa dos mais abastados era divida em duas partes: masculina e feminina. Esta delimitação física da casa também incidia na divisão do trabalho e na educação dos gêneros. As meninas tinham pouco contato com os meninos e seus brinquedos faziam referência à vida da fase adulta no desempenho da função de ser mãe e dona de casa. Já os meninos tinham uma educação voltada para o serviço militar. A educação dos garotos era caracterizada pelo estudo das letras, da poesia, da retória e, se desejassem, podiam continuar a instrução, com o estudo da Filosofia (ANDRADE, 2002).

“Na elite grega, os casamentos eram arranjados, e não ocorriam “por amor”, tal como o concebemos. A própria ideia de beleza feminina era completamente diferente da nossa. Em primeiro lugar, os homens procuravam nas mulheres a perfeição física, isto é, a ausência de defeitos, e, em seguida, uma robustez que garantisse bons partos. Uma pele muito clara também era desejada, significando que a mulher ficava reclusa no gineceu, e não se expondo ao sol. A timidez era uma grande qualidade. (LESSA, 2001).”

A propósito, gineceu, do grego ginós (mulher), era a ala reservada às mulheres no oikós ateniense. O androceu, por sua vez, era a ala masculina (de andrós = homem).

A despeito da presença do conteúdo fortemente misógino em sua cultura, a civilização grega desenvolveu um modelo considerado ideal e digno de ser reverenciado (VERNANT, 1989, p. 218). O padrão eleito como virtuoso e digno de aplauso se encarnava na figura da mulher-abelha (mélissa). A mélissa da elite ateniense era representada a partir do modelo da abelha, conforme nos ensina Detienne “tipo de vida puro e casto, ou seja, uma atividade sexual bastante discreta, hostilidade aos odores e à sedução; fidelidade conjugal” (1976, p. 55- 56).

Não obstante ao ideal da mulher abelha, é importante assinalar que pesquisas atuais como as de Marta Mega de Andrade (2002) e Fábio Lessa (2011) apontam que havia um descompasso entre a padronização masculina do discurso oficial e a prática no dia-a-dia na Grécia. O grupo social feminino era mais abrangente e complexo, abarcando as hetaírai (cortesãs-companheiras), pornaí, escravas, pallakaí (concubinas) e estrangeiras domiciliadas. As esposas legítimas eram somente um tipo de possibilidade do feminino dentro da categoria de mulheres existentes na Atenas do século V a.C (FARIA, 2008).

Chico Buarque, de maneira muito sensível, retratou poeticamente a mulher mélissa, sem desprezar o compromisso com a realidade, em sua música intitulada “Mulheres de Atenas”.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram,
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se, no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros seus maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos,
orgulho e raça de Atenas

O MITO DA MEDUSA

Apesar de algumas obras como a de Thomas Bulfinch (2006, 158 – 159) narrarem a história de uma linda mulher que quis competir em beleza com Atena, recebendo como punição, o malefício de ser transformada em górgona; de acordo com Metamorfoses de Ovídio (Livro IV, 780 – 795), Medusa era uma sacerdotisa do Templo de Atena que foi estuprada por Poseidon, deus dos mares. No poema Atena é identificada por “filha de Jove” e Minerva. Já Poseidon, é chamado de “deus do mar”. Na Mitologia, Jove corresponde a Zeus.

“(…) após, por trilha oculta
e ignota e horrendas rochas em selvas fragosas,
chega à casa gorgônea; em toda parte, em campos
e estradas, viu estátuas de homens e de feras
em pedra convertidos ao verem Medusa;
refletida no escudo brônzeo à mão esquerda,
vira, então, a cabeça da horrenda Medusa;
enquanto em grave sono estão a dita e as cobras,
corta ao colo a cabeça;
(…)
Um dos próceres perguntou por que só uma destas irmãs
tinha serpentes aos cabelos entrançadas.
O hóspede diz: “Já que perguntas algo digno
de relato, direi o motivo. Belíssima,
ela foi a esperança e a causa de ciúmes
de muitos; e mais belo que os cabelos nada
tinha. Conheci um que disse tê-la visto.
No templo de Minerva, o deus do mar violou-a,
dizem. Volveu, cobrindo o rosto casto, a filha
de Jove com o escudo. E como punição,
gorgôneas tranças converteu em torpes hidras.
E ainda agora, para infundir o terror
nos rivais, leva ao peito as cobras que criou”.

Apesar de algumas obras como a de Thomas Bulfinch (2006, 158 – 159) narrarem a história de uma linda mulher que quis competir em beleza com Atena, recebendo como punição, o malefício de ser transformada em górgona; de acordo com Metamorfoses de Ovídio (Livro IV, 780 – 795), Medusa era uma sacerdotisa do Templo de Atena que foi estuprada por Poseidon, deus dos mares. No poema, Atena ou Minerva é identificada por “filha de Jove”. Já Poseidon, é chamado de “deus do mar”. Na Mitologia grega, Jove corresponde a Zeus.

“(…) após, por trilha oculta
e ignota e horrendas rochas em selvas fragosas,
chega à casa gorgônea; em toda parte, em campos
e estradas, viu estátuas de homens e de feras
em pedra convertidos ao verem Medusa;
refletida no escudo brônzeo à mão esquerda,
vira, então, a cabeça da horrenda Medusa;
enquanto em grave sono estão a dita e as cobras,
corta ao colo a cabeça;
(…)
Um dos próceres perguntou por que só uma destas irmãs
tinha serpentes aos cabelos entrançadas.
O hóspede diz: “Já que perguntas algo digno
de relato, direi o motivo. Belíssima,
ela foi a esperança e a causa de ciúmes
de muitos; e mais belo que os cabelos nada
tinha. Conheci um que disse tê-la visto.
No templo de Minerva, o deus do mar violou-a,
dizem. Volveu, cobrindo o rosto casto, a filha
de Jove com o escudo. E como punição,
gorgôneas tranças converteu em torpes hidras.
E ainda agora, para infundir o terror
nos rivais, leva ao peito as cobras que criou”.

Medusa servia Atena e para isso, tal como a deusa, deveria manter-se casta para sempre Ela é sacerdotisa de Atena, está em seu Templo e é estuprada por Poseidon, deus dos mares. No entanto, a deusa da Sabedoria, das Artes e dos ofícios, ao invés de apoiar a vítima agredida, a culpabiliza pelo fato. O agressor é perdoado e sai ileso, pois, a responsabilidade recai somente em Medusa. Esta lógica ensinada pelo mito é a expressão de uma sociedade na qual a mulher é vista como um objeto, (propriedade do homem) e não como um ser independente, com vida própria.

O deus do mar recebe a absolvição da deusa. Afinal de contas, por ser homem, sua atitude é totalmente aceitável em um contexto misógino no qual narrativas míticas como estas tinham força de verdade e, assim, eram usadas como justificativa para o discurso de inferiorização da mulher.

O castigo de Medusa é severo demais. A deusa a converte em um monstro terrível chamado górgona. Sua pele envelhece e seus lindos cabelos se convertem em serpentes. Como se não bastasse todo este sofrimento, nenhum ser vivente pode contemplá-la sem se transformar em pedra.

Existe um simbolismo tremendo por detrás desta crueldade de Atena. Medusa é extirpada da relação humana, como um mal que precisa ser eliminado, assim como deve ser destruído tudo que fisicamente representa sua feminilidade e sexualidade.

Bernini retratou como ninguém a frustração e tristeza da sacerdotisa em sua escultura. Minha sensação ao contemplá-la é justamente a ideia de uma mulher profundamente sozinha, condenada a uma vida solitária por ter sido violentada por um deus…

Imagem – Medusa. Bernini. Palazzo dei Conservatori.

Qual foi o crime de Medusa? Qual é o crime da mulher culpabilizada pela cultura do estupro?
Não ser dona do seu próprio corpo e, ao mesmo tempo, “possuir” um corpo!

Uma vez que está na condição de objeto e não na de pessoa, a atitude de um homem ao possuí-la involuntariamente por não controlar suas veleidades sexuais é totalmente justificável.

Atena não só ajuda o herói da história, Perseu a abater Medusa, como também posteriormente incorpora a cabeça do “monstro” ao seu peitoral como espécie de amuleto.

Perseu retorna para casa com o “troféu” em mãos, exibindo a cabeça da mulher como algo a ser temido por sua capacidade de petrificar quem a olhasse, mesmo depois de morta.

O escultor renascentista Benvenuto Cellini, retratou com muita sensibilidade este momento do relato. É nítida a forma marcial e austera com que Perseu exibe a cabeça da Medusa:

Imagem – Perseu segurando a cabeça da Medusa. Benvenuto Cellini, Loggia de Lanzi, Piazza Della Signoria, Florença

No poema de Ovídio e em outras versões do mito, Medusa é morta enquanto dorme. Entretanto, muito me agrada o realismo e a emoção conferidos por Laurent-Honoré Marqueste a sua releitura da narrativa:

Imagem – Perseu e a Górgona.

Medusa, vista por esta perspectiva, simboliza todas as mulheres agredidas pelo estuprador na perpetuação silenciosa da cultura do estupro. Marqueste foi cirúrgico ao representar a concretude de todo o desprezo conferido à mulher na visão da superioridade masculina sobre a feminina na cultura grega.

Observe a forma como Perseu espezinha a górgona…

É como se a jovem fosse coisa e não pessoa. Isso faz todo sentido em uma sociedade que não valoriza a mulher enquanto igual tal como a ateniense.

Na atualidade, em casos como o de Jada e de tantas outras meninas estupradas pelo mundo afora será que não percebemos a reprodução do mesmo modelo opressor?

Mitologicamente falando, a ampliação do rosto da Medusa na escultura de Marqueste é bastante emblemática. A mulher-monstro receia a truculência de Perseu, tentando se desvencilhar deste. No entanto, o “herói” da história a domina pelos “cabelos” e se posiciona para desferir o golpe mortal…

Imagem – Perseu e a Górgona.

A Arte nos auxilia a materializar a lógica do mito, conferindo humanidade e emoção a uma história aparentemente arcaica e longínqua.

Imagem – Perseu e a Górgona.

A esta altura do campeonato, você pode estar pensando… E Atena, como pode fazer isso!? Como uma mulher é tão má, tendo coragem de condenar uma outra a algo tão desumano e cruel – ainda mais sendo Medusa inocente na história –!?
Atena ou Minerva representa a figura da grande mãe e será tratada na continuação deste texto em seus desdobramentos psicanalíticos.

Imagem – Atena.

Atena é o resultado da reprodução do discurso opressor. Ainda que ela e Medusa sejam mulheres e que a deusa entenda que o estupro é um ato condenável de violência, ela acaba repetindo o argumento dominante da superioridade masculina.

Além disso, sua personalidade é dissecada em artigos como o da psicanalista Beth Seelig (2002, p.1), sob a perspectiva de ser mal-construída em suas emoções; vez que é extremamente competitiva com outras mulheres. A interpretação para as reações violentas e radicais de Atena em situações envolvendo a deusa e mulheres jovens como a sacerdotisa Medusa e a tecelã Aracne são cuidadosamente interpretadas. O ressentimento da deusa por Páris também é levado em consideração, no sentido de que para o homem foi direcionado toda raiva que sentia contra Afrodite. O rancor gerado em Minerva pelo seu preterimento como a mais bela (na disputa pelo pomo de ouro) ensejou a decisão de auxiliar os gregos na destruição da cidade de Tróia.

Outro ponto da narrativa que desperta curiosidade e que detém forte carga psicanalítica, é a cabeça de Medusa incorporada ao escudo da deusa. Após ter sido decapitada por Perseu, o filho de Zeus e Dânae ofertou seu “troféu” a Atena, que o incorporou a sua armadura. É comum vermos imagens de escultura de Minerva com a imagem da cabeça da Medusa em seu escudo ou peitoral.

Na segunda parte deste trabalho, falaremos detalhadamente de Medusa, Aracne e Atena investigadas à luz da Psicanálise – de Freud/Ferenczi e, atualmente, por pesquisadores do quilate de Adams e Beth Seelig –.
Atena não representa apenas a mulher estratégica, assertiva e inteligente. Para além de refletir a lógica de uma sociedade misógina, que educa mulheres para serem rivais umas das outras – inclusive por meio da perpetuação ideológica da cultura do estupro – Minerva representa a impossibilidade simbólica de a mulher ser autossuficiente em termos de existência: não se verifica a viabilidade de ser líder e inteligente ao mesmo tempo em que se é feminina e sensual.

Imagem – Atena.

Assim, certíssima de que não esgotarei o tema, pois o mote do texto é extremamente complexo, a grande proposta foi, por meio do Mito da Medusa, demonstrar que a culpabilização da mulher em casos de estupro – em específico, por outras mulheres – é um pensamento antigo e complexo no qual operam diversos fatores contribuintes para a renovação do discurso opressor em ambas as partes: tanto da deusa como da sacerdotisa.

Por fim, espero sinceramente que esta reflexão tenha sido útil para despertar questionamentos saudáveis. Cara leitora, exercite a solidariedade que há dentro de você. Liberte-se. Liberte. Não agrida. Não julgue. Não culpabilize a oprimida. Não puna quem é vítima na história. Somos todas Medusa. Somos todas Jada. Somos todas Atena. Somos todas mulheres. Pratique a sororidade. Proteja suas irmãs.

REFERÊNCIAS:

Caso Jada 

Imagem Medusa

Perseu Segurando a cabeça de Medusa

Perseu e Górgona 

Perseu e Górgona II 

Perseu e Górgona III

Atena 

Atena II