A Folha de São Paulo  tem estado em campanha incessante de desinformação sobre as cotas. Seja por meio da cobertura superficial e desinteressada, seja  argumentando cinicamente que “inexistem definições jurídicas ou científicas do que sejam negros, pardos e brancos”. Sobretudo agora que o instrumento se tornou comprovadamente necessário ao desmantelamento das desigualdades raciais, que persistem 126 anos após uma abolição inconclusa.

Apesar de as cotas raciais terem sido declaradas constitucionais pelo STF de maneira unânime e provado sua eficácia, o veículo continua em sua ofensiva com a campanha “O que a folha pensa”, com hashtag homônima e que será divulgada na mídia impressa, em canais de televisão aberta e paga, no rádio e na internet. Ali são publicizados pílulas editoriais sobre temas rotulados como polêmicos, muitas vezes tratando de diretos de minorias. O objetivo é convocar o leitor à segui-los mesmo que discorde daquilo que foi dito e assim vestir com roupagem de debate aquilo que não o é.

No dia 01 de agosto, o alvo foram as cotas raciais. Muito aquém de promover qualquer discussão, o que a Folha de São Paulo está fazendo é vestir com a roupa do rei a tal da “minha opinião”, frase corriqueira quando estão em debate os direitos das minorias. Ali está escrito em letras garrafais que “não deve haver reserva de vagas a partir de critérios raciais, seja na educação, seja no serviço público.” Que seriam “bem-vindas, porém, experiências baseadas em critérios sociais objetivos, como renda ou escola de origem”, uma política insuficiente se temos em mente que a população negra é a maioria no país mas ainda acessa de forma insuficiente espaços de poder como a academia.

A campanha pede ao leitor que, concordando ou não, siga  o jornal. Nós, Blogueiras Negras, pedimos que você faça justamente o contrario. Não siga a Folha. Proteste contra a perversidade de um posicionamento que, além de seu conteúdo racista, não se pretende ao mínimo debate, não contempla aqueles que discordam. Que nada mais é que um monólogo, um ataque imperdoável à pluralidade de ideias e aos direitos humanos de todo um povo que tem sido por séculos preterido, um jeito de se fazer conteúdo que não pode ser entendido como imprensa.

Numa empresa onde certamente não somos representadas à contento nas redações e nos cargos de mando e decisão, essa sempre foi a “opinião”. Mas para nós, nunca uma opção válida. Continuamos em luta para que sejamos nós, gente da pele negra, escrevendo também nas redações e fora delas. Mais que nunca entendemos como essa possibilidade assusta a branquitude, seus representantes e todos aqueles que dela se beneficiam. Seu intuito sempre foi de fazer com que o debate aconteça em brancas nuvens. Nós não, iremos enegrecer nossas ideias e a academia, com a alegria e o orgulho de quem tem a certeza na vitória. Cotas sim!

Diante de nossa luta aguerrida, fica evidente a necessidade de a branquitude defender uma reserva de vagas informal destinada apenas aqueles que tem a cor de pele, entre aspas, correta. No entanto, para nós um pingo é letra e a resposta é não a qualquer retrocesso. Não nos calaremos diante de quaisquer ataques aos nosso direitos sobre os quais estamos ciosas e cientes mais do que nunca. Manifeste sua opinião. Não siga a Folha para que entendam que continuamos de punho em riste pela gerência e ampliação de nossas conquistas.

A mensagem, não há engano, tem endereço e rostos conhecidos. O rei está mais do que nunca nu e sabe disso. Não há como entender de outra forma a contratação de uma mulher negra para “protagonizar” a campanha sobre as cotas. Porque não estão ali dando a cara à tapa os jornalistas, editores, colunistas e diretores da Folha? Se a ideia era esconder a própria culpa, contratar uma pessoa negra para “estrelar” a campanha foi um tiro que saiu pela culatra.  Serviu apenas para evidenciar ainda mais seu caráter racista ao desconsiderar que a população negra ainda não tem acesso de fato à universidade.

Acreditamos que em nenhum momento o foco do debate deve recair sobre a atriz contratada. A fala da Folha de São Paulo não deve sob hipótese alguma ser pensada na esfera pessoal num contexto em que o racismo é estruturante. O que está em jogo aqui é a desfaçatez de uma campanha que, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, é compromissada com uma visão de mundo em que a universidade e espaços afins não cumprem uma de suas funções primeiras, a inclusão da maioria de seus cidadãos.

Entendemos também que esse assunto nos esgota. Há muito debatemos, argumentamos para nos fazer entender, mas sabemos que há uma lei sancionada e o que acontece cada vez que uma cotista consegue furar o bloqueio que a impede de estudar. Transforma não apenas a sua vida e a de seus amigos e familiares, mas de toda a sua comunidade. A cada uma que consegue, conseguimos todas nós. E muito em breve estudar não mais será um privilegio destinado a poucos mas de fato um direito universal. Somos pelas cotas e por sua ampliação imediata. Nada nos impedirá de lutar por isso.

O que está escrito, dito e redito pouco vai mudar a opinião dos anticotistas. Enquanto esses choramingam, reivindicam a manutenção dos seus privilégios, a gente se alegra da nossa (sim, nossa, de todo o povo preto) conquista. E queremos muito mais – que as cotas nos reservem a maioria das vagas já que somos a maioria da população. Ainda falta muito, mas já somos mais felizes por estarmos na academia, um espaço de enfrentamento que estamos dispostas e preparadas a ocupar. Seguiremos concluindo nossos cursos com louvor, com as melhores notas e ciosas de nossas conquistas.

Acima de tudo, não iremos nos calar diante de qualquer ataque aos nossos direitos.

Que saibam que estamos apenas exigindo o direito a ter direitos tendo numa sociedade em que o  talento é universal mas as oportunidades não o são muito em função do racismo. Tomemos como termômetro o último vestibular da Fuvest em que não houve sequer um estudante negro nas três carreiras mais concorridas. Mesmo com as cotas, o número de brancos entre 18 e 24 anos que estão na universidade atinge 65,7% do total. Está claramente posto que a cor da pele e o pertencimento racial estão diretamente relacionados com a probabilidade de alguém ser aprovado no vestibular.

Amedrontados e perdendo seus privilégios, querem a todo custo que acreditemos que as cotas são uma esmola e não um direito. Em nenhum momento sequer consideram que temos plena ciência de tudo aquilo que foi historicamente e ainda é negado à população negra, de todos mecanismos que impedem nossa permanência na escola, nossa admissão no ensino superior. O receio certamente é que mesmo a grande imprensa, feita majoritariamente por homens brancos, seja obrigada por lei a contratar aqueles que a branquitude quer fora dos seus quadros.

Não mais.

Porque iremos enegrecer a universidade, não siga a Folha.

Porque não aceitamos conteúdo racista disfarçado de opinião, não siga a Folha.

Por uma  imprensa compromissada com os direitos humanos, não siga a Folha.