“Andando na rua de noite muita gente branca já fugiu de mim
A minha ameaça não carrega bala, mas incomoda o meu vizim
O imaginário dessa gente dita brasileira é torto”
(Ellen Oléria)

Cenário: hora de almoço, restaurante, grupo do trabalho
Grupo: 4 mulheres (eu e mais três)

Eu – Vocês viram a nova campanha da Folha de S. Paulo contra as cotas raciais? ….. Eles reforçam que são contra as cotas e põem uma modelo negra que concorda com o posicionamento da F## … Foda.
Mulher 2 – Mas é gente famosa ou anônima?
Eu – anônima.
Mulher 3 conclui – Elas nem estudam, vão querer cotas?
As três – risada em alto e uníssono som.
Reajo às gargalhadas e recebo – Relaxa, é brincadeira, conta até dez.

A dona da piada se diz a favor das cotas desde que ouviu uma fala de Muniz Sodré em um evento acadêmico. Mas não vou contar até dez.

Racismo. Sexismo. Não conto até dez. Não conto até dez, porque eu e tantas negras somos alvos frequentes da estereotipia do “pé na cozinha”. Não conto até dez, pela memória das que morreram sem saber que, como iguais à qualquer mulher de outras raças/etnias, tinham os mesmos direitos.

Quando a escravidão negra foi ilegalizada, criou-se a favelização negra. Preto. Ex-escravo. Manter longe. Muito longe. Sem saneamento básico, nem saúde ou educação, para continuarem servis.

É verdade que as mulheres negras ainda possuem menor escolaridade. Sobretudo as mulheres negras das favelas. Elas são as mais interditadas. Tanto pela restrição de acesso, como por atitudes como a do grupo que eu acompanhava no almoço.

Mulher negra não estuda! Isso ecoa até agora. Somos nós na base da pirâmide social: homem branco > mulher branca > homem negro > mulher negra. Todos certos de que somos mulatas. E olha que na região Norte é onde estamos em maior quantidade.

Não é de hoje que as cotas raciais incomodam a elite branca brasileira em todas as regiões desse país, como tudo que faz relação a direitos para a população negra. O empenho do jornal F## contra as cotas raciais é histórico. Recentemente, em pleno mês de novembro de 2013, quando o movimento negro brasileiro evidencia ainda mais suas pautas e reivindicações por causa do Dia da Consciência Negra , o jornal publicou diversas matérias colocando as cotas raciais em xeque.

Uma das frases mais emblemáticas é de que “iniciativas semelhantes ameaçam multiplicar-se por outras esferas”, publicada no editorial de 7/11/2013. A expressão “ameaçam” deixa nítida a posição de terror que o jornal deseja implantar naqueles que são seus leitores e naqueles que ouvirão seus leitores.

Direitos às pessoas negras são ameaçadores. É essa a ordem do discurso da F##. E assim ela usa seus poderes de mídia hegemônica para criar um perigo que não existe. É a vontade de verdade (Foucault vive!). E sua proposta é de que, como “a maior proporção de negros e pardos entre os mais pobres garante que a cota social beneficiará esses grupos, sem o Estado incidir numa classificação racial dos cidadãos, que mais reforça do que dissolve barreiras”.

A F## deve ter memória curta. Pois foi o ESTADO brasileiro o maior conivente com a escravidão e o inventor da favelização no páis. Autorizando junto, a exclusão e a execução sumária da população negra, sobretudo de mulheres e jovens. É o ESTADO brasileiro quem reforça o abismo racial reforçando o estereótipo do bandido nas corporações militares. Leia-se que esse estereótipo é comprovadamente homem negro, de qualquer idade.

A mídia hegemônica brasileira foi a responsável pela divulgação comercial de negros escravizados. Tem dúvida? Pesquisa na internet com a dica “anúncio de escravos”. Presta bem atenção se aparecem pessoas brancas pobres. A cor dos anúncios é uma só: da pele preta. Vai lá e confere as descrições dadas à mulher negra. Só como teste.

Em editorial de maio de 2014, a F## ainda reclama em tom de severidade e seriedade que a aprovaçao da lei de cotas para concursos públicos federais, foi uma estratégia populista e discriminatória com a população parda do país que agora é obrigada a ser negra. Sim, os pardos constituem a população negra, ainda que a pele seja menos escura. Ser pardo, ser mestiço, nos retira uma localização importante de sabermos nossa matriz étnica.

‘Só eu acho’ que o papel a responsabilidade de veículos como a F## é promover debates elucidativos? Tratar de questões que contribuam para o melhoramento social? Para que as pessoas consigam enxergar além do seu umbigo ou dos interesses pessoais, só eu acho que o exercício seria de evitar as gargalhadas de “elas nem estudam”?

Veja quantas mulheres brancas estão analfabetas e quantas mulheres negras estão analfabetas. Mesmo entre a população mais pobre.

Às risadas de “elas nem estudam”, ofereço como observação a CPI da Pedofilia realizada no Pará entre dezembro de 2008 e fevereiro de 2010. Vejam bem quantas meninas negras foram arrastadas dos interiores do estado para servirem em Belém sem o direito a estudar.

A maior parte de nós foi educada para as tarefas domésticas, porque não tinha vaga pra meninas pretas nas escolas. Mudou? O que mudou? As escolas ainda usam modelos brancos para representar a identidade de seus alunos. Empresas chegam a anunciar que precisam de funcionárias “de pele branca”.

“Elas nem estudam!”

Lembro disso sempre que eu pisco.

A menina negra presente no VT da F## contra as cotas raciais representa talvez ¼ das identidades física das mulheres negras brasileiras. Seus traços são aqueles que a propaganda brasileira permite: nariz afilado, rosto fino, magra, alta. Essa é a “negra tipo exportação”, aquela à qual os euro-brasileiros autorizam a circulação e presença minoritária entre seus espaços. Mas quantas oportunidades de trabalho e ascensão social as mulheres negras com traços “não autorizados” perdem diariamente?

Quantas mulheres negras têm oportunidade de acesso à educação formal? Desde pequenas nos querem por para servir (mesa e camas), como bem ilustrou a loja Riachuelo na campanha intitulada “o dia da mulher brasileira”, veiculada em maio desse ano. Essa recusa de acesso da mulher negra aos espaços de direito público constitui a memória de nossa história desde quando as primeiras africanas foram traficadas.

Com muitas dificuldades, encontramos escassos espaços para ecoar nossas vozes e protagonizarmos nossas lutas, nossos corpos, nossa saúde, nossa memória. Se a favela é o quarto de despejo como afirmou nossa ancestral Carolina de Jesus, a cozinha é a sala de aula destinada à mulher negra.

E querem me obrigar a contar até dez. Querem me obrigar a rir de “elas nem estudam” junto com pessoas que nem conhecem a interdição racial e social e que veem n isso tudo um grande “exagero”.

E ao contrário do que a competência racista tenta convencer: cotas raciais nada têm a ver com competência ou inteligência. Não estamos buscando mostrar que somos mais capazes do que qualquer outra raça. As cotas existem porque a dívida desse ESTADO é secular e as ações afirmativas são o começo do caminho de reconhecimento da marginalização que nos impuseram.

É de segregação que falamos.

As cotas raciais não são para serem interpretadas como “coitada, ela é negra e deve ter nossa pena, deixe-a entrar”. Não. Interpretação errada. O debate é: “fodemos a população negra no mundo todo, compactuamos com esse genocídio até hoje, favelizamos a escravidão, treinamos a polícia para matar jovens negros, não treinamos a saúde pública para atender a mulher negra”. De novo: o Estado tem dívidas.

Por fim, quantas pessoas negras compõem o quadro funcional da F## e qual a ocupação de cada pessoa dessas, especialmente das mulheres negras? Qual a origem social de cada uma? E quantas pessoas negras, pobres, sem traços europeus foram interditadas?

Ora, me compra um bode! Como diria uma grande amiga.

Notas

1. Disponível em http://ow.ly/zZASW
2. Idem
3. Disponível em http://naofo.de/11i1

Outras referências:

História da educação escolar de mulheres negras: as políticas públicas que não vieram…

 

  • Pedro

    O que define um negro? Uma pessoa negra, como isso é definido? Sabemos que uma das causas da cor são os pigmentos na pele, nos contamos esses pigmentos? Imagino que algumas de vocês já viram o filme Hotel Ruanda que retrata a guerra civil que se instalou ainda na década de 90. Um fato curioso é que os próprios Belgas dividiram uma população que já era negra, ou seja, dividiram em “sub-raças” como os Tutsis e os Hutus. E qual o método que usaram? Eles foram bem criativos, foram do tamanho dos narizes e lábios, altura, a cor dos olhos entre outros. Apesar dessas sub-raças serem invenção dos Belgas, os próprios Ruandeses continuaram acreditando nessa história e esqueceram que eles são oriundos dos mesmo povo: os banyaruandas. O final dessa história todos sabem, um saldo de milhares de mortos em menos de 3 meses. Vocês não podem esperar um privilégio ou assistência do Estado em reparar danos históricos, pois isso é catastrófico. O caso mais recente de “reparação de danos históricos” foi a criação do Estado de Israel…. Acho que nem será necessário explicar o obvio desse ato. Não deem razões ou argumentos para os brancos ou elite. Seja respeitado pelo que você faz não pelo que você é.

  • Eunice Figueira

    Como destacou Aline Djokic, “Segundo o dicionário Michaelis o termo pardo (do lat. Pardu) quer dizer: entre o branco e o preto, branco-sujo, V. mulato. O termo mulato por sua vez, segundo Grada Kilomba vem do termo português mula, o resultado do cruzamento entre o cavalo e o burro. Por último o termo mestiço (do esp. Mestizo), aparentemente mais neutro, mas cujo significado é vira-lata, o resultado do cruzamento de cães de raças diferentes.”
    Enquanto isso, nossas crianças de periferia crescem sendo induzidas a acreditar que ser “moreno-claro” é um estágio evolutivo.

  • Barbara Nunes

    Obrigada pelo seu texto.
    Eu (branca) ja fui contra as cotas. Dizia exatamente isso: se as cotas forem sociais, beneficiaremos os negros. Daí alguem colocou o dedo na minha cara e me chamou de racista. Eu passei uns 4 anos, acho, remoendo aquele “racista”. Primeiro em negação. Depois em horror. Por último, em transformação. O dedo na cara se faz necessário. Esse texto é fenomenal. Um abraço de uma aliada.

  • Bia Rosa

    É triste ouvir isso, eles acham que a gente não se esforça pra nada que ja tem um lugar garantido para nós, nem sabem o que nós passamos.
    Na minha cidade a politica de cotas não esta funcionando, ja presenciei brancos e até asiáticos colocando que eram afrodescentes na inscrição de vestibulares,sisu e prouni só para aumentarem a chance de conseguir vaga,e realmente eles estão tomando essas vagas e as universidades não podem fazer nada =\
    Aqui esta mais para “cotas para brancos”

  • O que mais me incomoda, não sei se por má fé mesmo, ou ignorância, mas esse “elas nem estudam” é constantemente usado. Muitas vezes com outra roupagem, a da “meritocracia”. Mas o óbvio é que as cotas são para vencedores. Para aqueles que apesar de toda a segregação, toda pressão social, todo bombardeio a sua auto-estima, conseguiram chegar lá, fazer a prova e ser aprovado. Igual aos “merecedores” das vagas gerais que com todo vento a favor, são também aprovados. Só que agora competem em condições de igualdade. Quem teve sempre o vento a favor compete entre si. E os guerreiros negros competem em condição de igualdade também. E estamos falando de 20% nos concursos públicos! Mas é isso mesmo, quem sempre teve 100% não quer mudar.

  • Moema Fortes Trindade

    Comecei a ler o texto e quando vi a frase, com perdão da expressão, “defecada” boca á fora da mulher número 3, me deu uma sensação esquisita no peito. Seguido do nojo. Respirei fundo e continuei lendo o texto….

    Ainda esta semana eu comentava com uma amiga a respeito das cotas. Ela é contra (como a maioria), e percebo também que ela faz parte de um grande grupo de pessoas que não sabe nada de história e portanto, não é capaz de fazer um pensamento “sistêmico”. Acredito que esse mesmo grupo, também tenha preguiça mental de ao menos se questionar “porque eu acho as cotas TÃO injusto?”

    Perguntei se ela já tinha reparado na quantidade de pessoas negras na linha da pobreza em nosso país, sem acesso ao saneamento básico, educação, saúde, condenados a própria sorte. Perguntei se ela já tinha se dado conta que existem pouquíssimos médicos, advogados, executivos negros. Perguntei: “Porque a maioria esmagadora da população brasileira em risco social é negra?”. Porque a maioria da população carcerária no Brasil é negra? Perguntei se alguma vez ela havia sido abordada por seguranças de um supermercado pois os mesmos achavam que ela poderia estar escondendo alguma coisa debaixo do casaco (comigo isso aconteceu!!).

    Não soube responder.

    Na boa, quem reclama das cotas, quem acha que cota para negros e índios no Brasil é ruim, é porque no mínimo, são pessoas ignorantes, e por serem assim, não conseguem fazer outra coisa senão concordar com o que alguns profissionais escrevem nas principais mídias no nosso país.

    Parece mentira, mas os caras passam quatro ou cinco anos frequentando uma faculdade, para depois escreverem leviandades. Se ao menos corressem atrás de informação, dados históricos, estatísticos. Mas não. O que eu vejo é um MEDO absurdo de ver mais pessoas ascendendo socialmente, e o melhor (ou pior, na visão deles) com dignidade.

    Conhecimento é PODER.