Embora constituam 51,7% da população, negras e pardas não figuraram entre os filmes de maior bilheteria do país, entre 2002 e 20012 segundo pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A mostra revela ainda, que elas representam 4,4% do elenco principal dos filmes nacionais e que nenhum dos 218 filmes, com o maior número de expectadores, teve uma negra na direção ou na realização de roteiro.

Alguém se assusta com os números? Eu não. Num país onde o racismo perpassa todos os segmentos profissionais, não seria diferente na área cultural, principalmente no cinema, arte comandada por um grupo fechado de bens- nascidos, possuidores de senso estético de acordo com sua classe social.

Baseados no padrão de beleza ocidental, os diretores reproduzem em suas produções este conceito ultrapassado mesmo sabendo que mulheres negras e pardas são a verdadeira cara da nação. Racistas e colonizados, buscam a realização de um cinema com temáticas imitando as americanas e europeias. Em seus filmes predominam mulheres loiras, altas, esbeltas, modelos ou pertencentes a famílias de artistas, políticos ou socialites desocupadas e vazias, talento duvidoso e loucas para aparecer nas telas.

Adeptos vorazes da filosofia do embranquecimento, compromissados com a manutenção do padrão que permanentemente garante privilégios às brancas, o que eles desejam é manter a supremacia racial do seu círculo de trabalho, ganhar dinheiro, entrar no mercado internacional, o que obviamente não conseguem devido à negação da cultura de seu país, revelando gritante falta de originalidade, que não passa despercebida dos críticos de cinema estrangeiros. Esquecem-se de uma das premissas básicas da arte: ausência de preconceito.

Falsos liberais, fingem desconhecer o cotidiano de luta destas mulheres, que a sociedade racista quer tornar invisível garantido o estado de marginalização das quais elas são vítimas. Luta constante para reverter os dados apresentados na pesquisa e conseguir uma inserção social que as transformem em cidadãs dignas e plenas de direitos, possuidoras de histórias com conteúdos psicológicos, culturais e humanos livres de estereótipos e estigmas. Histórias capazes de emocionar, informar e instigar plateias como é o caso do filme “Filhas do Vento”, estrelado por atrizes negras e dirigida pelo escritor, historiador e documentarista Joel Zito Araújo, igualmente negro. O filme foi o primeiro longa metragem do diretor e rendeu o prêmio de melhor atriz para Léa Garcia e Ruth de Souza no festival de Gramado, do ano de 2005, e de melhor atriz coadjuvantes para Taís Araújo e Thalma de Freitas.

Burgueses que são, estão acostumados a ver pretas e pardas cozinhando nos enormes fogões de suas casas, lavando suas roupas, exercendo profissões de baixa remuneração, ligadas ao tráfico ou trabalhando como prostitutas. Sua concepção de mulher negra e parda não vai além. Quando em seus filmes, alguma delas representa um destes papeis, o final é sempre trágico, reproduzindo a indiferença com o sofrimento destas mulheres. Até os papeis de prostitutas, antes considerados de segunda classe, as negras perderam para as brancas. Desde que os cineastas passaram a glamourizar a prostituição, sua representação foi destinada às atrizes top do cast de telenovelas da rede Globo. Aliás, filmes que não contam com artistas brancas da emissora, monopolizadora da comunicação, têm dificuldade de obter patrocínio.

A Ancine (Agência Nacional de Cinema), usando da falsa democracia vigente, diz não interferir na escolha de elenco e conteúdo quando deveria , por ser empresa pública, tratar todos os criadores igualmente e não priorizar os diretores brancos. O público, domesticado, lotam os cinemas para assistir histórias parecidas com novelas ou programas transformados em filmes ou comédias americanizadas nas quais as mulheres negras e pardas estão sempre mal incluídas. Não é a toa que as comédias são os filmes prediletos dos brasileiros. Nelas tudo vem interpretado, não é necessário pensar. Elas correspondem aos anseios da indústria do cinema de consumo, cujo lema é ver, rir, obter lucro exorbitante, esquecer. Aculturar!

Diretores do cinema nacional, as negras são mulheres lindas, excelentes profissionais. São professoras, médicas, advogadas, chefes de cozinhas, enfermeiras, engenheiras, motoristas, empresárias, rappers, escritoras, jornalistas, floristas, desenhistas, poetas, cobradoras de ônibus, feirantes, esportistas, donas de casa. Compõem o cenário profissional médio de enorme importância para o superávit da economia nacional. Pagam impostos, são mães, avós, amantes, tias, têm famílias e atrizes talentosas.

Como é o caso de Léa Garcia, Zezé Motta, Luiza Maranhão, Zenaide Zen, Iléa Ferraz, Isabel Fillardis, Neusa Borges, Chica Xavier, a poeta e atriz Elisa Lucinda, Esmeralda Barros, Camila Pitanga, Shirley Cruz, Taís Araújo, Sheron Menezes, Thalma de Freitas, Maria Ceiça, Roberta Rodrigues e Ruth de Souza, patrimônio cultural com mais de 50 anos dedicados à sétima arte e à televisão e muitas outras que estão surgindo em criações de curta metragem exibidas na Internet.

Estas mulheres são verdadeiras desbravadoras, conseguiram por meio de muita luta e determinação, um lugar de honra no cinema nacional. Contudo, enquanto não contarmos com diretoras, roteiristas, produtoras, maquiadoras e fotógrafas, negras e pardas continuarão esquecidas pela elite racista que domina o cinema brasileiro. Por isto, as cotas raciais são importantes, para que mais mulheres possam frequentar as universidades e criar uma nova maneira de pensar e fazer cinema no país.

As pioneiras

Luisa Maranhão: Foi um dos símbolos do Cinema Novo Brasileiro. Participou dos seguintes filmes: Barravento, A grande feira, Assalto ao Trem Pagador, Ganga Zumba, Chico rei, Boi de Prata, entre outros.

Léa Garcia: Outra forte presença negra no cinema nacional, constando de sua biografia os filmes: Orfeu da Conceição, Ganga Zumba, Santo Módico, Ladrões de Cinema, Compasso de Espera, A noiva da Cidade, Ladrões de Cinema, Cruz e Souza- Poeta do Desterro, Orfeu.

Esmeralda de Barros: Atuou, entre outras, nas películas, O Castelo das taras, Mulheres do Caís, As cariocas, Cristo de Lama, História de um Crepúsculo e o Homem Nu. Também teve uma rápida passagem pelo cinema italiano.

Ruth de Souza: A primeira atriz brasileira a concorrer ao Leão de Ouro, expressivo prêmio internacional por sua atuação em Sinhá Moça. Participou ainda de Terra Violenta, Falta Alguém no manicômio, A sombra da outra, Angela, Terra é Sempre Terra, Assalto ao Trem pagador, A grande Arte e Um copo de Cólera.

Neusa Borges: Premiada com o Prêmio Contigo a atriz atuou em a Moreninha, Paranóia, Deusa Negra e Polaróides Urbanas.

Zezé Motta: Outra grande referência do cinema feminino negro do país. Trabalhou em Orfeu, Quilombo, Xica da Silva, Tudo Bem, Se Segura, malandro, Tieta do Agreste e outros.

Imagem de destaque: Ruth de Souza no programa Damas da TV. Foto: VIVA/ Fabrício Souza.a.