Em um reino não tão distante do Planalto Central, a 330 km de Brasília vivia uma linda princesa. Com largos rios de água cristalina o rio fazia parte de uma paisagem rica e fértil com espaços de vegetação quase que absolutamente virgem e pouco judiada pelo homem. Com cachoeiras belas as brincadeiras da menina giravam em torno de explorar aquele reino grandioso que não possuía porteiras ou limitações, pelo menos não barreiras visíveis a ela.

Entre fadas e elfos imaginários a menininha se levantava todas as manhãs com sede de desbravar seu reino. Formada por uma população de descendentes de escravos fugidos e libertos das minas de ouro do Brasil central, a comunidade cresceu por mais de duzentos anos isolados em regiões remotas, próxima a Chapada dos Veadeiros. Mais especificamente em três comunidades, nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás e está dentro do Sítio Histórico Kalunga.

Subdivididos no município de Cavalcante pelas localidades do Engenho II, Prata, Vão de Almas, Vão do Moleque, Ribeirão dos Bois, Contenda e Kalunga. Com pouco mais de duas mil pessoas, distribuídas nas comunidades citadas Rayssa é mais uma kalunga que mora no ‘reino’ de Vão de Almas.

Rayssa. Foto: Anne Vilela.

Rayssa. Foto: Anne Vilela.

Mãe, pai e os quatro, dos cinco irmãos que viviam juntos a acompanhavam nas primeiras atividades do dia. A rotina era sempre a mesma. Juntos se levantavam e iam ao rio. Banhavam-se nas águas cristalinas e como todos os dias, o frio da água os fazia estar prontos rapidamente para as atividades do dia. Apenas Rayssa, a nossa princesinha que a pouco completara uma década de vida, não se sentia pronto. Na hora de sair da água se colocava a resmungar até que conseguisse autorização da mãe para ficar na água mais algum tempo. Rayssa tinha aprendido recentemente a nadar e gostava de praticar. Segundo ela o processo foi simples. “Comi uma piabinha viva e aprendi”, explicava com uma expressão de valente a quem questionava se ela sabia mesmo nadar.

Depois do banho no rio tinha de correr pela ‘floresta do reino’ para encontrar um bom lugar onde pudesse fazer suas necessidades fisiológicas, cobrir com terra e aí sim, se dedicar as tantas outras obrigações de princesa. Dentre essas atividades, ajudar a mãe era uma das mais presentes na vida das meninas. A garotinha ajudava sua mãe com muita disposição todas as atividades, em especial buscar água no rio, fosse para lavar as louças sujas das refeições, fosse para colocar no filtro para consumir.

A proatividade da menina não poderia ser muito diferente, afinal, ali não tinha muito para fazer quando as outras crianças não estavam brincando na rua.

Quando a noite caía, Rayssa buscava a lamparina para que um dos irmãos mais velhos ou o pai ligasse o instrumento, deitava-se na rede e ficava ali, horas a fio até despertar e ser levada para a cama. Quando o irmão mais velho ia visitá-los, trocava a rede pelas histórias de um outro reino chamado Brasília, onde o irmão estava morando para trabalhar e explicava que embora fosse muito bom era muito violento.

“Não quero morar lá não quando eu crescer, tia. As pessoas mata as outras lá”, concluiu reflexiva quando questionei sobre sair do Sítio Histórico para ir morar com o irmão. A mim parecia razoável quando imaginava no que via. Sem energia, sem luz, sem asfalto e sem água encanada, as condições de vida eram completamente diferentes das que a maioria estavam acostumados. Enquanto para Rayssa era um reino ideal, para a ‘rainha’ como visualizava Dona Daínda, sua tia-avó e liderança da região.

Daínda já tinha tido a oportunidade de sair algumas vezes daquele espaço e para ela o “reino” era também o cenário ideal, mas em uma visão realista, de miséria, descaso e isolamento social. A senhora de 66 anos de idade sentiu a dor da exclusão social e racial ainda jovem, quando precisou sair da comunidade Vão de Almas e ir para a cidade dar a luz a seu primeiro filho. Ela não se esquece desse dia.

“Eu tava lá sofrendo pra criá, aí a enfermeira disse pra outra assim: limpa logo esse menino e essa mulher, porque sangue de preto fede mucho”, contava com muita raiva.

Dona Daindia. Foto: Moema Costa.

Dona Daindia. Foto: Moema Costa.

Por conta dessas e outras histórias dona Daíndia passou a se defender como podia de quem quer que fosse. Olhava com desconfiança aqueles que não tinham a pele escura como a sua e tinha dificuldade em aceitar promessas. Viúva desde muito cedo, a senhora passou a se dedicar à sua comunidade da mesma maneira que se dedicava aos filhos. Lutava com todas as forças para por fim as injustiças por conta da cor…

“Eu vou no prefeito ele diz que num é lá, que nóis tem de ir em outro lugar.Eu vou lá (nesse outro lugar) num adianta, ai eu vou em Goiânia eles fala que nóis tá bem demais lá. Fica me perguntando o que tem de bom lá pra eu conformar. Mas o que tem de bom eu já sei, só que o jeito que nóis vive é mucha miséria. Será que nóis tudo vai morre na miséria?”, “Já falei tantas veiz presse povo que chega falando que é do governo o que nóis precisa e nada”, contava a senhora em uma roda de prosa ministrada pela Secretaria Nacional de Juventude sobre comunicação que deveria ter integrado o Encontro Quilombola do Estado de Goiás dentro da programação do XIV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, mas por falta de recursos e apoio governo do estado e do governo federal a organização manteve a roda de prosa com os Kalungas e a comunidade da Vila de São Jorge onde o evento ocorria e cancelou as demais atividades.

As colocações de Dona Daíndia não eram um tiro no escuro. Para ela o caminho é simples. “Nóis precisa de fala com a Dilma.É só me coloca lá, num quero ninguém mandando recado pra mim não”, explicou. Para ela falar com a representante máxima do país é a solução para seus problemas. Sabe disso porque viu de perto história semelhante.

Dona Procópia, 80, é uma das muitas lideranças femininas dos Kalunga. Filha de Manoel Pereira e Maria dos Santos, a provocadora que foi em 2005 uma das 52 brasileiras indicadas ao prêmio Nobel da Paz, nasceu em terras Kalunga na comunidade Monte Alegre e conseguiu indo atrás de Lula, quando era presidente, escolas, água encanada e energia para uma parte da região. A vitória foi comemorada por todos, mas ainda assim o reino continuou com sérias dificuldades e muitos permaneciam no escuro. Rayssa por exemplo, acabou precisando se mudar.

A família avaliou que ali estava complicado. Precisavam de escola e condições básicas para garantir o sonho dos filhos. Eles querem se formar, assistir TV, ter acesso ao computador, dizer ao mundo quem são, o que querem ser e quais suas dores. Foram para Teresina, também região dos Kalunga, mas que conta com algumas melhorias.

Dona Daíndia permanece em Vão das Almas. Hoje, a rainha do reino olha para os jovens e sente medo. Não quer sair dali e nem quer que a comunidade acabe, mas sabe também que os jovens precisam de mais. Lamentou por Rayssa ter saído de Vão das Almas com a família assim como lamenta todos os dias o fato de não haver jovens interessados em resolver os problemas de Vão de Almas e permanecer ali.

Tanto dona Daíndia quanto Rayssa são mulheres, negras e quilombolas. Precisam de forma rápida de assistência para realização de sonhos. Uma para ter a garantia de ter seus filhos em casa sem privações e a outra para garantir a vida repleta de maravilhas naturais, mas sem o impedimento de não poder ter uma educação de qualidade e uma vida digna de direitos.

Assim como João São Cristo, o personagem da canção Faroeste Caboclo de Renato Russo, a senhora que tem no sangue a força dos escravos fugidos e por vezes é destratada por reclamar direitos só queria conversar com a presidente e ajudar toda essa gente que só faz sofrer.