Para começar, acho importante dizer que também sou do “clubinho” das cacheadas e reconheço a importância de aceitar meu cabelo como ele é. Também senti as dores causadas em mim pelo racismo, materializado na repulsa das pessoas, e minha também, pelo meu cabelo. Mas hoje ele é invejado e admirado por homens, mulheres e crianças, negrxs, brancxs, vermelhos, amarelos e roxos de bolinhas azuis…

Pois é, os cachos viraram uma febre nacional e todas querem abandonar a química, enfrentar a transição ou fazer o Big Chop e deixar a madeixa balançar! Só tem um problema: nem toda madeixa afrodescende balança…

Com essa onda dos cachos, estamos presenciando mais um momento de abuso do privilégio branco, mais uma vez o branco quer nos ensinar sobre nossas dores. Virou moda mulheres brancas falarem sobre orgulho de seus cachinhos como se elas soubessem o que é ter vergonha e mesmo horror do próprio cabelo, corpo, rosto, pele… É no mínimo absurdo ver mulheres que deixaram de diminuir leves ondulações com o secador, dando lições de auto-estima para quem precisa se envenenar com produtos cancerígenos, que podem prejudicar até um bebê durante a gestação.

Precisam, pois essas mulheres, nós mulheres negras, não fazermos isso apenas para nos sentirmos mais bonitas, na verdade sabemos que esse resultado nunca é alcançado por esses meios, quando muito, conseguimos diminuir a repulsa dos outros e a nossa. Além disso, muitas vezes, essa é a única forma de sermos aceitas na sociedade, conseguirmos um emprego ou um companheiro.

E a indústria do envenenamento segue lucrando com nossas dores, deturpando todo o nosso processo de construção identitária e nossa busca por independência dos padrões eurocêntricos. Deixar de alisar nossos cabelos é lutar contra uma das mais devastadoras facetas do genocídio do povo negro: a aniquilação de nossa auto-estima. Porém hoje nos oferecem outras formas de atender nossa demanda por uma estética negra, mas que continue respeitando os padrões racistas; nos dão produtos que prometem crespos mais aceitáveis, cachinhos soltos, esvoaçantes e agradáveis aos olhos azuis que nos julgam. Tentam de todas as formas domar nossas raízes linda e historicamente rebeldes!

Mas não se enganem achando que estamos entrando no roll das belas por natureza ou que estamos estabelecendo novos padrões estéticos, devemos saber que a admiração pelos cachos se manifesta de forma semelhante ao enternecimento diante de um belo filhotinho de cachorro… Nossa luta contra a indústria assassina da moda e da estética está apenas começando.

A postura tolerante diante dos nossos cachinhos não passa de mais uma velha tática do mito da democracia racial. Historicamente o racismo brasileiro vem concedendo pequenas bonificações para aqueles que foram agraciados pela natureza e pela atitude inteligente dos pais, que procuraram parceirxs brancxs para garantir uma prole mais próxima do céu: o mulato. Este sempre recebeu os melhores restos da Casa Grande e muitos acreditam que isso os tornam iguais aos senhores. Talvez por isso seja tão comum vermos mulheres negras, “mulatas” fazendo coro com xs opressorxs contra as irmãs que ainda sofrem acreditando na mentira racista de que têm uma carapinha de bombril.

Essa mentira tão bem contada por séculos, não permite enxergar que, na verdade, sua cabeça está ornada com uma bela cabeleira lanosa, a coroa das nossas rainhas ancestrais. Perceber isso é um dos últimos estágios do nosso processo de empretecimento, é o momento em que a ferida estanca e as cicatrizes não permitem mais que as pancadas do racismo nos assustem ou nos façam recuar, chegar a isso leva tempo e gera sofrimento.

Sejamos irmãs e tenhamos sensibilidade e senso crítico para lidar com as armadilhas do racismo. Não podemos cair no jogo sujo da “aceitação” racista, que visa apenas nos separar e manter o projeto colonial de aniquilação de nossa ancestralidade, por meio do apagamento de qualquer traço cultural ou fenotípico que remeta à África.