Minha trajetória de vida sempre me apontou os problemas intrínsecos e naturalizados. Aqueles que tentam nos convencer desde muito cedo de que são normais quando na verdade são ferramentas de opressão para alguém. Acredito que as coisas começam funcionando assim para a maioria das pessoas que adentram em militância e que propõem em luta uma nova maneira de pensar e viver numa sociedade.

Com o conceito bem resolvido de luta em nós, acontece por vezes a nossa inserção em movimentos sociais. O que nem sempre garante que a representação efetiva se dará por esses meios. Muitos grupos, articulações e coletivos funcionam de forma mista o que quer dizer que muitos homens ainda tentarão usar seus privilégios para silenciar mulheres nesses espaços. Silenciar significa algo para além de não dar voz. Significa não permitir auto-organização. Significa não favorecer visibilidade. Significa assumir papel de opressor se respaldando em trajetória de militância ou em discurso restritamente acadêmico. Como se tudo isso o fizesse saber da opressão que nós vivenciamos na prática.

Por outro lado, existem mulheres organizadas que ainda reproduzem entre si algum tipo de opressão. Mulheres brancas e lésbicas ainda possuem maior facilidade de se adentrarem e de se perpetuarem em movimentos sociais mesmo quando levantam suas bandeiras. Elas fazem parte do imaginário do aceitável. Digo isso embasada na minha vivência diária e partindo do principio de que no imaginário genérico mulheres brancas podem ser lésbicas e mulheres negras, não.

Ser uma mulher negra lésbica me garante presenciar lesbofobia e racismo em espaços de luta. Algumas muitas vezes isso acontece de forma não pensada por quem pratica e outras tantas de forma bastante deslegitimadora.

Todas as vezes que falo sobre lesbianidade em alguns espaços que permeio, percebo o quanto esses movimentos ainda carecem de mulheres negras e lésbicas em suas atividades e o quanto nos ainda negado o direito de nos auto organizarmos ou até mesmo a possibilidade de facilitarmos alguma ação que nos visibilize e que não desvalide a nossa orientação. A mulher branca lésbica é a primeira imagem que alguém tem em mente ao ser citada a lesbianidade e isso é uma problemática racista e que configura um problema político.

A necessidade que se faz de mulheres negras e lésbicas se auto organizarem e gritarem por si suas reivindicações é intensa. Por sofrermos lesbofobia e racismo, por sofrermos machismo em espaços de militância, por sermos tantas e não sermos representadas dentro e fora da movimentação que pede mudança. Gritemos e façamos por nós mesmas as nossas vozes serem ouvidas. Por empoderamento, libertação de nós mesmas e de tantas outras. Resistência.

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Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo Coletivo Audre Lorde.