Eu não posso me dar ao luxo de lutar contra uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

Audre Lorde

Reconhecer-se negra faz parte de uma longa trajetória. Normalmente nos reconhecemos negras a partir dos olhos dos outros. As vezes ainda na infância quando nossa pele não deixa dúvidas do que somos, acabamos apontadas como diferentes pelas demais crianças que brincam conosco, às vezes um pouco mais maduras por conta de uma diferença de pigmentação e após anos num “não lugar”, alguém nos reconhece negras. A partir deste ponto em que negras somos e não há o que nos coloque em dúvida, sabemos o que somos, nosso lugar de fala, de luta e sabemos principalmente porque e pelo que devemos lutar. Ser militante da causa negra, combater o racismo passa a parecer obvio.

Reconhecer-se mulher e tomar consciência do papel atribuído a nós por conta de nosso gênero também nos coloca na mesma condição de razões e lógicas para militar, buscar igualdade de direitos, uma vida digna sem violência. Correr atrás do direito de ser considerada um ser humano, ter o corpo, desejos e capacidades respeitados.

Mulheres negras compõe uma minoria dentro de outra minoria. Temos nossas especificidades e encontramos dificuldades de colocar nossas pautas dentro do movimento negro – até hoje machista – e temos dificuldades de nos posicionar dentro do movimento feminista por este ser em sua essência branco e de classe média.

Porém dentro da minoria da minoria ainda existe um subgrupo de pessoas, um grupo que consegue ter sua voz calada no movimento negro, no movimento feminista e no movimento feminista negro. São as mulheres negras que se identificam como lésbicas.

Afirmar-se lésbica é saber que sua identidade significa o enfrentamento de uma opressão que envolve ao menos dois estigmas: a negritude e a lesbianidade.

Na África do Sul, por exemplo, a lesbianidade é abominada e  as práticas constantes de estupro corretivo ficam no campo da impunidade. No caso das mulheres, segundo notificações, um quarto delas já foi estuprado antes de completar 16 anos de idade. Essa situação tem em suas raízes: o machismo, a pobreza, as ocupações massificadas, o desemprego, os homens marginalizados, a indiferença da comunidade. Na África do Sul, uma menina tem mais chances de ser estuprada que de aprender a ler.

No Brasil não há dados efetivos sobre a violência contra lésbicas porém como disse Jurema Werneck “a falta de dados já é um dado”.

Somos invisíveis perante a sociedade e o poder público e, embora não existam dados sobre, a violência ainda se faz presente.
Ser lésbica nos torna ainda mais vulneráveis a diversas formas de violência contra mulheres e o silêncio ganha ainda mais força a partir do momento em que somos negras. O silêncio foi a forma encontrada para enfrentar uma sociedade racista, heteronormativa e que ainda acredita que o corpo da mulher é mercadoria e uma mercadoria que possui um dono unico.

Identidades são sempre múltiplas, todos nós temos origem, classe social, etnia, expressão de gênero e orientação sexual. Estas são condições para que possamos nos entender humanos ou para que o sistema atualmente posto nos denomine como tal. A partir desta nossa identidade existe então uma demarcação de espaço, funções, possibilidades e limitações conferidas a determinados indivíduos ou grupos a partir das relações de poder.

Não há como separar nossas múltiplas identidades para que possamos nos encaixar num determinado movimento, somos o conjunto da obra, mulheres, negras, lésbicas. E sendo o movimento negro machista e lesbofóbico e o movimento LGBT profundamente racista como fazer com que nossas vozes possam ser ouvidas?

Não bastasse sermos rejeitadas por uma “sociedade branca heterossexual”, nós lésbicas negras temos de lutar por um espaço nos movimentos negros e homossexuais. A partir deste entendimento se faz necessário a promoção do encontro de iguais para que estratégias e vivencias possam ser compartilhadas.

No Brasil existem algumas tentativas de organizar politicamente as lésbicas negras. Alguns coletivos como Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro, o Coletivo Nacional de Lésbicas Negras Feministas Autônomas – CANDACES BR e mais recentemente a Rede Afro LGBT e o Coletivo Audre Lorde de Lésbicas e Bissexuais Negras e Afrodescendentes, tentam reunir de maneira organizada esta parcela de população invisível mesmo entre minorias.

É necessário quebrar o silêncio dentro e fora dos movimentos sociais para que possamos ter o domínio de nossas vidas. Entender que o silencio que nos protege é o mesmo que nos invisibiliza, que a invisibilidade nos deixa vulneráveis, estes são os primeiros passos para que juntas e organizadas possamos reivindicar o direito as nossas próprias falas, que atendam as mulheres que somos.

Precisamos passar do silencio ao grito para garantir o direito de existir e a possibilidade de ter uma vida segura e digna. Hoje nossa luta é por representatividade. Porque somos muitas, não temos um espelho do que somos e representatividade importa. Lutamos contra diferentes vetores de opressão, nós lésbicas negras se ouvidas, podemos contribuir para a formulação de estratégias coletivas para subverter a hegemonia* e confundir a hierarquia da dominação.

Não há vergonha em ser mulher, não há vergonha em ser negra, não há vergonha em ser lésbica. Eu, mulher negra e lésbica, me orgulho de ser quem eu sou e luto pra que outras possam se sentir tão confortáveis e orgulhosa por serem quem são.

Que outras mulheres negras e lésbicas consigam lutar por todas as opressões que nos esmagam em silêncio. Que possamos entre iguais lutar contra os pilares que dizem que somos diferentes, o machismo, o racismo e a lesbofobia.

* Hegemonia significa preponderância de alguma coisa sobre outra.

Referências

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Disponível em http://www.unifem.org.br/sites/700/710/00000690.pdf. Acesso em 20 ago. 2012.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. São Paulo: Civilização Brasileira, 2000. Caderno n. 13, v. 3, 1932-1934.

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Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo Coletivo Audre Lorde.

Imagem de destaque : “Black Lesbian Feminist” August 14, 1980, NYC, USA – Gwenn Craig holds aloft a poster giving her sentiments during the final session of the Democratic Convention. UPI fwl/Stewart – Image by © Bettmann/CORBIS © Corbis