A nós, mulheres negras, incomoda muita a imagem e a consequente estereotipação feitas de nossos corpos. A Rede Globo, como grande veículo de massa que é, contribui há anos nesse desserviço que é mostrar – segundo uma visão machista, racista e classista – qual é o lugar que deve ocupar a mulher negra, reforçando – por vezes de modo caricato e ofensivo – esse estereótipo.

De 16 de setembro a 09 de dezembro, teremos a oportunidade de ver o que é a mulher negra, como se comporta, o que faz, onde faz e com quem faz, segundo a visão do homem branco cis: Miguel Falabella, autor de bordões como “eu odeio pobre”, assina a nova série da Globo “Sexo e as Nêga” e pretende, de acordo com suas palavras, mostrar que as quatro protagonistas (e que nem são as protagonistas… Claudia Jimenez o é. Sim, Claudia Jimenez é a protagonista de uma série chamada “Sexo e as NÊGA” … reflitam), enfim, mostrar que as quatro protagonistas ”são mulheres que gostam de transar, de se arrumar, querem arrumar homem. Vivem os mesmos problemas de mulheres de qualquer lugar”.

O Blogueiras Negras produz “informação para fazer a cabeça” e milita um feminismo negro que visa, dentre outras frentes, tanto à desconstrução da imagem hiperssexualizada da mulher preta quanto à consequente objetificação de seu corpo. Por essa razão, o compramos a idéia da preta Aline Djokic, autora de textos como “A mulher negra, o cristianismo e o mito da redenção” e “A balada das quatro mulheres”. Aline propôs que alguma ação fosse feita em resposta aos episódios que, já sentíamos, seriam problemáticos: a primeira ideia foi de que cada uma fizesse seu vídeo comentando o episódio e postasse na sua própria timeline no facebook ou que esses vídeos fossem compartilhados pelo Blogueiras Negras. Com a idéia já abraçada, logo surgiu a proposta desse formato final, que apresentamos a seguir.

Assim, para debater questões que serão apresentadas na nova série da Globo, para problematizarmos e discutimos a visão da mulher negra reforçada por “Sexo e as Nêga”, reunimos três de nossas nêgas: Aline Djokic, Charô Nunes e essa que voz fala, Gabi Porfírio, para iniciarem uma série de debates que serão feitos coletivamente e cuja gravação será transmitida e veiculada através do canal do Blogueiras Negras no youtube. Esse grupo vai levantar a bola para uma 4ª nêga que, como convidada especial e representando a voz da audiência, vai enriquecer ainda mais esse debate trazendo um aspecto do episódio da semana que mais lhe tenha chamado atenção.

Ao todo, serão trezes episódios que, como já dissemos, irão ao ar de 16 e setembro a 09 de dezembro. Ao todo, serão seis grupos formados por três nêgas + a nêga convidada representando a audiência. O primeiro grupo é formado por Aline Djokic (a cabeça da ideia), Charô Nunes e Gabi Porfírio: nossa convidada especial é supresa!! Para a formação dos outros cinco grupos (cada uma com três nêgas) a gravarem seus debates, faremos uma agenda (semelhante à agenda de textos do BN), para organizarmos as pretas que se dispuserem a contribuir nessa vlogagem coletiva.

O convite da quarta nêga fica por conta do próprio grupo, que vai ter autonomia para escolher quem melhor poderia contribuir e representar à altura as pretas da audiência. Nessa nossa conta, então, cada grupo ficará com dois episódios para comentar (o que também será organizado numa agenda); para o último vídeo referente ao último episódio, vamos abrir na fanpage ou ver quais pretas se fizeram mais presentes nas discussões para comporem o último grupo e fecharem com chave de ouro esse ciclo de debates, que terá como uma das identidades a hashtag #AsNegaReal.

A ideia, vinda de uma votação aberta no grupo do Blogueiras Negras, partiu de Maria Rita Casagrande. Para Maria Rita, o duplo sentido da tag é o mais interessante: somos todas negas da realeza e, mais do que isso, reais. Gostaríamos de deixar claro que essa tag não rejeita, de forma nenhuma, que mulheres negras moradoras de comunidade e que são camareiras, costureiras, cozinheiras e operárias não sejam reais. Nós sabemos que a mulher negra está na base da pirâmide social e, em comparação ao homem branco, ganha 30% a menos que ele. Entretanto, além de camareiras e costureiras, nós somos advogadas, professoras, colunistas, jornalistas, escritoras, arquitetas, e nós queremos mostrar que a realidade da mulher negra vai além do estereótipo que Miguel Falabella está querendo reforçar.

Além da contribuição de Maria Rita e Aline, contamos ainda com a cola que nos une a todas no Blogueiras Negras que atende pelo nome de Charô Nunes – a primeira e grande entusiasta da ideia e o motor que fez começar a girar essa engrenagem: Aline pensou no “quê” e Charô botou pra funcionar pensando e organizando o “como”. Por trás deste texto estou eu, Gabi Porfírio, a quem foi confiada a tarefa de organizar em palavras esse projeto novo, mas já tão precioso como mais uma ferramenta de empoderamento de mulheres negras.

Nos vídeos, que irão ao ar aos sábados, discutiremos o episódio da semana, nossas impressões (e depressões) sobre ele e em que aspecto ele beneficia ou prejudica o avanço no debate sobre machismo e, principalmente, sobre racismo na sociedade brasileira. Nosso objetivo principal é oferecer às nêgas a voz e o protagonismo que raras vezes (arriscamos perguntar: alguma vez?) nos foi dado num espaço como a Rede Globo. A branquitude (e a loiritude do senhor Miguel Falabella) precisa entender que a voz negra é autônoma e pode falar por si mesma, e que não precisamos de nenhumx brancx narrando nossas histórias como se títeres fôssemos sob o comando e vontade de uma pessoa branca.