Como sabemos, o machismo tem mecanismos mais que sofisticados para enquadrar e colocar rótulos nas mulheres. É da sua cultura classificar mulheres como vulgares, ingratas, putas, sensíveis ou frágeis. Os adjetivos são os mais variados. Classificar indivíduos, seja por causa do gênero, identidade de gênero, orientação sexual, cor da pele, lugar onde vive. Tudo isso tem um nome e a gente costuma chamar de preconceito.

Sob alguns desses rótulos, está um que constantemente ouvimos – principalmente nós, mulheres negras – mas que às vezes pouco ligamos, que é o adjetivo “estressada” ou ainda “histérica”, “encrenqueira”. Dia desses me perguntei: de onde vem essa ideia? Para onde vai? Como vive (ou sobrevive) esse preconceito?

Se a gente lembrar que as mulheres nascem, crescem e são educadas para serem princesas, delicadas, educadas e compreensivas, entenderemos a raiz dessas afirmações, desses adjetivos. Ora, se eu fui criada pra não levantar a voz, não reclamar quando me encoxam no ônibus ou baixar a cabeça ao ouvir uma cantada no meio da rua, ou ainda não responder a altura quando alguém me ofende, logo se respondo e o faço num tom de voz acima do “esperado” numa sociedade sexista e racista, então logo sou classificada como histérica, barraqueira, sou classificada como estressada.

Isso porque se qualquer criatura viva, exceto a mulher, se exalta e reclama ou reivindica algo elevando sua voz ou mostrando indignação, essa pessoa está apenas mostrando força e/ou (a palavra mais nojenta de todas) virilidade. Mas a mulher negra que reage ao racismo, ao fetiche, ao assédio ou ao olhar sanguinário do vigia, logo é taxada de estressada, barraqueira, mal comida e precisa se tratar. Como bem disse Lélia Gonzalez, é a “criadora de caso”.

Quem de nós já não se sentiu deslocada, temerosa por falar, por reagir? Qual das nossas nunca achou que seria exagerado gritar “racista”, “machista” de volta quando sofre assédio, é chamada de morena ou gostosa no meio da rua? Esse impulso que nos coagi, que nos faz retroceder faz parte do jogo psicológico das opressões, que só te dão uma opção: ficar calada.

Essa imagem é também bastante reforçada pela cultura midiática, que mostra e estereotipa a imagem da preta como barraqueira: vide filmes de humor, seriados ou telenovelas, onde a personagem negra sempre tem um dedo levantado, um pescoço sacudindo e um tom de voz que uma “mulher educada” não teria. Essa atitude combativa existe tranquilamente no nosso dia-a-dia, mas apelar para que essa seja a nossa única imagem quando estamos reivindicando ou brigando por nossos direitos é estereotipar e reduzir nossas personalidades por demais.

Quando nos alteramos, é como se o discurso inflamado e o tom de voz alto não pudesse fazer parte da nossa fala, é inadmissível se não for caricato. Como se o papel da mucama e da empregada fiel e obediente nos perseguisse até hoje e o que foge disso fosse “rodar a baiana”.

Não faço aqui nenhuma apologia a violência nem ao discurso de ódio, mas é preciso entender que também corre sangue nas nossas veias e que esse mesmo sangue ferve quando somos destratadas, diminuídas, desrespeitadas. Que não se confunda a violência do opressor com a resistência do oprimido. É preciso entender que temos todo o direito de reclamar, falar alto, exigir tratamento digno e mandar o opressor se catar se preciso for.

Por muito tempo ficamos caladas e nosso silêncio sempre fez parte da estratégia racista de manter mulheres negras “no seu lugar”. Seja no trabalho, em casa ou nos espaços públicos, fomos e somos frequentemente tolhidas por olhares, repreensões ou desqualificações. Por isso, emputamos mais força ao falar, pois o grito esteve sempre entalado, abafado. E isso precisa ser levado em consideração quando abrimos a boca, desabafamos, pois nossa necessidade não é de hoje.

Necessitamos ser ouvidas! E isso nos empodera, nos fortalece e nos deixa à vontade para denunciarmos as agressões, mas também para darmos amor, oferecermos nossas experiências e visões de mundo. Ouvir-nos já nos é um acalanto e se o interlocutor o faz com atenção e respeito, indo além do ouvir, compreendendo, então estaremos mais perto da solidariedade e respeito. E mais longe da agressão, do falar violento e do gritar. Mas, se eu gritar, me ouça.

Afinal, quem inventou essa de princesinhas e sexo frágil esqueceu que trabalhar, estudar, militar, sobreviver nos deu força, essa que pode sair a qualquer momento pelos poros,  tanto de amor quanto de dor. Por isso, respeite meu momento de indignação. Respeite as mulheres negras fortes nos seus discursos e nas suas ações. Respeite nosso tom de voz e espaço, porque se não nos derem, nós tomamos.

Imagem: Paula Lima. Site Casamenteiras.