Aliado termo usado academicamente para designar determinados grupos de indivíduos, associações ou regiões, que se unem em aliança, por vezes contra um inimigo ou oponente, no caso de uma disputa”

Desde criança a gente aprende que em determinados jogos de equipe quando um elemento decide ser a estrelinha não raro a gente perde o jogo. Além de ninguém conseguir jogar e mostrar aquilo que sabe e a que veio, ainda tem que lidar com aquilo que der na telha do “elemento estrela” que tenta jogar por todos, mas obviamente falha miseravelmente.

Mais chateado ainda a gente sai de um jogo quando um elemento da nossa equipe, que tecnicamente está a nosso favor insiste em fazer pontos pro time adversário exclusivamente porque ele assim quis, achou mais bonito, mais simpático talvez.

Agora transpondo esta mesma linha de raciocínio pra vida real, quando quem diz estar do seu lado insiste em jogar e marcar pontos pro time adversário, e se esse elemento que se sente parte da sua equipe nem faz parte dela, sequer foi convidado, mas não apenas entrou no jogo do seu lado do time, porque assim decidiu que seria, ainda marca pontos contra sua equipe.

E se ao invés de pontos fossem vidas em jogo? Por mais que você tivesse paciência com aquele jogador que se auto convidou e está errando enormemente, em algum momento você teria que parar o jogo para lhe chamar a atenção. Para pedir que, uma vez no jogo, se quiser realmente ajudar terá que ouvir aquela equipe e somar.

Não é de hoje que a gente enfrenta exatamente a mesma situação com relação as nossas lutas pessoais. Tem sido assim a luta das minorias invisibilizadas. É branco falando por negro, homem falando por mulher, pessoas Cisgenero falando por quem é Transgenero, quem tem orientação heterossexual falando por quem é homossexual, quem jamais esteve em situação de prostituição ou de rua falando por quem está nesta situação. Explicando de um lugar que não é o seu, como o outro se sente, como deve agir e se comportar e principalmente pelo que vale a pena entrar na luta definindo inclusive o que é ofensivo, o que é criminoso, o que fere a carne.

A justificativa para tamanho disparate é uma só, ele quer ser seu aliado. Quer estar ali no seu time e jogar a favor da sua vida. Seria e é ok quando o aliado cumpre seu papel de acordo com o que lhe é esperado. Ele está se aproximando para firmar uma aliança contra algo que oprime aquele grupo de pessoas. Ele empresta sua voz, a partir de seus privilégios para apoiar e não protagonizar a luta daquele grupo.

Quando esta voz emprestada toma um espaço que seria do grupo oprimido, quando julga saber mais do que quem passa pela situação de violência e desigualdade, quando define a luta a partir de seu ponto de vista, ele deixa de ser aliado para se tornar o inimigo.

Se eu não te chamei pro jogo, se não concordo que suas regras apenas lhe beneficiem de alguma forma, onde mesmo eu ganhando o jogo eu perco, e mesmo existindo essas vantajosas regras você ainda pode manipulá-las cada vez que comete um erro, porque eu vou querer você do meu lado? Desde quando um aliado pode ser empurrado goela abaixo de quem não o vê nem reconhece como tal?

Quem fez de você meu irmão?

Não se anda por onde gosta, Mas por aqui não tem jeito, todo mundo se encosta

Quando pessoas se encontram numa mesma situação de violência, existe uma empatia quase que natural entre este grupo, o que não o impede de ter suas próprias divergências uma vez que o conhecimento sobre a existência de uma determinada violência de opressão jamais será o mesmo de sentir na pele esta mesma violência e vivenciá-la no dia a dia. Pessoas são atingidas pelos mesmos elementos de maneiras diferentes.

No caso especifico de nós mulheres negras, matamos um leão por dia para ter o direito de ter voz. Homens brancos falam por nós, homens negros falam por nós, mulheres brancas falam por nós. Todos querem ser aquele aliado bacana, mas não raro acabam só como o “jogador estrela”.

Que raio de aliado é este que não me escuta? Que do alto do seu desconhecimento de causa ousa erguer a voz para falar de um assunto que nem estudando tudo que já se escreveu sobre o mesmo teria capacidades de entender quem são estas pessoas de quem ele pretende arrogantemente falar, a pessoa que tanto estudam. Um aliado acostumado a TER jamais entenderá o que é SER.

Estamos cansadas de repetir que quem define o que é racismo é quem sofre racismo, quem determina se algo lhe representa é o elemento que se pretende contemplado com a “homenagem”. Um grupo de pessoas que não tem como fugir daquilo que é, está dizendo em alto e bom som que a sua “bondade”, seu “esforço”, sua “amizade” não está servindo, que a estratégia precisa mudar, que ao invés de proporcionar orgulho apenas humilha, piora a situação de quem já não anda bem das pernas.

Que aliança é essa que fizemos com vocês que permitem que vilipendiem o nosso cadáver? Que surdez ou alucinação coletiva acomete este universo de “jogadores estrela”. Jamais convidados a luta, mas com mais propriedade do que quem já nasceu nela?

Não é meu aliado quem usa as mesmas armas do meu opressor para defender seus próprios erros. Não é aliado quem seleciona com que parte do grupo quer fazer sua aliança, aquela parte que atende a seus interesses obviamente. Não é meu aliado quem sai pela tangente evitando encostar no corpo negro.

Pra que eu quero aliados que definem que quando eu não concordo com ele só pode ser por ignorância ou burrice? Afinal de contas ele se auto nominou aliado, o ser que chega na defesa dos fracos e oprimidos. Só esqueceu do pequeno detalhe de que ele jamais saberá o suficiente, jamais entenderá o suficiente. Neste jogo TER não é SER, e esta é a diferença que te torna ignorante e deveria te manter encolhido em silêncio quando o dono da fala, aquele que É esta falando.

Como um Concorde apressado cheio de força, voa, voa mais pesado que o ar

Entendemos que incomoda quando essa massa oprimida levanta e ganha sua própria voz. Entendemos, mas não pretendemos recuar. Já não recuamos mais.

Quem define quem é aliado somos nós, por mais alto que qualquer uma possa gritar, por maior que seja o desejo de parecer politicamente correto. Daqui pra frente não há máscara de bondade que não caia.

Aqui já não cabe rosto sofrido e branco desejando ser a nova face do racismo, não cabe atorzinho tentando dar um cunho de justiça social pro blackface, não cabe minissérie reforçando estereótipos.

De uma vez por todas, nós não escolhemos vocês como nossos aliados e nos levantaremos contra essa arrogância quantas vezes forem necessárias.

Temos capacidade de dar voz a nossa luta, ninguém jamais conseguira contar nossa real história senão nós mesmas.

Sabemos o que ofende, sabemos o que fere, o que marca e sabemos o que queremos construir.

Antes de vomitar seu racismo, até ontem socialmente aceito, pense duas vezes, vai esbarrar em quem não está mais disposto a “passar um pano” pra esta sua sujeira. Por mais peso que se coloque nesta luta já tão difícil sem o “fogo amigo” não há nada que vá nos impedir de alçar nossos voos na direção que a gente acredita que seja a correta.

Entenda, nós sabemos quem chamamos de brother. Essa é uma escolha nossa.

Que fique registrado para que não haja mais erro ou engano:

NÃO É MEU ALIADO QUEM ME MARCA A FERRO.

Mexeu com uma , mexeu com todas!

 

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Referência aos títulos : O Rodo Cotidiano – O Rappa
Imagem: 12 anos de escravidão