Texto traduzido do For Harriet

Oi, meu nome é Randie Henderson e eu sou “uma daquelas pessoas negras”, mas frequentemente eu me pergunto “porque sou uma delas?” e eu também me pego rezando e tentando entender por que Deus não me deu paixão por golfinhos, árvores, ou carros, mas ao invés disso me deu paixão por justiça, educação e resistência – explico a seguir, pessoas. Essa paixão é dura, difícil e extremamente pessoal. Eu literalmente internalizo todo fracasso, todo rosto virado, e todo revirar de olhos patético de pessoas negras que me consideram exagerada. À exaustão eu tento explicar que eu não sei amá-los ou a mim mesma em silêncio e, por isso, eu não sei como aceitar passivamente atos de racismo, sexismo e outras formas de opressão e terrorismo que me afetam diariamente e a eles também.

Em algum momento entre 1992-2014 minha vida decolou e eu resolvi lutar e, na minha luta, aprendi que para alguns, amar a si mesmo varia entre ir à manicure semanalmente, passar um tempo sozinho, andar de bicicleta, terminar relacionamentos infelizes (não-saudáveis) ou parar de beber e fumar, mas para mim, amar a mim mesma tem o feitio de falar a verdade sempre. Por quanto tempo eu sofri em silêncio pensando que isso um dia ia me consumir? Até os mais sábios sabem o quão tolo é este conceito: Audre Lorde disse uma vez “seu silêncio não vai proteger você”, e realmente não vai. Ficar calada nunca impediu uma pessoa branca de me chamar daquela palavra com N (Nigga, para os estadunidenses, nigrinha/negrinha para os brasileiros – nota da tradutora), ficar calada nunca resolveu meus problemas de imagem por meu corpo não fazer parte do padrão eurocêntrico de beleza e que exclui os demais, e a não ser que eu estivesse planejando alguma festa ou presente surpresa, ficar calada nunca ajudou em meus relacionamentos e amizades. Só quando eu me tornei proativa e falei sobre o assunto que minha vida começou a mudar. Então por que eu deveria ficar calada e parar de me amar como eu mereço?

Eu sou “uma daquelas pessoas negras” porque quando se trata de humanidade, eu não vou debater, mimar ou apaziguar. Quando eu escuto pessoas jurando que, ao contrário, nada como racismo, discriminação ou preconceito existem, se torna claro pra mim que essa pessoa não aprendeu que nós, enquanto sociedade, não prestamos a devida atenção a linguagem e às definições das palavras, nós usamos as palavras trocadas, sem reconhecer que as estamos usando erroneamente. E que usar a palavra racismo onde deveria estar discriminação e vice versa não é como dizer “com migo” ao invés de “comigo”. Não funciona da mesma forma. Literalmente altera o sentido da frase e usar “pelo contrário” é igualmente prejudicial e errado.

E para piorar tudo, quando eu me vejo explicando calmamente o que racismo, discriminação e preconceito realmente significam a conversa já terminou e me dizem “ai, ninguém pode te contar nada!”

Eu: *piscando rápido*

Por que eu faço isso? Enquanto mais comumente eu pego as pessoas se ajeitando na cadeira quando eles precisam reconhecer algo duro e me fuzilando com os olhos por que eu comecei a conversa?

Por que eu faço isso? Quando parece que as pessoas não poderiam se importar menos? Quantas vezes eu ouvi alguém dizer “eu não tenho tempo pra isso”, “eu não me importo”, “eu não penso sobre esse tipo de coisa”, “eu só quero (coloque aqui o que quer que a pessoa queira fazer)”.

Por que eu sou assim?

Eu faço isso por que eu entendi. Vejam, mesmo hoje há coisas que eu não consigo ver, não consigo assistir ou ler por que tenho medo de me levar ao limite. Alguns dias são muito pesados, mas são só alguns.

Não é meu dever apagar o racismo. Assim como nos filmes, para escolher uma fechadura, desarmar uma bomba, encontrar a chave você precisa voltar à fonte e eu ou qualquer pessoa negra ou não negra (mas não branca) não somos os criadores ou a causa do racismo. O racismo não é nosso legado. É uma das coisas que os brancos podem sinceramente (apesar de que não irão fazê-lo) dizer que é invenção deles.

No entanto, é meu dever fazer notar e ajudar a erradicar as formas como negros e outros não brancos perpetuam o racismo ao internalizar o racismo e acreditar que a escravidão acabou (adaptação da tradutora). É meu dever por que eu não tenho toda essa paixão e vontade de me expor para nada, essa vontade não está aqui sem motivos. É meu dever ajudar e falar por que é a coisa certa a fazer e porque eu não acredito em “as coisas são assim mesmo” – isso não me soa bem, na verdade, isso vai contra o meu amor próprio e se eu tiver de aceitar esse raciocínio eu teria de sacrificar e fazer da minha humanidade discutível.

Não.

Eu estou, afinal, orgulhosa de ser uma “dessas pessoas negras” e uma “dessas mulheres negras” e eu reconheço que eu não sou, não irei e não posso fazer tudo isso sozinha e, por isso, sou muito agradecida à comunidade de “esse tipo de pessoas negras” que tem encorajado minha voz através de seu trabalho, realizações, e crenças de que é ok esperar e exigir mais.

Randie Hendersons é bolsista Gates Millennium (de Bill Gates e da esposa) e recentemente graduada. Ela tem paixão por escrever, ler, aprender e ensinar sobre como desconstruir a opressão nos USA e globalmente por que ela se importa com as pessoas e procura justiça. Você pode encontra-la em randiejourney.tumblr.com e na fan page Black Women’s Blueprint.

Foto: peter klashorst CC BY 2.0