Aluga-se uma optima ama sem cria (Jornal do Commercio, 1/08/1850)

Contemporaneamente, o cuidado, como atividade de reprodução social ancorada na divisão sexual do trabalho, tem sido campo de pesquisa em diferentes áreas do conhecimento: história, literatura, sociologia, psicologia e serviço social. Em algumas análises o termo aparece em inglês sem tradução “care” ou no plural em língua espanhola “los cuidados”, esse último recorrente nas abordagens feministas latino-americanas com o objetivo de ressaltar sua pluralidade. A crítica feminista enfatiza a complexidade e a diversidade dessa atividade essencial para a sustentabilidade da vida humana introduzindo categorias como divisão sexual do trabalho, trabalho doméstico, trabalho reprodutivo, práticas sociais de cuidado e trabalho de reprodução social.

De acordo com Tronto (1997), cuidar é uma atividade regida pelo gênero tanto no mercado quanto na vida privada, de forma que grande parte das ocupações que envolvem cuidados é exercida por mulheres e são elas que também realizam as atividades de cuidado no âmbito privado. Para Marcondes e Yannoulas (2012), o cuidado implica “estar a disposição de” e diferencia-se de outras atividades de suporte ao cuidado como limpar a casa, lavar e passar a roupa. Cuidar possui uma dimensão subjetiva que envolve relações e afetos entre quem cuida e é cuidada/o, mas o cuidado não deve ser naturalizado como responsabilidade de mulheres por excelência, ao mesmo tempo que necessita ser reconhecido como trabalho.

O cuidado é uma categoria que vem ganhando importância para os estudos feministas sobre trabalho e também tem sido abarcada pelos discursos institucionais das políticas sociais públicas. Segundo Gaviria e Molinier (2011), economistas feministas questionaram os conceitos hegemônicos da economia que ocultavam as atividades de produção de bens e serviços exercidas majoritariamente por mulheres, como se não fizessem parte do mercado e da economia monetária. Os feminismos enfatizaram a dimensão material de exploração do trabalho doméstico corroborando a estreita relação entre a ideologia da domesticidade e o desenvolvimento do capitalismo industrial moderno que conferiu a inserção desvantajosa de mulheres no mercado de trabalho.

O que estas pesquisas têm invisibilizado ou abordado de forma superficial é o caráter racial e de classe do que algumas correntes chamam de “economia do cuidado”. O trabalho doméstico remunerado, ao longo da história do Brasil, tem sido a principal forma de inserção das mulheres negras no mercado de trabalho, ocupação atravessada pelo baixo prestígio social e pela precarização das condições de trabalho. A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição nº 72, a PEC das Domésticas, traz um grande avanço sobre a discussão do trabalho doméstico gratuito e remunerado realizado pelas mulheres, mas ainda carece de regulamentações para que a categoria possa usufruir plenamente dos seus direitos trabalhistas.

Conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2011, o trabalho doméstico responde a 21,8% da ocupação das trabalhadoras negras contra 12,6% da ocupação das trabalhadoras brancas. Como desdobramento do trabalho de reprodução social, o trabalho de cuidado é historicamente exercido por mulheres negras. A figura da “mãe preta” construída pelo discurso colonial criou a imagem, da mulher negra doadora, cuidadora e abnegada, que existe para servir aos outros. Cuidar das crianças brancas era uma das funções das negras escravizadas que, muitas vezes, não podiam sequer amamentar as/os próprias/os filhas/os. A maternidade negada também foi princípio do comércio, posto que os senhores alugavam suas cativas como amas de leite com poucos dias de paridas e nem sempre eram acompanhadas das/os filhas/os. Em muitos casos, a velha ama era açoitada pela mesma pessoa que amamentou anos atrás.

A amamentação mercenária alcançou seu fim com o surgimento dos discursos higienistas do fim do século XIX dando lugar à ama seca. Segundo Telles (2011), a literatura médica da época preconizava que doenças e “caraterísticas morais” de mulheres negras como sua suposta natureza promíscua poderiam ser transmitidas às crianças brancas. Esta posição refletia o medo da contaminação moral da sociedade brasileira pelas heranças africanas. De amas a babás, mulheres negras permanecem responsáveis pela higiene, alimentação e primeira educação de meninas/os da elite. Prevalece a relação entre a ama do período colonial e a cuidadora dos dias atuais que substitui a mãe biológica branca no cuidado de suas/seus filhas/os para que esta possa ascender na carreira.

Nos últimos anos, os conceitos de trabalho doméstico e trabalho de cuidado ganham maior relevância nos estudos sobre gênero e trabalho, mas é com a ideia de interseccionalidade proposto por feministas negras e pós-coloniais para abordar as relações entre gênero, raça, classe, sexualidade e outros marcadores sociais, que se questiona a ideia de divisão sexual do trabalho. A delegação de tarefas domésticas e de cuidado expõe a relação de exploração de mulheres, em sua maioria, pobres e marcadas racialmente, por outras mulheres, geralmente brancas e de classe média. Relação a que nomeio racialização do cuidado.

Gaviria e Molinier (2011) nos lembram que é preciso politizar o cuidado, não apenas no reconhecimento do seu valor no plano simbólico, como também no sentido de garantir direitos e melhores condições de trabalho às trabalhadoras que exercem esse ofício. A figura da mãe preta, ainda que tenha adquirido novos contornos em nossa história recente, mantém o estigma da subordinação e a naturalização da subserviência. Não basta colocar o cuidado como questão política, se não houver questionamento sobre quem se beneficia desse serviço. A “mucama permitida” (GONZALEZ, 1980) precisa dar lugar a outras possibilidades de existência de mulheres negras.

Referências:
GAVIRIA, Luz Gabriela Arango; MOLINIER, Pascale. El cuidado como ética y como trabajo. In: GAVIRIA, Luz Gabriela Arango; MOLINIER, Pascale (Comp.). El trabajo y la ética del cuidado. Medellín: La Carreta Editores, 2011. p.15-21.
GIACOMINI, Sonia Maria. Mulher e escrava: uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1988.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. IV Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS. Rio de Janeiro, 1980.
MARCONDES, Mariana M.; YANNOULAS, Silvia C. Práticas sociais de cuidado e a responsabilidade do Estado. Revista Ártemis, vol.13; jan-jul, 2012. p.174-186.
TELLES, Lorena Féres da Silva. Libertas entre sobrados: Contratos de trabalho doméstico em São Paulo na derrocada da escravidão. Dissertação de Mestrado. Departamento de História. Universidade de São Paulo, 2011.
TRONTO, Joan C. Mulheres e cuidados: o que as feministas podem aprender sobre moralidade a partir disso? In: Gênero, Corpo, Conhecimento. JAGGAR, Alisson M.; BORDO, Susan R. (Ed.). Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997. p.186-203.

Imagem de destaque – Mulherio, número 7.