Hoje li um texto lindo no blog sobre dor. Hoje pensei no discurso bombástico da atriz negra Lupita Nyong’o, vencedora do último oscar na categoria de melhor atriz, em relação a sua beleza. Hoje pensei em escrever, uma vez que eu mesma nunca pensei em acordar com a pele mais clara porque, afinal, eu sou “morena” né?! E foi nisso que eu cresci acreditando. Sempre parava na frente do espelho com aqueles cachos penteados a seco (ô dó! rss), amarrava num rabo de cavalo baixo e saía com meu capacete pseudo-liso e uma vassoura de palha acoplada. Sim, eu era com certeza a menina mais feia da escola, mas pelo menos não era preta.

Cristiane o nome dela, a “nega fedida” que todos os dias era empurrada para o meio do pátio da escola onde arrancavam seu prendedor de cabelo (ou de identidade, como queiram), e a deixavam desesperada segurando as pontas, alisando o cabelo com as mãos e gritando “Para! Para!” E em segundos ela estava no meio da roda de meninos… eram chutes, murros e pontapés que ela levava enquanto o coro musicava xingamentos com palmas. Ela bem dava uns murros também, distribuía uns chutes e xingava de volta. Era “marrenta” a menina de 11 anos que estudava na minha escola. Todo mundo dizia que era chata, eu não achava tanto assim, apesar dos xingamentos ditos pela voz estridente ecoarem nos meus ouvidos toda vez que pensava nela.

Eu gostaria de dizer que defendi a Cristiane, que sentei com ela no recreio, que dei as costas para um monte de meninos e meninas que ridicularizavam ela. Eu gostaria, mas não posso. Confesso que chorei escrevendo esse texto. Que tipo de monstro era eu, na sexta série, que nunca foi capaz sequer de sentir o que aquela menina enfrentava todos os dias? Nunca xinguei nem bati, aliás evitava inclusive assistir. Mas a omissão é igual ou pior que os ataques, eles pelo menos se posicionavam. E eu?

Nessas horas a/o leitor/a pode se perguntar: “E onde estava a direção desse colégio?” Pois é. Onde estava? Sendo a referida escola pública um quadrado com as portas das salas em três das paredes e a direção na quarta. O recreio, a gente passava no meio do quadrado, a sala dos professores era ao lado da direção e os gritos eram altos o recreio inteiro. Vez por outra vinha a coordenadora dar uns berros, distribuir umas suspensões, advertências para os meninos que agrediam Cristiane fisicamente, mas só. Cristiane era o motivo de eu chegar em casa todos os dias e agradecer a Deus pela minha pele não ser “tão escura quanto a dela”.

Nadejda era a menina nova, chegou na sétima série, um corpo esguio, pele igual ou mais escura que a da Cristiane, nariz bem chato e o pouco cabelo, num corte quadrado feito na máquina, bem crespo. Da primeira vez que a vi, tive dó da certeza que ela seria conduzida pelo mesmo rumo da Cristiane. Nadejda era doce, não irritada e grossa como Cristiane, mas tinha um detalhe que eu ainda não sabia e que viria a fazer toda a diferença: Nadejda era angolana. Seu sotaque, suas histórias e sua leveza com a vida me fizeram pensar que não tinha nada a ver com o fato da Cristiane ser preta, ela era chata e mais feia do que eu, se é que isso era possível. Pelo menos eu era legal, pelo menos eu era inteligente, pelo menos eu tinha amigos, pelo menos eu não era ela. E pela primeira vez eu tive alguma autoestima ao perceber que minha vida podia ser bem pior.

Cristiane carregava na cara preta de 11, 12, 13 anos de idade todo o peso do racismo arraigado da nossa cultura. E ela, no seu início de adolescência, encarava de frente, de cabeça erguida e peitava mesmo, quem fosse! E gritava e xingava mesmo. Eu a vi chorar uma vez, foi bem pior. A gozação triplicou com as lágrimas da menina sentada no chão segurando os cabelos. Nadejda era recém chegada de um país africano, um país negro, ela tinha a “leveza dos inocentes”. Mas não sei dizer se é possível se viver mais feliz assim.

Aos 17 anos eu conheci um menino maravilhoso, Hugo parecia um ursão de pelúcia e me disse que eu tinha um sorriso lindo. Mas ele falou tão entusiasmado e repetiu tantas vezes para mim e para quem mais quisesse ouvir, que eu acreditei. Que outras pessoas acreditaram. Que todo mundo passou a comentar. Foi aí que me foi roubado o primeiro beijo… E eu, bem contente, tatuei a droga do sorriso na cara. Empunhada da única arma que tinha, comecei a perder a pena de mim mesma, afinal eu podia me esconder atrás daquele sorriso e fingir que era linda. Pega meus documentos pra ver, isso é desde antes das pessoas saberem que podia: carteira de motorista, de estudante, da ordem dos músicos, passaporte, todas as minhas fotos são sorrindo e rezando pra ninguém descobrir que, atrás daquela armadura de dentes eu era na verdade muito feia. Foto séria? De perfil então? NUNCA! Eu tenho mais dentes do que minha boca é capaz de suportar e aos 14 anos a dentista me disse que “esteticamente não funciona”. Só que eu nunca tive cárie, não ia perder quatro dentes a toa, feia eu já estava acostumada a ser, sem dente não ia rolar.

Hoje eu lembrei do discurso da Lupita sobre se descobrir bonita e pensei na minha vida… Eu que tive que descobrir que sou negra, porque o desespero pelo embranquecimento é tanto que só ouvia do meu pai que estava “penteadinha” quando o cabelo estava preso, da dentista, que  minha dentição protuberante “esteticamente não funciona” e… e a culpa? É de quem afinal? Meu paizinho querido, preto do nariz chato e do cabelo crespo, engraxate e vendedor de bala na infância, morreu dizendo que sofreu racismo talvez uma ou duas vezes na vida. Como se isso fosse possível. O sistema é tão cruel e velado que a gente acha que é feio, burro, fedido… Nunca é racismo. Quando se começa a entender os porquês, queremos encontrar um culpado e é muito fácil colocar na conta do sistema, na maneira como a história é contada, pela ótica de quem é contada e sim! Tudo isso é a mais ardente verdade! Mas no fundo pouco importa quem inventou a discórdia porque quem vai ter que desinventar somos eu e você. E o meu orgulho é sair na foto séria, de perfil, evidenciando todos os traços que mãe África gentilmente me concedeu, empunhando a espada com os dizeres cravados:

“Não sou livre enquanto uma pessoa negra permanecer acorrentada” – Audre Lorde

Perdão Cristiane.

Imagem de destaque – Arquivo pessoal aiara Lira.