Como cerca de 55% da gravidezes no Brasil a minha também não foi planejada. Estava casada a cerca de um ano, sabia que queria um filho mas estava morando numa cidade diferente, longe da minha família, não tinha emprego, tinha parado de estudar. Eu e meu marido falávamos da possibilidade de crianças num futuro um pouco mais distante, afinal tínhamos outras prioridades. Por isso que foi como levar um soco na cara quando o teste da farmácia deu positivo, e o outro também e o exame de sangue que fiz na sequência apenas confirmou aquilo que eu já sabia mas estava em negação, eu teria um bebê.

O cenário presente na época para o nascimento desta criança não era dos piores, eu consegui os testes, consegui ir ao médico, não estava vivendo no mais feliz dos casamentos e tive a certeza da gravidez alguns dias depois de mencionar pela primeira vez a palavra divórcio.

Levei três semanas entre o desconfiar estar grávida e o exame de sangue, e quando ele chegou foi como as primeiras linhas de uma sentença pouco agradável embora eu quisesse muito um bebê. Desde muito nova eu tinha a certeza de que teria um filho, só não gostava muito da ideia de que pra isso eu precisaria ter um marido. Agora a situação me colocaria por questões de sobrevivência ao lado de alguém que talvez não quisesse estar lá, naquele casamento, eu não queria. Só pensava que a minha total relação de dependência me manteria ali “pra sempre”, porque afinal era assim desde sempre, isto era a família e eu precisaria encarar.

Estava me sentindo culpada logo de cara por não sentir ligação emocional nenhuma com o que ainda não estava sendo chamado de bebê, simplesmente porque ainda não era um, era “a situação”, mas precisava ir até um médico pra que tudo pudesse ser confirmado. Fui consultada, gravidez confirmada por novos exames, a alegria ainda não estava presente mas viria um novo baque. Jamais vou esquecer a frase e o tom de voz do médico quando ele disse:

“Quando você for realmente ter este bebê precisaremos saber da sua escolha, será você ou o bebê? – Ter este bebê irá te matar”

Foi assim, a seco, como durante toda a minha gravidez eu estava sozinha, ouvi em silêncio toda a informação sobre como estava o feto, como desenvolveria a gravidez, sobre pré eclampsia (desenvolvimento de hipertensão durante a gestação). Perguntei se havia uma alternativa e quais eram as minhas chances, como resposta um balançar de cabeça. Poderíamos tentar prolongar a gravidez que seria terrível e ver quem sobreviveria no final ou eu poderia “ver o que fazia”.

Ver o que fazia seria obviamente interromper a gravidez, mas claro eu não teria ajuda ou suporte para isso. O médico só me daria maiores informações sobre se eu comparecesse a uma consulta com meu marido. Na época fez todo sentido do mundo, eu era propriedade de alguém, me via como propriedade, era tratada como propriedade e não esperava nada além disso.

Quando retornei em consulta com quem poderia ouvir sobre os riscos de prosseguir com a gravidez, as chances de morte e tudo mais tive uma surpresa, não falamos sobre nada disso, colocaram meu marido para escutar o coração do feto. Fui sentenciada a morte ali.

Não havia direito a escolha, meu corpo não me pertencia era de outros.  Nenhuma outra vida seria afetada com tamanha intensidade a não ser a minha já claramente descartável.

Grávida perdi 7 quilos em 4 meses, me alimentava basicamente de bolacha de agua e sal, doa 8 meses grávida 5 foram na cama, a cada consulta a certeza da morte mais próxima. Como se não bastasse fui informada que devido a um descolamento de placenta e a perda de peso a criança poderia nascer mal formada, cega, ou sobreviver algumas horas apenas. Eu já tinha aceitado que as coisas seriam como seriam, eu não estaria presente para ajudar a criança que talvez nem vivesse, tudo funcionava como um jogo que poderia não ter ganhador nenhum. Não houve um dia desses 232 dias de gestação que eu não tenha chorado, mesmo querendo muito um filho continuava não sentindo absolutamente nada.

Não foi como em nenhum comercial da Johnson, não foi bonito, não teve festinha, não comoveu. Por fim Pedro nasceu, eu sobrevivi a um parto doloroso, a 20 dias com um tampão (uma espécie de toalha feita de gaze) “esquecida” dentro de mim depois de um parto normal, continuou não sendo bonito. Mas tive sorte e me veio Pedro, a melhor criança do planeta.

Mas isto não é sobre minha gestação e as decisões que não pude tomar. Apesar desta ter sido uma história com um final feliz, poderia ter sido completamente diferente, mesmo querendo uma criança eu queria ter tido o direito de escolher manter minha vida quando a ocasião foi apresentada, fui submetida a uma situação de dor que poderia ter sido evitada.

Hoje numa realidade periférica completamente diferente, sem acesso a saúde imediata, já com um filho, desempregada, morando de favor se acontecesse de ficar grávida, mesmo querendo muito um outro filho, a interrupção da gravidez não seria somente uma alternativa para minimizar danos, seria questão de sobrevivência. Garantir a minha sobrevivência esbarraria em questões legais, que me criminalizam por sobreviver.

O Código Penal brasileiro é datado de 1940 e já previa duas condições para o aborto legal, em 2012 com uma decisão do Superior Tribunal Federal uma terceira condição foi agregada. O aborto no Brasil é permitido por lei em casos de estupro, risco de morte para a gestante e anencefalia.

Mesmo legal desde 1940 esta alternativa não me foi apresentada como uma solução para sobrevivência exclusivamente por questões patriarcais, pelo meu não pertencimento, o que definiu se eu viveria ou não foi uma moral cristã um tanto duvidosa.

Vejo o tempo todo por ai os discursos pró-vida, mas é pela vida de quem? Como definir qual vida vale mais?

A decisão de ter um filho nunca é simples, fácil. Como reagir a informação de que você pode morrer, de que a futura criança não sobreviverá? Como ter o filho fruto de uma violência e lembra-se disso diariamente? Regrar a vida do outro é muito fácil quando não se está na mesma situação. Tenho uma imensa dificuldade em aceitar que outras mulheres sejam CONTRA o aborto, sendo que pra mim é muito lógico que, se o aborto é algo que vai contra suas questões morais particulares, apenas não faça. Impedir que outras mulheres garantam sobrevivência por conta daquilo que você considera moralmente correto (e nem vou falar aqui sobre de onde vem estes conceitos) é minimamente ridículo.

Mais uma vez falta empatia, o se colocar no lugar do outro. Quase todo discurso pró vida parte do princípio de que esta mulher está em uma posição para fazer a escolha por conta própria – um relacionamento ruim, instável ou novo, onde a mulher é essencialmente por conta própria. Mas esta não é a realidade, não são meninas novas, inconsequentes que engravidaram por farra, quem aborta em sua grande maioria está entre a culpa do aborto e a culpa de permitir que a criança nasça para passar fome ou para continuar num ciclo de violência.

O aborto no brasil precisa ser legal e seguro, é questão de saúde pública. E que ele seja legal não apenas nos casos previstos, mas que possa ser sim uma escolha da mulher, não somos propriedade nem particular, nem do estado e precisamos de cada vez mais acesso a informação sobre a interrupção da gravidez, precisamos estar todas atentas para que nossos direitos não sejam usurpados.

Sou mãe, amo crianças e gostaria de ter outros filhos, eu abortaria, eu sou a favor da legalização do aborto. É por mulheres negras e periféricas, é pelas mulheres que são estupradas, pelas que tem e as que não tem os 4 mil necessários para um procedimento ilegal, pelas que não tem e não terão acesso a informação.

É para que tenhamos direito a nossos próprios corpos. Enquanto a legalização não ocorre não importa sua linha de pensamento sobre o assunto, não importa a cor da sua pele, você também é uma potencial clandestina.