Há tempos venho querendo escrever sobre esse assunto genocídio, é do meu conhecimento os números que provam que homens jovens e negros são os que mais morrem no Brasil. De acordo com a pesquisa “A cor dos homicídios no Brasil”, de 2001 a 2010 a morte de jovens brancos no país caiu 27,1%, enquanto a de negros cresceu 35,9%. Fato que evidencia o racismo institucional promovido pelo Estado.

É pela necessidade de evidenciar machismo e racismo que me interessei em entender a morte da mulher negra, afinal somos todas Cláudias: mais de sete meses da morte dessa mãe, mulher, trabalhadora, pobre, periférica e negra. E temos que lidar com a notícia que os policiais assassinos estão livres e trabalhando (1); para piorar, somos Haissas Vargas Motta (2), moça de 22 anos que segundo amigos foi baleada sem justificativa nenhuma pela polícia durante uma abordagem.

Nós somos mulheres negras que além de lidar com a morte de filhos, irmãos, pais, assassinados pelo racismo todo dia aos montes, somos a base da pirâmide social, as que ganham menos, as que são mais pobres e, dentre as mulheres as que morrem mais. Nos Estados Unidos “a taxa de homicídios entre mulheres negras é de 12,3 para cada 100 mil assassinatos e entre as brancas é de 2,9.

As mulheres negras entre 16 e 24 anos têm três vezes mais probabilidade de serem estupradas que as mulheres brancas” (Agende- Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento). Segundo o estudo Violência Contra a mulher: Feminicídios no Brasil, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) são: em média 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia ou ainda um óbito a cada hora e meia, isso.

Nesses números mais de 60% das mulheres assassinadas no Brasil entre 2001 e 2011 eram negras, que foram as principais vítimas em todas as regiões, com exceção da Sul. Destacando as regiões Nordeste (87%), Norte (83%) e Centro-Oeste (68%), com os mais altos índices. Ainda conforme essa pesquisa o maior número de vítimas estava na faixa entre 20 e 29 anos, ou seja, mulheres jovens, e a maioria dos óbitos 54% foi de mulheres na faixa de 20 e 30 anos.

Isso mostra que temos um: Genocídio por gênero e raça; e sua principal vítima é a Mulher Negra.

E infelizmente é fácil entender o que gera esse genocídio, somos nós a maioria do país, 27% da população é mulher e negra, mas também somos as mais pobres, e estar nessa situação implica em não ter acesso a serviços de saúde de qualidade. A mulher negra ainda sofre no momento do parto, afinal quem carrega o estereótipo de ser forte e aguentar tudo, suporta dores do parto. Sofremos também com mais mortes decorrentes de abortos, pois no Brasil mulheres abortam, só que umas em clinicas e outras clandestinamente e não é difícil de entender que quem tem menos recursos está exposta consequentemente à morte.

A relação mortalidade materna/nascidos é maior entre as mulheres indígenas, seguidas das mulheres negras. Porém, morrem mais mulheres negras. Explico. Em 2009, segundo o DATASUS, houve 1.872 óbitos declarados, sendo 25 de mulheres indígenas. Mas, como a população indígena é pequena, a relação morte materna/nascidos vivos, é a mais alta: 157 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. Já entre as mulheres negras (soma de pardas e pretas, segundo o IBGE) a relação é menor: 75 para cada 100 mil. Porém, em números absolutos é, em disparada, maior: 1.076 óbitos. Portanto, 57% do total de um total de 1.872 óbitos em 2009.

(…)

O racismo e o preconceito estão tão incrustados em nós que as pessoas aprenderam a tratar as outras no pacote. E isso se reflete na mortalidade materna, na assistência à saúde, enfim. Primeiro, são atendidos os que são iguais, depois os diferentes. Imagine na hora do aborto. As mulheres negras já são discriminadas. Em situação de abortamento, elas são mais discriminadas do que as brancas. Serão as últimas das últimas a serem atendidas, correndo maior risco de morte. (Fonte)

Em relação à violência domestica, é fato que mulheres negras estão não só expostas ao machismo e racismo, que consequentemente refletem nas suas relações amorosas, como também não são vistas como o modelo de mulher para relacionamento. Sofrem assédios intensos e agressivos, pois o corpo da mulher negra é tratado como objeto duplamente. Nós mulheres estamos expostas a violência de gênero e negras à violência racista, quando esse se une àquele temos consequências devastadores. Sei que violência contra as mulheres configura-se como um importante problema social, econômico e político que atinge praticamente todos os países, bem como mulheres de todas as classes sociais, cor/raça, etnias e religiões.

A pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) da Universidade de Brasília (UnB), Bruna Cristina Pereira, apresentou dados de estudo que resultou de sua dissertação de mestrado, intitulada “Tramas e Dramas de Gênero e de Cor – A violência doméstica e familiar contra as mulheres negras”. O estudo trouxe depoimentos de 14 mulheres negras de diferentes níveis sociais, mostrando que a cor da pele interfere no relacionamento com o parceiro, com a família e gera situações de violência.

“Nós temos nos estudos sobre violência doméstica uma discussão sobre o poder disciplinador que seria, na nossa sociedade, patriarcal, essencialmente masculino. E o que eu encontrei foi que esse poder disciplinador nunca está descolado da questão racial, ou seja, o poder disciplinador tem também uma cor, e ela é branca”- afirmou. Bruna exemplificou com o caso de uma das entrevistadas, identificada como Manoela (nome fictício), que já sofria discriminação quando ainda morava com os pais, por ser a mais escura entre as irmãs. Em casa, o pai a obrigava a executar tarefas domésticas, mas suas irmãs tinham outros deveres. E quando se referia a Manoela em conversa com a mulher, o pai a chamava de “essa sua neguinha”.

Manoela depois se casou com um homem mais negro que ela, mas que também a submetia a violências. Ele lhe dizia que mulheres brancas o desejavam e que tinha um caso com uma mulher branca.“Em muitos estudos, o casamento constitui um indicador de que não existe racismo. Isso precisa ser questionado. Não necessariamente porque existe uma relação afetiva, deixa de haver dinâmicas racializadas. Muito pelo contrário, elas podem, inclusive, ser reforçadas” – afirmou. (Fonte)

Diante de tudo isso, somos mulheres negras mortas pela policia, somos mulheres negras mortas por conta de abortos, somos mulheres negras mortas por conta das condições precárias e falta de acesso à saúde, somos – enfim – mulheres negras mortas. Não podemos nos calar!

O genocídio no Brasil tem cor, mas também tem gênero. Não dá pra fingir que quando se é mulher se é negra, não se está duplamente exposta a opressões. No caso, expus as físicas, mas não podemos deixar de falar das psicológicas, já que sim, é muito difícil não sentir todo o peso do que representamos nas costas e não sofrer com depressão, ou outras doenças psiquiátricas.
Sofremos na pele e na alma então não podemos deixar que esqueçam nossas dores, por isso dedico esse texto a memória de Cláudia Silva Ferreira.

“Eu, mulher negra, nascida escrava, sem nação definida,
sofri na carne,
na alma e em todas as reentrâncias, a fúria humana, desumana, insana,
que vocês talvez, espero, nunca tenham sentido, sintam, sentirão.
Um pouco dessas marcas estão aqui, sob forma de palavras.”

In: Poema Preta

Imagem de destaque –Think Olga.

claudia4