Vanda nos olhou e, timidamente, disse: “não sabemos das coisas assim como vocês, então fica difícil falar”. Essa frase veio exatamente depois de Andréa contar que sua pequena filha havia sido discriminada na escola por uma coleguinha branca: “não quero brincar contigo porque és preta”. Resultado: a filhota queria se passar leite em pó para ficar de pele branca. Como Vanda e Andréa podem não considerar que sabem das coisas?

A cena aconteceu na produção de Todas Cláudia. Um encontro que realizamos com outras negras para trocarmos reflexões entre o que aconteceu à Cláudia Ferreira da Silva (RJ) e o que o episódio refletiria em nós, mulheres negras de Belém. Desde então, me questiono sobre como as irmãs negras, que não estão ativas nessa militância do feminismo negro, sentem-se entre aquilo que veem sobre si na mídia nacional, seja nas telenovelas, nas propagandas ou notícias na imprensa, e entre os debates provocados pelo movimento de mulheres negras.

O incômodo sobre essa questão aumentou quando em um bate-papo com estudantes da graduação de Jornalismo da Universidade Federal do Pará, falei sobre o VT das lojas Riachuelo para o Dia Internacional da Mulher. Uma menina negra me interrompeu e afirmou: “achei um exagero dizer que a propaganda é racista, não aparece nada demais lá, é uma mão neutra”. Engoli o choro e respondi: “pois é esse o nosso lugar na sociedade, no mercado, na economia e na mídia brasileira: somos neutras. Não temos rostos, vozes. Sequer somos consumidoras”.

Provocou reflexão e ruptura? Não sei. Talvez não saiba nunca.

Tenho vivenciado cenas como estas cada vez com mais frequência. Mulheres negras, meninas negras, que não se sentem participantes da problemática que buscamos pautar. Que não se inserem nesse movimento, porque não se sentem com propriedade para falar sobre o assunto. Muitas ainda acham que é normal e natural uma mulher negra na telenovela interpretando uma empregada doméstica ou quando um fulano como o Faustão chama o cabelo crespo da moça negra de ‘cabelo de vassoura’.

Os grilhões da nossa cultura escravocrata são resistentes.

Recentemente, ao participar da formação “Mulheres Negras em Pauta”, da Articulação  de Organizações de Mulheres Negras, ouvi de uma mestra, uma griot que integra o movimento negro paraense há mais de trinta anos, a seguinte provocação: “no que o movimento negro é útil?” E citou o texto de Luis Henrique Nascimento:

“Uma coisa é comunicarmos para militantes e politizados – compartilhar informações, encaminhamentos, ativar engajamento e, sobretudo, manter a galera motivada. Outra coisa é sensibilizar aqueles que estão fora desse circuito, os que não te conhecem ou que discordam das suas ideias – a grande maioria das pessoas, claro. E outra coisa ainda é confundir o segundo público com o primeiro”.

Pensei diretamente no Todas Cláudia, nas sete mulheres que nos permitiram viver aquela experiência. Em nosso esforço e exercício de mais ouvirmos do que falarmos, de não semearmos verdades, mas de tentar provocar reflexão. Nossa principal questão ali era debater a Cláudia que cada uma de nós representa. Não sabemos se algo as mudou depois da experiência e como elas estão sobre as novas ocorrências que aconteceram nesses últimos meses, mas eu não existo mais sem citá-las.

O racismo e o machismo contra a mulher negra está nas ruas. No cotidiano. Por isso precisamos estar nas ruas. Por isso precisamos hackear o racismo e quebrá-lo por dentro de seu sistema. Porque não é fácil confrontar o que está posto, não é fácil, nem prazeroso, desembaçar a visão. Dói. Incomoda. Às vezes deprime. Indo por dentro, compartilhando aprendizados, é possível aumentarmos o nosso coro e que mais irmãs negras soltem suas vozes, seus cabelos, suas indignações.

As populações negras que conseguem invadir a academia, tem a obrigação de romper com os silenciamentos e com as invisibilidades impostas. A epistemologia é supra importante, mas ela não é a totalidade do mundo, muito menos do mundo negro.  As meninas negras mais importantes talvez não estejam nas universidades. Talvez nem estejam nas escolas. Muitas continuam imersas na cultura escravocrata brasileira.

Recentemente, em Belém, aconteceu o VIII Congresso Brasileiro de Pesquisadores (as) Negros (as) e, lógico, lá não encontramos muitas Cláudias, Vandas, Andréas. Então quais são espaços que nós, pessoas envolvidas com a militância, damos às vozes negras não acadêmicas? Na verdade, creio que minha pergunta está errada. Nós não temos que dar espaço a quem já o tem por direito e que, pra mim, são #AsNegaReal. Em maio de 2015 faremos a Marcha das Mulheres Negras: contra o racismo e a violência e pelo bem-viver. Quantas negras não militantes, não ativistas, não acadêmicas, não afro-religiosas, estarão na marcha?

Por que ainda é mais recorrente que a mulher negra da vida real se identifique menos com a mulher negra da militância e da academia, do que com aquela mulher negra que aparece nas ficções e também não estranhe a ausência de mulheres negras nos programas de televisão ou mais, que boa parte das mulheres negras presentes na mídia nacional esteja com o cabelo sempre alisado, escovado, domado, ao invés de naturalmente crespo, como é sua essência e composição.

Cientificamente todas essas atitudes, todos esses valores culturais, estão sendo debatidos, explicados, explorados. Dezenas de trabalhos acadêmicos debatem a condição da mulher negra no Brasil. Mas será que a Andréa (a moça citada no início do texto) já ouviu falar, por exemplo, em diáspora africana? Se a própria África é um território estranho a ela e se ela nunca ouviu falar em lei 10.639? O que a Andréa sabe é que sua filha queria ser branca. Andréa conhece bem é essa dor da rejeição, da diminuição, da segregação, vivencia por sua filha de seis anos.

Imagem destacada: Child girl portrait, Goba, Moçambique – por E.B. Sylvester.