Eu hoje quero fazer um desabafo, quero dividir o relato de uma amiga e de sua filha, que me emocionou bastante, me deixou com vários “nós” da garganta.

Esta minha amiga é professora e trabalha em uma escola particular com um viés evangélico batista, situado na região de Caieiras em São Paulo. Como funcionária da escola, ela teve o direito de ter uma bolsa de estudo para sua filha de cinco anos de idade. Na semana passada, a professora de sua filha fez uma atividade com seus alunos que teve a ação de contratar uma empresa para tirar fotos dos alunos. Porém quando chegou a vez da filha da minha amiga, a professora disse que seu cabelo não iria ficar adequado na foto, pois a criança estava usando trancinhas com chuchinhas coloridas, um adendo, ela é a única criança afrodescendente da sala.

Então, esta mesma professora desmanchou o penteado da criança e deixou o cabelo solto, sem consultar a mãe, resultado os coleguinhas de sala riram bastante e fizeram comentários perversos sobre o seu cabelo, dizendo ser um cabelo fuá, pois não balança. A criança se sentiu humilhada e ficou aos prantos apenas querendo ir embora dali, a docente perdeu o controle da situação e não interviu, foi negligente. Depois que a criança encontrou sua mãe, apenas pedia com os olhos cheios de lágrimas que ela passasse um creme para o seu cabelo ficasse bonito, igual da sua tia que tem o cabelo Black.

Olha, esta história doeu muito em mim, pois lembrei na minha infância, na minha vivência escolar e de histórias de amigas. Lembrei sobre a importância da aplicação da lei 10.639/03, do ensino da história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares e a falta de preparo dos docentes e também tudo isso me recordou, de uma forma diferente, o caso da Linda Brown.

O caso Linda Brown aconteceu na década de 50, na cidade de Kansas (EUA).  Linda era uma aluna da terceira série e via-se forçada a caminhar algumas horas para chegar a seu colégio apenas destinado a negros. Para resolver sua situação de bem estar, sua família teve que entrar na justiça para a garotinha ter o direito de estudar em uma escola próxima de sua casa que era voltada a pessoas brancas.  O clássico Brown versus Board of Education, um marco da luta da segregação racial nas escolas públicas.

Apenas quero ressaltar que temos nos empoderar e ser resiliente sempre, principalmente para construir um mundo diferente para esta nova geração, não podemos nos calar jamais e temos que ter orgulho de sermos mulheres negras, aja o que houver.

Finalizo com este poema da grande poetisa Conceição Evaristo, que resume muito bem esta situação. Salve Conceição Evaristo!

Vozes-Mulheres

A voz da minha bisavó ecoou
criança nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes.
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.