Hoje eu sinto falta do carinho e das conversas interessantes de algumas pessoas. Da tranquilidade e da falta de ciúme em uma relação amorosa – ciúme que na verdade não fazia “falta”. De me sentir interessante e atraente para outras pessoas.

Falta de um emprego em que eu ganhava um valor razoável; não sinto falta de ser explorada nem do estresse. Sinto-me na responsabilidade de cumprir com todas as atividades que ando carregando nas costas, de enfrentar o racismo, o machismo e a homofobia que não cansam em fazer parte da minha rotina. Sinto-me em completo desassossego com tantos dilemas na mente, tantas expectativas.

Meu cabelo nunca foi minha parte do corpo favorita. Acho que nós negras aprendemos desde pequenas a não gostar de nenhuma parte do nosso corpo. É o que a mídia ensina. Nossos traços, nossa cor. Tudo parece errado e fora de lugar, e ao mesmo tempo em que nossos “defeitos” são apontados, a grande mídia chega nos oferecendo a solução para os nossos “problemas”: cremes clareadores, cirurgias, alisamentos. Tudo para ter a pele que você sempre quis, o cabelo “mais liso que o normal”. Sempre quis? Tem certeza?

Lembro –me que uma vez uma colega de sala perguntou minha cor. Eu, inconscientemente envergonhada, com apenas 5 anos disse “marrom”. E ela, num tom agressivo: “NÃO, você é preta”. Anos depois me perguntei como uma criança era capaz de tão cedo reproduzir algo tão racista. Com quem ela aprendeu?

Outro fato que vez ou outra permeia minha mente é um colega de classe, dessa vez, eu tinha 6 anos e ele 7. O garoto me assediou em sala. Falei com a professora que ele havia implicado comigo, mas mesmo com apenas 6 anos não tive coragem de contar para ela que ele havia pedido para eu dar um beijo no canto da boca dele. Não foi algo ingênuo, infantil. Ele falava em um tom agressivo. Como se eu fosse uma escrava. Isso tudo na escola particular, de freiras, na qual estudei durante toda a minha vida. Até os 9 anos entrava muda e saía calada. Anos depois uma ex-colega de turma lembrara que quando tínhamos 5 anos ela pensara que eu era muda e sempre pedia para eu falar alguma coisa, e eu ignorava.

Sinto falta dos cabelos trançados.  Queria não ter sentido necessidade de destruir meu cabelo com um alisamento aos 11 anos de idade. Os resquícios me acompanham até hoje, no momento em transição capilar, sem coragem para fazer o big chop. 1 terço do cabelo crespo e o restante alisado. Cabelo fraco, sem vida. Comecei então a cuidar dele, a tratá-lo com carinho, desejando ardentemente que ele volte a ser perfeito, como sempre foi. Há seis meses eu descobri a textura dos meus cabelos. Eu tenho 19 anos.

Estou me acostumando com a ideia de que meu cabelo não é ruim, mas sim o preconceito. Tenho gostado de mexer no cabelo e ver as ondinhas discretas despontando entre os fios alisados. Às vezes tenho vontade de cortar logo, pra deixá-lo natural. Outras vezes penso em esperar crescer mais, devido a vaidade de cabelos longos.

Sou negra, sou lésbica e tenho minha orientação sexual questionada todo o tempo, pois sou vista como um pedaço de carne para os héteros e ignorada pelas lésbicas.  Não me vejo representada no movimento negro que ainda é predominantemente dominado por homens machistas, tampouco pelo movimento lgbt que esquece que eu existo.

Muita coisa dói em mim. A última grande dor foi ir ao salão na semana passada pra me render a uma escova. Ainda não consigo lidar com o cabelo nessa transição e por vezes vergonhosamente tenho que apelar para uma escova. A cabeleireira pergunta: “você não faz nada para…abaixar o volume do seu cabelo?”.

Hoje eu teria muito mais para dizer, mas no momento só as lágrimas saem.

 Imagem destacada: Pinterest – California Sen. Sheila Kuhel.