Dedico este texto a Suzane Jardim, a preta mais guerreira que já conheci, juntas somos voo, voz e verso

“Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.”

Maya Angelou

***

Libertar-se de um relacionamento abusivo vai além de terminar a relação e afastar-se do misógino em questão. Precisamos atravessar muitas fases para que se consiga reconstruir-se e entender o que se viveu. Depois de nos tocar da vida infeliz que estamos levando e nos libertar do parceiro algoz, ainda leva-se um tempo para superar o trauma, deixar de fugir do medo e encará-lo de frente, encarar o que se viveu e dar voz a si mesma. E na minha experiência, em primeira pessoa sendo, só depois de um bom tempo de desintoxicação das ideias que acorrentavam minha mente, só depois de longas reflexões e muito aprendizado, apenas tomando distância do vivido consegui distinguir as coisas com mais exatidão. É difícil se dar conta de todo o discurso de ódio a que se está submetida enquanto se está imersa nele, é como estar num mar de lama e só ver lama em volta.

Enxergar-se como centro de uma violência que não ocorre por acaso em sua maioria com mulheres negras é doloroso, mas necessário, e neste processo todo de desconstrução deixar de ser a “menina cândida” que meu ex-parceiro queria me fazer crer que eu devia ser, e me tornar uma mulher negra. Esta mulher que ele já enxergava – na época eu nunca havia me pensado enquanto negra, não me reconhecia, por todo aquele lance da mestiçagem, sempre me considerei morena – porém, ele, homem branco, fazia questão de me chamar por “nega”, “neguinha”, “negona”, ele sabia a quem estava se referindo.

Falsa abolição

Me incentivou a deixar o cabelo natural, sim, mas sempre numa via de me ridicularizar porque eu fazia chapinha, até que me deixou sentindo tão mal com aquilo – eu já me sentia, porque na escola todos me viam como motivo de chacota pelo meu cabelo crespo e volumoso, e quando comecei a alisar me sentia ridícula também porque todos viam que não era natural – resolvi então (em meio a tanta imposição nem sabia direito qual foi minha real participação nisso) cortar o cabelo e fazer a transição. De qualquer forma fui gostando do resultado, aprendi a ver a beleza do meu cabelo, que também representa minha identidade e hoje o amo. Porém, sentia que este, que aos poucos queria ocupar um papel de mentor, ou senhor, na minha vida, não tinha o desejo real de me empoderar. Através de diversas atitudes e declarações percebia que ele queria que as pessoas me achassem feia, que eu estivesse sempre com roupas simples, básicas, largas, até um pouco relaxadas, pálidas, chegando a um dia me dizer que eu não devia usar cores fortes ou muito coloridas, porque só ficavam bem em brancas.

(Na verdade durante todo o período em que estive com ele, nunca fui incentivada a tratar dos meus cachos pra ficarem hidratados, definidos ou coisa do tipo, ele controlava meu corte de cabelo, com cortes e penteados que ele me fazia crer que eram descolados, mas na verdade nem sempre me sentia à vontade em usá-los, o quanto mais pudesse provocar meu frizz, mais parecia que ele gostava, e hoje, sabendo que sua ótica era a do preconceito, vejo isso ou como uma tentativa de me tornar menos atraente, meu cabelo na verdade era pra afastar as pessoas, quanto mais volumoso e crespo, mais feio (racismo detected!) ou porque isso me deixava mais negra, logo, um traço de exotização, já que a via nunca foi a do empoderamento.)

Cativa

A dominação psicológica foi então se intensificando, ao passo que eu pensava que por ele ser um estudante de uma universidade pública, de repente até por ser um branco, padrão de beleza europeu e quisesse se relacionar comigo era um grande feito pra mim, era mais do que eu podia imaginar, já que sempre fui a preterida. Mas espera lá, ele até topou se relacionar comigo, mas desde já demostrando qual seria o meu lugar na vida dele: a menina inferior intelectualmente, (quando o conheci cursava o Ensino Médio e ele estava no início da faculdade), a que veio da periferia (ele também veio), a que não era “imaculada” (ele também não era nem um pouco virgem e perdeu a virgindade muito mais cedo do que eu), a que não era bonita, nem ágil, nem útil. Eu poderia desfrutar de sua presença, não do seu amor.

Minha autoestima já não era nenhuma maravilha, por toda a rejeição que já havia sofrido na escola e na vizinhança durante a infância e adolescência, então, acreditar que todas aquelas coisas que ele dizia pra me inferiorizar eram verdade, não foi difícil.

Uma vez (im)posto meu lugar, eu devia me esforçar muito para mantê-lo. Então sempre me rondava a insegurança, e enquanto indivíduos que se relacionavam nossas conversas nunca estavam num âmbito de debate, do diálogo, mas da aprendizagem (não-mútua), da doutrinação, do amestramento. E ele foi se tornando cada vez mais exigente, e com o passar do tempo, começou a achar que eu precisava/merecia ser castigada, punida de alguma forma para aprender a fazer as coisas direito, ou seja, senão fizesse as coisas como ele esperava/desejava. Nos motivos inclua: banalidades. Que pra ele era por eu ser desestrada, burra, lerda, incapaz (como se eu devesse aquela presteza, aquele serviço a ele) ou puta, como sempre fui, (ele sempre denegria meu passado, querendo criar um comparativo que depois que o encontrei ele estava me endireitando e minha vida ficando melhor, eu me tornando digna), por dar risada de algo que outrem e não ele falava. E sempre me fazendo crer que eu merecia ser castigada, a culpa era sempre minha. Os castigos começaram com ameaças de me deixar, ficar sem me ver, ficar com outras meninas na minha frente, até que chegou à agressão física. E quando chegou aí, percebi o quão meu corpo não estava me pertencendo, o que estava sendo feito dele, maculado e desfrutado. Eu não me pertencia mais.

O que era exigido de mim, enquanto mulher, era que fosse a mulher sempre o esperando, satisfeita por o esperar, bem comportada, resguardada, coberta, casta, pura, pálida, cândida, anulada, uma mulher em branco. Desejava que eu fosse a donzela romântica europeia, mas reforçava minha negritude na hora de receber a mácula e a penintência.

O tempo foi passando e ele virou de fato um senhor em minha vida, queria ser idolatrado e servido, e a relação instituída era a de servidão: cativeiro, sujeição, dependência. Ou seja, eu não podia me relacionar com outras pessoas, pois nenhuma delas estavam a seus pés, e além disso, ele sabia que o contato com outrem me faria perceber que suas atitudes eram no mínimo repreensíveis. Esse “não podia” se deve ao fato de que tudo o que fosse fazer, precisava prestar contas e pedir permissão, precisava de sua aprovação, minha mente estava escravizada. Me fazia crer que não seria capaz de tocar minha vida adiante sem ele, e dava exemplo de outras mulheres, e sempre que falava bem delas era pra mostrar como eram melhores do que eu, ou como exemplo de mau exemplo, como eram putas e isso era condenável na sua cabeça misógina e moralista, então eu devia ser diferentes de todas, de todas as que eram livres. Tornei-me uma mulher submissa sem querer.

O tempo foi passando, e cada vez ia me adaptando a nova opressão que surgia e novos medos iam surgindo, sempre achando que devia me esforçar muito pra manter o relacionamento, e ele sempre dizendo que eu fazia tudo errado. Hoje percebo com plena lucidez, que pra ele se impunha uma CLARA delimitação: o que era negro era ruim, o que era branco era bom. Declarações evidentemente racistas (machistas e homofóbicas) pululavam de sua boca como se tivesse o aval para dizê-las com alguém de sua intimidade, relacionava a dança africana com “movimentos bestiais”, e queria que eu voltasse a dançar balé, cada vez querendo desumanizar mais os negros e embranquecer meu pensamento, anulá-lo, ao passo que me mantinha cativa. Outra vez “brincou” que ensinaria seus filhos a simularem espanto, susto e horror ao se depararem com um negro, “porque sabe como é, como controlar uma criança?” Essas coisas me deixavam abismada e soavam tão cruéis que ecoam até hoje na minha memória, mas não sabia como rebater.

Grande amor

Ele tinha amigos negros, vários até, transava com negras, até uma namorada negra (negra?) ele tinha, porém nem fazia muita questão de esconder sua não vontade em me apresentar pras pessoas como sua namorada, só o fez com mais conforto quando finalmente consegui ingressar na universidade. E um dia vomitou a declaração que mais me causou desconforto: “parece que eu não gosto dos negros, mas na verdade eu tenho um grande amor por eles”. [ … ] Eu não entendia aquilo, como assim grande amor? Que amor era aquele? Seria o mesmo amor que depois de muito tempo ele disse sentir por mim? Como você ama quem reconhece que demonstra odiar? E nem mesmo velado era. Nessa frase vejo a personificação do senhor de engenho, que ama seus negros, ama tê-los, ama exotificar, ama se apropriar, ama açoitar, ama pra fazer o que bem entende, ama sua servidão.

Que futuro um racista que rouba meu passado poderia me dar? – penso hoje.

As outras que são as mesmas que eu

A relação deste indivíduo com outras mulheres negras, também sempre foi problemática. Sim, eu falo de traições, porque a mulher negra também não merece exclusividade – e claro, que a elegida para se apresentar como namorada, (isso só aconteceu depois de um bom tempo) deve ser a que passa por morena, a que ele adorava ver a palidez quando não tomava sol – e sempre buscava nelas algo que pudessem oferecer, tinham que servir pra algo: o servir.

Até que o tempo continuou passando, e eu passada fui apenas aceitando, pois não possuía mais voz e sim todos os medos. E então, este que cobrava tanto minha castidade propôs relacionamento aberto, no inicío fiquei em choque, mas ele foi me convencendo queria seria uma experiência interessante, até que quando o relacionamento se instaurou, rapidamente ele criou um mal estar entre mim e a outra companheira, e assim fechou-se que só ele teria liberdade. E sempre foi assim.

Dois pesos e duas medidas: era assim que a coisa acontecia, eu com todo meu esforço para me comportar nos seus moldes acabei me tornando a menina cândida, a digna de casar, porém, nunca digna de exclusividade, pois existiam as outras, para tudo aquilo que eu não devia ser e não servia.

Este relacionamento extremamente abusivo acabou, felizmente, pra minha sobrevivência. Percebi que toda aquela carga que se exigia de mim, não era minha, eu não era obrigada a nada, nem mesmo a ser grata por uma benfeitoria ou outra, que no fim só tinha o intuito de me comprar, de vender uma propaganda falsa de amor romântico, envolto de uma moral branca cristã, que desde sempre inquire, oprime e mata mulheres. Um amor meritocrático, imposto por alguém que se dizia libertário, apoiado por seus privilégios de homem-branco-hétero-universitário.

Escrever este texto faz parte desse processo de desconstrução que começou lá atrás. E que faz parte do resgate da minha humanidade, e para encontrar minha identidade, descobri que precisava antes de tudo: existir. Deixei de me anular, fui recobrando a cor, a vida, a liberdade de ser e estar, pois amar não deve ser um sacrifício, e viver sem voz é não existir. E para escurecer a questão: não passarei em branco.