Gostaria de dividir um pouco da minha história com vocês.

Sou filha do coração de uma família de imigrantes alemães. Cresci vendo a cara de surpresa das pessoas quando viam a sopa de consoantes que é meu sobrenome.

Eu vim rompendo barreiras desde pequenina. Meu avô, não gostava de preto até me pegar no colo, ouvi dizer. Meus avós foram os melhores do mundo e eu fui coberta de mimos de neta mais nova até eles irem morar no céu. De alguns irmãos do vovô, quero distância. Sempre me trataram como menos. Era a schwarz (preto em alemão), filha do Francisco, pra eles, eu não tinha nome e não merecia carregar o deles. Doeu ao ver o tio do meu pai virar a cara pra nós quando ele foi me apresentar. Tinha 3 anos, nunca me esqueci dessa cena, e a partir desse dia, o vovô cortou relação com 2 de seus irmãos.

Tive poucas referências negras quando criança. Fui adotada logo com 2 dias de vida e minha família é toda loira de olhos claros pra onde quer que minha árvore genealógica aponte. Sempre estudei em colégios particulares, e nos anos 90 era mais difícil que hoje ver negros por lá, a menos claro, o pessoal da limpeza. Na inocência de menina, queria ser igual a minha mãe, loira com os olhos bem verdinhos. Logo vi que isso não ia dar muito certo…
Percebi que era “diferente” muito cedo. Não era parecida com meus pais (a não ser no gênio), não via negros na TV, não via negros nos ambientes que eu frequentava fazendo as mesmas coisas que eu e sim, sofri discriminação desde criança.

Ser a única negra no colégio caro, a única negra no clube, nas aulas de natação, piano… Pra mim já era normal. Sempre percebia os olhares dos outros com aquele tom de “o que você está fazendo aqui?”. Quando era discriminada, fingia que não me importava, mas lá no fundo eu não entendia porquê tudo aquilo acontecia comigo. Às vezes eu me sentia meio deslocada nas reuniões de família no meio daqueles brancos todos. Eu era parte daquilo, mas não me achava ali.

Tomei consciência da minha negritude com mais ou menos 10 anos, quando já era grandinha o suficiente pra tentar responder à altura quem me desrespeitasse pela minha cor. Meu pai me ensinou a nunca abaixar a cabeça, e por conta disso foi chamado algumas vezes na escola, porque eu, “alemoazinha” geniosa, nunca levei desaforo pra casa.
Lembro também de não ter bonecas parecidas comigo pra brincar. Eram todas loirinhas, dos olhos azuis, mas eu já sabia que se tivesse um filho ele não seria assim. A primeira vez que vi uma boneca negrinha, já estava com 15 anos. Nem por isso deixei de comprar uma. A menina foi crescendo, virando uma negona bocuda, metida, como ouvi muita gente me chamar nessa vida.

Há gente que diga que eu não sou negra. Oi? Não é porque meus pais tiveram condições de me dar estudos, cursos e outras coisas mais que eu embranqueci. Talvez não tenha sofrido tanto preconceito como meus outros irmãos sofreram e ainda sofrem, mas nem por isso minha vida passou “em branca nuvem”. Eu não preciso dizer, quem olha pra mim vê. É difícil escapar de discriminação sendo mulher, preta e gorda, tudo ao mesmo tempo. Por uma coisa vão tentar te taxar, te ridicularizar… Mas quer saber, eu não tô nem aí. Eu sou LINDA. Isso eu aprendi. As piadinhas já não me afetam mais. A pretinha fala 3 idiomas, é “estudada”, toca instrumentos musicais e até canta. Ninguém mais me põe pra baixo.

Nunca fiquei quieta pra ninguém. Já saí de loja batendo o pé porque as vendedoras não me atendiam, já discuti com desconhecidos que achavam que eu era babá dos meus priminhos com cara de anjo de presépio, já mandei muita gente pra aquele lugar por achar que eu era empregada nos condomínios onde morei, ou na casa de alguns tios meus. Mas eu prefiro essa gente que joga na minha cara que acha que o “lugar bom” não é meu. Os piores são aqueles que me chamam de “morena”, que me perguntam porque eu não faço uma progressiva pra abaixar o meu cabelo rebelde. Piores ainda são os que nos vêem e acham que é só uma bunda bonita que sabe sambar. Que perguntam na maior cara de pau se as negras são mais “quentes”. Esses são bem piores.

Nesses poucos anos que eu vivi, tenho só que agradecer aos meus pais, à toda a minha família por darem o suporte que eu precisei. Por me ensinarem que eu não sou menos que ninguém, que não sou objeto de ninguém. À minha mãe por nunca alisar o meu cabelo e me ensinar a gostar de mim como sou. Eu não sou morena, não. Eu sou preta.

Imagem de destaque – reprodução web