Blogueiras Negras tem o prazer de publicar a primeira parte da entrevista com a Professora Ellen de Lima Souza, ex-coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade Zumbi dos Palmares e com Ana Marta Oliveira do Nascimento, aluna da mesma instituição. Essa entrevista está relacionada ao afastamento da primeira de seu cargo em função do posicionamento expresso numa nota de repúdio contra o convite feito à Miguel Falabella para debater a série Sexo e as nega e também à entrevista concedida pelo diretor José Vicente à Afropress, quando foram manifestas críticas que consideramos problemáticas. Agradecemos à disponibilidade de ambas em nos conceder a oportunidade de entrevistá-las, assim como às colaboradoras Aline Djokic, Aline Silva, Gabi Porfírio e Charô Nunes.

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Charô Nunes – É um prazer conversar com vocês duas sobre um assunto que nos é tão caro. Vocês poderiam começar se apresentando para as nossas leitoras?

Ellen de Lima Souza – Meu nome é Ellen de Lima Souza, me formei pela Unesp de Marília e foi com a única única professora negra dessa instituição que eu comecei a compreender diversas relações, me entender enquanto mulher negra na universidade. Isso foi muito importante para minha carreira, me tornar uma ativista orgãnica do movimento negro. Fiz o curso de pedagogia na Unesp e posteriormente segui para o mestrado na Ufscar e é nessa mesma instituição onde estou concluindo meu doutoramento Atuei em diversas instituições negras sempre nessa situação mais voltada à pesquisa seja o NEAB Ufscar, o Ceert. Diante disso, sempre pleteei trabalhar com educação e superação das desigualdades raciais, sempre na perspectiva de uma educação igualitária. Isso foi que sempre almejei.

Ana Marta Oliveira do Nascimento – Sou estudante de pedagogia, na Faculdade Zumbi dos Palmares e minha formação é em arte-educação e tenho formação em algumas ONGS voltadas para a educação. Faço parte de um bloco de mulheres negras e minha militância começa a partir de então, com essas mulheres. E eu acredito numa educação igualitária, uma educação que inclua. E o pensamento dessa igualdade tem de ser independente de sexo, seja masculino ou feminino . Trabalho numa ONG com educação, desenvolvendo projeto de cultura e arte-negra.

Gabi Porfírio – Ellen, no Brasil, chamamos reitor o dirigente máximo de uma instituição de ensino – uma Universidade, por exemplo. José Vicente, ainda que ocupando o cargo maior da Faculdade Zumbi do Palmares, não deveria – no máximo – ser tratado como Diretor Geral? A nomeação de José Vicente como reitor da faculdade Zumbi dos Palmares partiu de que representante do Poder Executivo?

Ellen de Lima Souza – Realmente o ponto de vista da educação, vocês tem completa razão. O reitor é aquele que é de uma universidade que é diferente de uma faculdade e a Zumbi é faculdade. Mesmo sendo uma universidade, ele precisaria ser nomeado por uma autoridade do estado, no caso das federais pela presidência, no caso das estaduais justamente pelo governo do estado. Então isso não ocorre, não tenho conhecimento de alguém tê-lo entitulado como reitor. Mas, me parece que ele sempre tomou essa conduta e essa postura para fortalecer a questão negra dentro da própria instituição. Mas hoje nos temos muito que nos orgulhar pois temos uma reitora negra, que é a professora Nilma Lino Gomes da Unilab. Então é preciso destacar que do ponto de vista jurídico, ele é diretor e não reitor.

Ana Marta Oliveira do Nascimento – Do ponto de vista de aluna, a gente só toma conhecimento desse posicionamento do reitor, quando a gente começa a se apropriar do curso de pedagogia. Desde que a gente entra na faculdade, ele é apresentado para todos os alunos como reitor.

Gabi Porfírio – José Vicente, ao criticar que as mulheres negras que lutam contra o sexismo de um lado só, prescreve como deve ser o feminismo da mulher negra. Entretanto, interessa-nos tão somente a opinião da mulher negra sobre seu feminismo. Pra você, como deve ser e em que deve se pautar o feminismo negro?

Ana Marta Oliveira do Nascimento – Eu penso que a colocação da mulher negra na sociedade, a luta do feminismo negro, é simplesmente pelo direito de existir. Quando eu fui para a Faculdade Zumbi dos Palmares, eu fui pensando em uma parceria na verdade, onde mulheres e homens negros, principalmente homens negros fossem parceiros da gente nessa luta nesse sentido. O feminismo da mulher branca, por exemplo, luta pelo direito ao voto. E a mulher negra ela luta pelo direito ao voto e pelo direito à visibilidade.

Charô Nunes – Como foi construída a nota de repúdio contra a presença de Miguel Falabella na faculdade Zumbi dos Palmares e porque o curso de Pedagogia entendeu que era importante se manifestar?

Ellen de Lima Souza – A nota foi construída coletivamente, inclusive fui indagada pelas alunas, na qualidade de coordenadora – como assim, nós discordamos disso, como é que a instituição pode chamar o Miguel Falabella? Então as alunas questionaram a coordenação que por minha vez, fui questionar a direção. Não obtendo resposta, construímos coletivamente, docentes e discentes, a nota de repúdio na perspectiva de nos posicionarmos consideramos que somos maioria de mulheres negras, inclusive no quadro docente até aquele momento. Entendemos que isso seria importante, por isso a construção da nota aconteceu dessa forma. Depois houve a leitura da nota numa assembléia do curso de pedagogia, onde todos foram unânimes, docentes e discentes presentes, todos votaram à favor do texto que foi publicado e que vocês tem conhecimento.

Ana Marta Oliveira do Nascimento – O nosso movimento começou a partir da propaganda do programa, quando as pessoas começaram a postar fotos que o Sexo e as Nega não nos representa e nós aderimos a essa campanha. Inclusive eu e algumas meninas da minha turma nos fotografamos e postamos no facebook. Então, nossa indignação começou a partir daí. Logo em seguida a gente recebeu a notícia de que o Falabella iria ao Troféu da Raça Negra e depois participaria da feira Flink. Então nossa indignação foi ao quadrado, então fomos questionar a coordenação e juntas começamos a pensar qual o movimento que poderíamos tomar naquele espaço para dizer que não concordamos coma situação. E foi a partir daí que a gente construi essa nota de repúdio.

Do livro da Professora da Universidade de Tulane, Melissa Harris-Perry „Sister Citizen – Shame, Stereotypes and Black Women in America :

„As preocupações das mulheres negras são ignoradas e suas vozes silenciadas em nome da manutenção de uma conversa racional e saudável. A raiva delas não é compreendida como uma realidade psicológica, mas é vista através das lentes de uma ideologia que distorce as experiências vividas por essas mulheres negras. O estereótipo da „mulher negra raivosa“ são um fardo para nossas irmãs, que tem a impressão de não poderem ser convincentes ou enfáticas, enquanto defendem seus interesses em público, pois suas emoções e engajamento são erroneamente compreendidas como irracionais.“

Charô Nunes – Ellen, no seu entendimento, o que significa e qual a gravidade de se dizer que a crítica de mulheres negras é apenas “emocionalismo muito exarcebado”? Podemos entender como a recusa em acreditar que uma mulher é capaz de tecer uma análise apurada, perspicaz e concreta da realidade que diz respeito a si mesma?

Ellen de Lima Souza – Acho esse discurso muito complexo e me espantou ao ler a entrevista mencionada da Afropress porque de forma nenhuma essa construção foi pautada em emocionalismo, ao contrário, foi pautada no conhecimento que nós constrúimos juntos e nas leituras que nós pudemos ter sobre a mulher negra e sua realidade. Afinal de contas, porque é que a gente vai pra sala de aula, vai para a educação e repensa essas situações? Elas são situações pensadas não do ponto de vista emocional mas calcadas inclusive em dados que vão mostrar como é desqualificada em nossa sociedade, continua ganhando menos, sendo mal atendida, recebendo menos anestesia.

Essas pesquisas estão à disposição de todos, para quem quiser ver. Inclusive jornais de grande circulação publicaram relações desse tipo. Então me surpreende e é importante ressaltar que nossa reação não foi emocionalismo, ao contrário. Foi uma conduta de reflexão árdua que fizemos coletivamente. E destacar também que os homens do curso de pedagogia, embora sejam homens um número de menor expressão em relação às mulheres, participaram e ficaram tão indignados quanto nós. Se algum momento vocês tiverem a oportunidade de conversar com os homens que fazem o curso de pedagogia, vocês vão perceber que os negros e não negros estavam absurdamente indignados e foi isso que a nota quis mostrar, unanimemente um curso refletindo sobre a situação da mulher negra na sociedade.

Ana Marta Oliveira do Nascimento – Acho que foi uma colocação equivocada por parte do diretor da Faculdade Zumbi dos Palmares porque se a gente está dentro de um espaço de educação, você precisa ter a consciência e conhecimento do processo histórico, conhecimento da História. Como a professora Ellen disse, existe dados que comprovam a situação e a existência da mulher negra na sociedade. A partir do momento em que ela começa a dizer não à situações em que somos colocadas e as pessoas, ou no caso específico uma pessoa, começa a fazer uma leitura errada desse movimento, para mim é falta de conhecimento e de entendimento do processo histórico.

Gabi Porfírio – A entrevista é assinada apenas pela redação da Afropress. Desconfio – por motivos que não cabem aqui desenvolver – que não tenha sido uma mulher negra a conduzí-la. Partindo dessa suposição (que é apenas uma suposição mesmo), temos então dois homens chamando a todas as mulheres negras que se posicionaram contra o seriado de fundamentalistas, xiitas, patrulheiras, radicais, racistas ao contrário, fazendo comparações infantis e levianas das manifestações críticas com a ditadura da Coreia do Norte e o movimento fundamentalista islâmico do Talibã. Qual é a sua opinião sobre homens que desenvolvem suas argumentações sobre o posicionamento de mulheres negras apelando, para tanto, para o suposto exagero, para a suposta desmesura com que essas mulheres defendem seus ideiais?

Ellen de Lima Souza – Eu acho ainda que isso de jogar a discussão para o campo das emoções empobrece a luta histórica e árdua que o movimento negro fez ao longo dos séculos porque justamente nós lutamos para tirar isso dos campos das emoções e levar para o campo das políticas. ENtão não simplesmente não gostar por não gostar, um capricho das mulheres negras. Ao contrário. É luta, resistência e reflexão, baseada em autores, textos históricos, levantamentos que estão á disposição de todos, inclusive no site do do próprio governo federal onde as pessoas encontram esse material e podem fazer uma análise crítica. É isso que alunos vem fazendo, é isso que o curso da pedagogia fez.

Na minha opinião, essa leitura é equivocada e até um pouco grosseira em relação ao movimento de mulheres negras porque quem repudia e fala não à ideologia que vai compor o seriado, que é uma ideologia machista, racista, somos as mulheres negras do país inteiro. E é por isso que vocês estão aqui hoje, parceiras. Nossa luta é por algo muito maior que uma posição radical. Se for pra ser radical pelos nossos direitos, seremos. Mas não é o caso. Estamos apenas exigindo os nossos direitos. E mais que isso, estamos nos colocando contrárias. Então me estranha a não aceitação de de nosso repúdio, a a não aceitação de nos posicionarmos contrárias frente a uma manifestação de racismo e machismo ideologicamente projetada na Rede Globo de Televisão.

Então, nos temos o direito de nos manifestar enquanto mulheres negras. E enquanto educadoras negras nós temos a obrigação de nos posicionar porque eu sempre coloco que a psoição de professor é pública. Mais do que nunca, devido à nossa posição, nós precisávamos nos manifestar enquanto mulheres negras, professoras negras e foi isso que foi feito. Agora, em um país democrático o posicionamento de mulheres negras é fundamentalista, isso mostra que esse país não é tão democrático assim. Isso mostra que o racismo e o machismo estão impregnados em todos os espaços, inclusive num espaço que deveria ser de resistência como uma faculdade que leva o nome do maior símbolo do movimento negro no páis. Justamente esse espaço de resistência que nós entendemos que deveria fazer a crítica também junto com todo o movimento negro nacional, movimento de mulheres negras nacional. E é por isso que estamos aqui nessa manhã conversando, afinal de contas isso não foi o posicionamento radical de uma pessoa, de uma coordenadora ou de algumas alunas. Isso é um posicionamento quase que unânime no movimento de mulheres negras no país.

Imagem de destaque – Desligue o racismo, assuma o controle.