No dia 20 de outubro de 2014, a bordo do navio da companhia Bom Jesus, no percurso Breves-Belém, eu estava bebendo e participando de uma brincadeira chamada “jogo da verdade” junto com outros integrantes de uma viagem de campo feita ao Marajó.

Em certa altura do jogo, fui questionada por um rapaz: “se não houvesse homens negros, brancos e pardos teriam chance?”. Respondi que homens brancos não teriam chance, mas que homens pardos sim, ainda respondendo a pergunta nomeei cada homem branco presente na roda reafirmando que nenhum deles me interessaria, da mesma forma nomeei os pardos e negros presentes que me interessariam.

Ao final de minha resposta, um professor doutor do curso de cinema da Universidade Federal do Pará, disse: “me senti discriminado”. Eu respondi e afirmei que racismo reverso não existe. Quando terminei minha resposta ele se dirigiu a mim em tom de voz bastante agressivo e entre as afirmações que consigo recorder, ele disse: “o que você sabe sobre o mundo pra afirmar que racismo reverso não existe?”; “quem você pensa que é nessa sua vidinha de paraensezinha de merda, nessa sua experiência Belém-São Paulo pra dizer alguma coisa?”; “eu viajei para vários países, conheço muitos lugares, eu sim posso afirmar se existe ou não racismo reverso, não você”; “agora você se ferrou porque achou alguém…”, antes do rapaz finalizar a frase, uma senhora disse: “agora ela achou um macho…” e ele continuou: “agora você achou um cabra muito macho, sua nega”.

Por não tolerar racismo, reagi derramando minha cerveja sobre sua cabeça (e tive que ouvir de muitas pessoas que eu o agredi primeiro). Ele imediatamente me agarrou pelo braço direito, passou o braço pelo meu pescoço, me aproximou do chão e me apertando sufocando, me derramou cerveja. Ninguém do grupo reagiu. Foi então que eu gritei: “Vocês não vão fazer nada? Ele está me sufocando!”. Neste momento as pessoas correram em nossa direção e me tiraram do braço dele. Ainda gritando, ele me chamou de racista e eu devolvi a ofensa, entre outras coisas.

Fui mantida em um andar diferente dele no navio por algum tempo, até que fosse possível me dirigir ao camarote, pois ele ainda vociferou ofensas por algum tempo.

Esse é um resumo, é até onde consigo relatar em escrita. Ouvi muitas outras manifestações racistas e machistas das pessoas que testemunharam o episódio.

 

Cheguei em Belém na manhã do dia 21 de outubro. Não o encontrei mais, mas ouvi muitas histórias das demais pessoas do grupo. Como me senti? Sinto fortes dores no pescoço até hoje, acordo no meio da madrugada ouvindo os gritos dele. Temo que esse meu relato repercuta de forma a me prejudicar fisicamente, mas é impossível silenciar um episódio tão aterrorizante.

Tenho me perguntado: o que este rapaz veio fazer na Amazônia? Quantas outras pessoas com posicionamentos diferentes ele ainda irá agredir entre nós? Quantas destas pessoas serão obrigadas a silenciar uma agressão vinda dele?

Estou com medo.

Imagem de destaque – mariapreta.org