Foi uma lição o dia de hoje! Quanto mais eu penso nas coisas que ouvi, mais me inquieto em relação ao que eu vejo no espelho lá de casa. A coragem de estar fora dos padrões e viver sem culpas por isso é coisa pra poucos e pelo que reparei não tem sido coisa pra mim.

Hoje redescobri pessoas que transgrediram a tal ponto de não se permitir mais a dor e também não permitir que o mundo as fizesse olhar para si com acusações fundamentadas em papeis sociais, pessoas que são LIVRES E FELIZES COM PLENITUDE exatamente porque transgrediram as leis, as convenções e principalmente as outras pessoas.

Nesse momento em que reflito sobre como me vejo, penso em exposição e no quanto pra mim isso é difícil, não me sinto a vontade sabendo que as pessoas me vêem e a partir daí podem fazer seus próprios julgamentos. Falando com minha mãe, ela disse que atraio para mim os mesmos olhares que eu tenho sobre mim. Olhos de águia, em alerta sempre, armada para todas as coisas e eles são recriminadores, da minha postura, da minha opinião, dos meus olhares…

Em algum lugar da bíblia está escrito que “onde está seu tesouro também estará seu coração”. Hoje enxerguei que o coração de algumas pessoas está no AMOR e tão somente lá. Invejo. Meu coração está em muitos lugares, mas nunca está só, tem sempre alguém a acompanhá-lo como a dúvida, o medo, a desconfiança, a reprovação…

Minha visão da vida é muito estreita, estreita no sentido reto, estreita em não me permitir errar ou tropeçar, não que tenha medo de cair, mas porque tenho medo de não levantar consumida pela culpa de ter errado ou pela responsabilidade de ter caído. Cansativo.

Talvez isso também se confunda com minha relação com Deus, com o “pecado”, com a religião. Às vezes choro e pergunto à Deus:

– Sim e aí tô aqui fazendo certinho, do jeito que você falou, porque isso, e aí? Ele respondeu:
– Eu não falei nada. Estou aqui de braços abertos. Se você não se perdoa e não crê que meu jugo é leve, só posso continuar orando para que isso aconteça logo.

O mais louco é que também fiz escolhas que fugiram do padrão hetero-cis-normativo: amei uma mulher perdidamente, casei com um ex-presidiário, pari e enfrento a solidão da maternidade.

O que nos distingui é que hoje vi pessoas que vivem “a dor e a delicia de ser quem são” com a maturidade de quem se aceita e assim aceita suas limitação e não se permite paralisar por elas e mais alimenta com o adubo do Amor as muitas possibilidades que suas potencialidades fazem brotar, enquanto eu to caminhando para isso, na luta árdua do dia a dia em me desconstruir dos meus pré – conceitos.

Eu não me culpo dos amores que vivi, mas sei que fiz escolhas em detrimento de manter certa sobriedade para muito além do meu coração. Ouvi certa feita que fizéssemos escolhas com as quais fossemos capazes de viver. Nos últimos tempos venho entendendo que de alguma forma não sou mais capaz de viver com as escolhas que venho fazendo, principalmente no que diz respeito ao que eu sou lá dentro de mim mesma (que pleonasmo).

E assim vou me colocando em situações que não me permitem voar com liberdade, ora no meu trabalho, ora com meus vizinhos, ora com meus amigos, ora com meu filho, desculpa perfeita para posturas perfeitas. É como se eu fosse colocando em volta de mim pequenas cerquinhas que me colocam a salvo não dos outros, mas de mim mesma.

Minha cria, esse é bicho livre, independente, feliz só porque tem a bicicleta do Ben 10 ou porque pode andar e correr na rua. Sem grandes brinquedos ou experiências fantásticas ou morangos silvestres. Comendo feijão com farinha, tomando tubaina e vez por outra com uma roupa nova, ele é feliz, simples assim.

Isso me fez refletir que não posso infringir a ele minha neurose, meu alto padrão de comportamento, às vezes acho que me dou valor demais.

Uma coisa é certa: a vida é muito curta pra gente perder tempo. Pequenas coisas podem ser coisas muito grandes e fazer toda diferença, a exemplo de andar sem camisa para homens trans ou de saia para mulheres trans ou ser chamado pelo nome social.

Ainda que tenha certeza de Maria e em como sendo Maria gostar de João, mas saber que o que me arrebata são Joanas e outras Marias, vivo procurando viver bem, com alguma dor e na mesma proporção agradecida por conseguir me esquadrinhar de tal forma que posso me desnudar e assim procurar caminhos menos complexos.

O seminário de ontem foi uma catarse de mim mesma. Ao amanhecer vou poder me ver de outro jeito, podendo me acreditar livre e despreocupada com outros olhares inclusive com o meu.

Tudo é um processo.

Com todo meu carinho e respeito.

T.

Imagem de destaque por Griô Produções – Vera Veronika, MC e professora, compõe o Coletivo Feminino – DF, é integrante da cultura Hip Hop desde 1992 e representante do Fórum de Hip Hop do DF e entorno. Em sua atuação, discute temas relacionados ao papel da mulher e a dimensão de gênero e raça no movimento hip hop, esteve presente no Seminário Mulher e Cultura, cuja palestra motivou esse texto.