Sou formada em comunicação social com ênfase em publicidade e propaganda. Me formei em 2009 e me lembro que um ano antes já estava pensando o que seria tema do meu trabalho de conclusão de curso (TCC). Me lembro que na época, eu poderia escolher entre um trabalho em grupo (que implicaria na construção de um plano de marketing e de comunicação para uma empresa real) ou um escrito individual.

Apesar de não entender aquilo direito, expliquei a uma professora que gostaria de escrever sobre a imagem do negro na publicidade. Ao que ela me disse “já tem um monte de trabalho empilhado aqui na biblioteca com esse tema. O seu vai ser mais um”. Depois disso e de avaliar que seria “mais fácil”, optei por realizar um trabalho em grupo.

Sempre estagiei na área e sempre fui apaixonada por atendimento. Os estágios me proporcionaram uma experiência incrível, mas até então eu não tinha me tornado negra.

A empresa júnior tinha me acolhido e me dado várias oportunidades e os estágios remunerados foram aparecendo aos poucos. Confesso que minha experiência como mulher negra por trás dos processos da publicidade só chegaria mais tarde.

Um dos meus primeiros choques na vida foi na entrevista para estágio numa grande agência em Salvador. Além de mim, 2 meninos e 1 menina (todos brancos) aguardavam na recepção que estava vazia. Aguardava a secretária voltar, quando ela me perguntou se eu tinha alguma coisa pra entregar. Respondi a ela que estava ali para a seleção de estagiária e ela prontamente sorriu e disse pensar que eu era alguém de coleta¹. Pra variar eu não fiquei nessa vaga, mas nunca tinha me passado pela cabeça que havia algo estranho nesse episódio.

Anos mais tarde eu ficaria perplexa ao perceber a quantidade de negros numa agência de grande porte em outro estado. E ficaria me perguntando várias vezes onde estariam os profissionais de comunicação negros ocupando os cargos de criação, mídia, produção e atendimento. Aliás, esse último profissional [a quem devo minha admiração e experiência em publicidade] lida com dois aspectos que eu considero dos mais importantes numa agência.

O primeiro deles é o contato com o cliente. O atendimento é aquela pessoa que estará o tempo inteiro por perto, conversando, apresentando as ideias, tomando cafezinho e conduzindo reuniões. Isso significa que o atendimento precisa estar sempre alinhado, arrumado e [a famigerada frase] ter boa aparência.

O segundo aspecto é que esse mesmo profissional precisa representar o cliente na agência e a agência no cliente, num movimento esquizofrênico de argumentar para um e para outro as ideias e opiniões acerca do que está sendo criado e será veiculado. É estar na defesa e no ataque ao mesmo tempo, precisando ser versátil e inteligente.

Isso posto, é importante perceber que o atendimento mais do que os outros profissionais precisa passar por essa avaliação de aparência e boa comunicação, que tem como base muito do que os donos da agência (sim, eles são os responsáveis pela contratação) pensam sobre padrões de aparência e afins. Esse profissional não será só avaliado pela competência em desenvolver o trabalho, mas principalmente por ser bonito, jovem, impecável, ou seja, fazer parte do padrão de beleza (padrão esse que a gente sabe que é branco cis e heteronormativo).

Essa é só a ponta do grande iceberg racista que pouco está derretendo nas agências de publicidade brasileiras. O atendimento é só um de muitos dos profissionais que são o reflexo do pensamento segregatório da comunicação nesse país.

Passando da sala de reunião e entrando pelos corredores, chegamos a criação. A sala do mistério e da criatividade é também o reduto da falta de referência ou podemos dizer do excesso de referência do mesmo: anuários fartos de propagandas com modelos padrão, clichês hipersexualizados e machismos exacerbados. As mentes dos moços e moças parecem impenetráveis e a ideia racista subliminar de que “preto não vende” nunca é rebatida nos brainstorms da vida.

Esses dois profissionais que atuam mais diretamente com o cliente – e suas ideias – são, como já disse, o reflexo de uma sociedade racista, preguiçosa e criadora de modelos ultrapassados. Não à toa, o atendimento só consegue interferir no que a criação faz se houver um pedido do cliente. À criação, cabe atender a essas expectativas de modo a não fugir da “imagem” da marca, que muitas das vezes significa a reprodução de todos os padrões e modelos repetidos ao longo da história daquele cliente.

E então, a pergunta que não quer calar: como mudar a mentalidade de agências e clientes? Como ultrapassar as barreiras dos modelos pre-concebidos?

Não há outra saída se não ocupar! Todas as vezes em que trabalhei em agências ou mesmo quando geri meu próprio negócio fui podada em algumas ideias, noutras tive sucesso. Não há como inserir a imagem do negro – seja ele na família, no comercial de pasta de dente ou mesmo no mês da Consciência Negra – sem ter um negro sentado na cadeira, criando, produzindo. Não é possivel desassociar a imagem da mulher negra a uma cerveja, ao carnaval ou aquele motel de nome inescrupuloso sem ter uma mulher negra na criação, no atendimento.

Só nosso olhar crítico, nossa audácia e criatividade podem oferecer uma nova possibilidade, uma nova imagem de nós mesmas. A publicidade, a comunicação precisa perceber que também somos consumidores (apesar desse discurso estar nas cadeiras das universidades há décadas) e precisamos nos identificar pra comprar. Já passou da hora das famílias pretas aparecerem na TV, nos jornais; dos jovens negros protagonizarem as propagandas dos vestibulares no início do ano; de termos mulheres negras nas sessões de mesa e banho das grandes redes de supermercado.

É triste perceber que ainda existem profissionais e agências que parecem alienadas e seguem reproduzindo discursos esdrúxulos, como a promoção de uma campanha para o Mês da Consciência Humana.

Ocupar é a solução? Não tão somente! É preciso dotar esses profissionais de senso crítico, fazê-los enxergar quem são e que espaço ocupam dentro da profissão e fora dela: será que você, preta que está na agência, já se enxergou em algum anúncio? Não tá na hora de questionar, propor, reivindicar?

Ou vocês acham bonito Angela Davis criticando: “se alguém que não conhece o Brasil, assistisse só TV, acharia que aqui só tem branco” – isso é mesmo bonito pra nossa cara?

Eu não sei o que passa pela cabeça embranquecida de vocês, mas é lamentável perceber que o racismo à brasileira é perceptível a quilômetros de distância.

Por isso, caros futuros colegas de profissão: escrevam sim sobre a imagem no negro na publicidade! Analisem o que tem mudado, o que melhorou, o que piorou. Usem as revistas, os jornais, os encartes de supermercados. Falem sobre nós e atualizem os anuários de criação com mais e mais caras pretas.

Se inspirem na vida real e façam briefings² dignos de profissionais comprometidos; criem peças inteligentes sem racismo, machismo ou qualquer ismo que o valha. Porque por trás de um grande job pode haver sim um monte de profissional porreta.

Imagem destacada:  Fanpage Negra Rosa

1.Profissional responsável por levar arquivos, papéis ou outros tipos de objetos da agência para empresas parceiras (que podem ser gráficas, veículos, jornais). Uma espécie de motoboy.                                                                                                                                                     2. Em português, significa resumo. É o documento criado pelo atendimento com as principais informações sobre o cliente, seu produto e a demanda para a criação da agência de publicidade.