Textos originalmente publicados no Facebook

Através do Coletivo Negro USP-RP tive acesso a uma cartilha de hinos da Batesão Bateria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) divulgada em uma palestra de Enfermagem de tema “violência contra a mulher” nesta semana.

Essa cartilha é de teor EXTREMAMENTE machista e racista, e esta sendo divulgada junto com o kit de matricula da Universidade para os alunos de medicina. Isso é INACEITÁVEL e INACEITÁVEL, isso é racismo e previsto em lei como crime, e enquanto não tiver uma resposta da Universidade é RACISMO INSTITUCIONAL TAMBÉM.

Nós, negrxs ao ingressar numa faculdade nos deparamos com uma desigualdade social e cultural sem tamanho que nos afeta diretamente, sabemos que dentro destas instituições ainda somos minorias, entretanto isso não nos abala, pois o que temos por direito vamos lutar e conquista. A mulher negra, através do sistema de cotas nas universidades vem protagonizando essas vagas e despertando ódio em muitos senhores e sinhás. Além da auto-estima abalada pelo social e cultural conflitamos diariamente com a diferença de gênero!

Não quero minha imagem vinculada com o sujo, NÃO SOU SUJA!
Não quero minha imagem vinculada na boca de quem tanto me humilhou historicamente, CHEGA!
Só queremos sermos negras e felizes, nos deixem em paz!
Vamos da visibilidade a esta cartilha, e nos unir contra eles. Já estamos pensando em um ato na Universidade (qnd tiver mais informações sobre o ato divulgarei tmb) e já esta sendo mobilizada uma carta de repúdio.

ACABOU O AMOR ISSO AQUI VAI VIRAR PALMARES !!!

“Para entender como a sociedade funciona, você deve entender a relação entre homens e mulheres.” Angela Davis

Nota de Repúdio à Batesão

O Coletivo Negro da USP-RP vem a público manifestar seu repúdio e indignação a respeito do cancioneiro da Batesão (Bateria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP) que apresenta letras misóginas e racistas. Mais uma vez a FMRP protagoniza um episódio lamentável de discriminação. Lamentável pra dizer o mínimo. O que está exposto no cancioneiro é um ataque, uma falta de respeito, um crime. Misoginia e racismo que se misturam de tal forma a agredir e desumanizar a mulher negra, reafirmando todo um histórico de inferiorização da mulher negra, por ser mulher e ainda negra ou negra e ainda mulher. A Batesão assume seu lugar de senhor de escravos, pega o chicote e violenta mais uma vez as mulheres negras, se não pelo estupro que nossas avós, bisavós sofreram por parte dos senhores e seus filhos, pela subjugação do nosso corpo negro.

Em primeiro lugar, o corpo de mulher nenhuma está aí a disposição do prazer masculino, essas mulheres devem ter a autonomia de seus corpos e não serem coagidas ao sexo, acabando por sofrer abuso sexual. O machismo sempre presente nas letras das canções entoadas a plenos pulmões pelas baterias e atléticas das faculdades, manifesta-se em versos de conotação sexual extremamente agressivos, que chegam a incitar a violência sexual.

As mulheres negras sempre foram alvo das mais diversas formas de discriminação, considerada pelo sociedade como um não ser. Completamente invísivel ao olhos da sociedade, a não ser quando nossos corpos são vendidos na vitrine do carnaval ao título de exóticos e à alcunha de mulata. Afora isso nosso corpo é ridicularizado, caricaturizado pela mídia e desprezado no imaginário torto dessa gente dita brasileira, como diria Ellen Oléria.

Nosso corpo negro não é objeto de consumo sexual ou mercadoria de carnaval, como querem afirmar alguns. Também não é abjeção como querem outros. É símbolo e instrumento de nossa luta e resistência.

A Batesão se antecipou e logo soltou sua retratação. Como se racismo se resolvesse com carta de retratação. Como se o massacre que a mulher negra sofre nesse sistema fosse aliviado com algumas palavras alegando desconhecimento do conteúdo do cancioneiro. Ainda temos que nos sujeitar a ler na tal carta onde os integrantes tem a cara de dizer que são engajados na luta contra discriminações, justificando que o mestre da bateria é negro e que eles adoram samba. Pois bem, o velho àlibi do amigo negro e do samba. Nossa, ter um mestre de bateria negro, realmente faz de vocês menos racistas e gostar de samba, aí sim, faz de vocês praticamente negros! Não venham com essa! Além de ser racista usar as poucas pessoas negras que vocês conhecem pra justificar o injustificável, ainda se utilizam de uma apropriação cultural como símbolo de boa convivência.

Não Batesão! Nós não queremos esclarecer a questão, queremos enegrece-la, queremos torná-la preta e forte, como nossos corpos. Corpos combativos que estão aqui para questionar esse padrão vigente, que estão aqui pra destruir essa misoginia e esse racismo tão presente e tão massacrante.

Nós, mulheres pretas, existimos e resistimos!

Racistas e machistas serão atropelados pelos nossos corpos negros!