Há quanto tempo faz que eu vi uma mulher negra andando escondida entre as várias pessoas, tentando ser não vista, tentando não chamar atenção e por isso sempre andando pelos cantos, olhando pro chão.

Infelizmente ainda vejo muitas mulheres negras sendo ofuscadas e amedrontadas pelas diversas violências diárias que ocorrem com muitas de nós. Mas vejo também várias mulheres negras empoderadas, erguendo suas cabeças e sendo vistas, por toda sua trajetória, seja qual tenha sido e seja, uma mulher negra empoderada em meio de outra ou outras mulheres negras, incomodando muitas pessoas nos espaços que circulam e ocupam.

Uma mulher negra empoderada incomoda tanto assim. É extremamente impossível compreender que a posição social de uma mulher negra seja equivalente ao homem branco. A mulher negra que é faxineira, e que é invisibilizada diariamente não incomoda, mas a mulher negra que trabalha no setor ao lado, que está em reuniões falando, que argumenta quando quer… Ah, essa mulher negra incomoda muito. E em grande maioria das vezes, esta mulher negra que trabalha como faxineira apenas não incomoda tanto assim por ser invisibilizada diariamente no seu local de trabalho.

Essa mulher negra empoderada não pode ser invisibilizada mais. E a mulher negra que é faxineira também incomodará, porque a voz dela tem lugar pra ser ouvida e ela ficará cada vez mais alta e não será mais invisibilizada pelas pessoas que se empenham para nos calar, nos rebaixar. A mulher negra faxineira possui cada vez mais possibilidade de encontrar com outras mulheres negras empoderadas, sejam elas faxineiras ou não.

Nós, mulheres negras, não vamos nos calar. Continuaremos ocupando espaços que nos são de direito. A mulher negra vai incomodar por ser ela mesma, por saber o que quer e por alcançar suas próprias metas individualmente.

Cada vez que vejo mais mulheres negras deixando de andar escondidas nos cantos, com a cabeça baixa, olhando para o chão. Tenho visto cada vez mais mulheres negras erguendo seus turbantes e conscientes de sua força e potência.

Quando empoderamento é discutido, não consigo não pensar nessa mulheres que antes se escondiam e tentavam não ser vistas e agora chamam atenção e incomodam privilegiados. Espalhar empoderamento ajuda a empoderar mais mulheres negras, assim todas seremos cada vez mais visíveis e protagonistas de nossas próprias vidas, dificultando essa facilidade que o homem branco tem de querer nos roubar nosso protagonismo, nossa trajetória e histórias. Vamos espalhar empoderamento para continuarmos incomodando todo o tipo de coxinha racista que encontrarmos pela frente.

A mulher negra faxineira tem toda minha gratidão e digo outra vez que a voz dela e de muitas outras mulheres negras terão potência, serão amplificadas pelo ativismo dessas mulheres negras já empoderadas.

Imagem destacada: UBM: seminário de empreendedorismo negro

  • Emy

    Minha família toda por parte de mãe (a única com quem convivi) é branca, sou a única negra. Eu sempre ouvi coisas que minhas primas, na mesma idade que eu, não chegaram a ouvir, porque são brancas. Esperavam tão pouco de mim que se surpreendiam quando alcançava alguma coisa por mérito próprio. Quando passei pra universidade pública, o choque deles foi tão grande que eu me sentia envergonhada, evitava as reuniões familiares pra não continuar ouvindo o “quem diria, né?” que nunca chegaram a dizer para as minhas primas. Sei que o incômodo existe na sociedade, mas crescer dentro de um ambiente em que fazem questão de dizer que você não é capaz todo santo dia é muito difícil. Eu vejo o reflexo disso em quem eu sou hoje, uma pessoa pela metade, talvez. Sinto que conseguiram tirar boa parte de mim.

    • Andrea Estevam Dias

      Querida Emy, o primeiro passo você já deu, perceber que não há problema algum em ser vitoriosa, siga em suas conquistas, aproxime-se de pessoas negras e engajadas, elas entenderam você e vão ajudá-la a empoderar-se…

    • Naiade

      Tb tenho parte da família branca…e vejo os olhares de surpresa por chegar ao mestrado. Já me fizeram sentir inferior por tempo demais , a partir do meio da graduação já não deixei que tirassem nd de mim, sou negra, mulher, pesquisadora, resisto ao racismo e machismo. Não sofra, brigue!!Força! Bjs

    • Giselli

      Força, companheira!!! Empodere-se cada vez mais.

  • Amei cada linha do post. Fico muito feliz por fazer parte das negras e blogueiras empoderadas e que a cada dia maos negras tornem-se empoderadas.

  • incrível parabéns mana !

  • francineide marques

    Eu de novo!

    Para dizer que procuro empoderar as minhas filhas, minhas sobrinhas, mulheres negras que estão perto de mim agindo assim:
    1º lugar na prova de conhecimentos para mestrado em educação da UFRPE em Recife!

    Ah, dizer também que amei esse blog e que me ajuda muito a refletir sobre as questões de nós, mulheres negras e tem me ajudado a enfrentar uma depressão terrível.

    Obrigada a vocês, blogueiras negras!

  • Vou deixar meu relato aqui, porque preciso desabafar com alguém, e creio que vocês irão me “ouvir” melhor que minha família.
    Sou “branca”. Minha família também. Acho que somos brancos, mas lá no passado claro que temos índios, negros, mulatos e europeus, tudo misturado.
    Enfim.
    Um dia a prima da minha mãe, uma senhora de 70 e poucos anos, estava falando mal de uma mulher da minha cidade, que ela está muito metida ultimamente, que ninguém está suportando ela. Pelo que entendi, a moça ficou metida porque entrou para a Academia de Letras da cidade. Até aí tudo bem, na minha cidade tá cheio de gente desse naipe.
    Mas aí ela continuou: “outro dia vi ela no salão, esticando aquele cabelinho ruim dela… tem cabelo ruim e fica nessa antipatia toda… ela pensa que é quem? Joaquim Barbosa?”
    Aí eu tentei inibir o racismo dela e falei: “uai, mas o cabelo e pele dela não tem nada a ver não, se ela tá antipática, o q tem a ver? se eu ganhar na mega sena amanhã, também vou ficar insuportável, não vou dar nem oi pra vcs, rs”
    Aí ela não se tocou e continuou: “pq esse povo (ela se referiu aos negros) quando ficam um pouquinho importantes, ficam muito metidos. não pode dar poder pra esse povo não!”
    Eu já fiquei com raiva e meti: “então negro não pode ter poder não?”
    Ela: “Não!!! Não pode não!”
    Nisso minha prima (que é médica) começa: “Fê, é sério, eles são diferentes, qd tem dinheiro ou poder eles ficam muito antipáticos!”
    Eu olhei pra minha mãe, ela tava me olhando com cara de “não perde seu tempo brigando não”.
    Gente, sério. Essa prima da minha mãe tem um neto adotivo, e o menininho é negro! Gente, o que ela vai falar pra ele no futuro? “Olha, você é negro, então você não pode ter poder, tá? Você não pode ser médico, tem que se contentar em ser o faxineiro do hospital. Você não pode ser advogado, pode ser no máximo segurança do fórum.”
    Eu tô horrorizada. Já tinha ouvido comentários racistas na minha família, mas nesse dia eu vi que eles (meus parentes) não tem salvação. Eu tô com muita raiva deles.

    • Mari

      Querida, muita gente ainda tem esse pensamento, a cor da pele não muda quem somos. Gente é gente e pronto! Isso independe da cor, cabelo, orientação sexual ou qualquer outra coisa. Apenas não se deixe infectar por esse pensamento arcaico dessas pessoas e nem deixe que seus filhos se infectem com isso. Existe um Deus no Céu que olha por nós é nem sabemos como é Sua real aparência, vai que Ele é negro…

  • francineide marques

    Concordo plenamente com a exposição da sister!
    Mulher negra empoderada incomoda e incomoda é muito, viu?
    Sinto e senti isso muitas vezes na vida. Mas, o bom mesmo é ver as caras d@s racistas se comendo por dentro quando precisam (porque não há mais como se furtar) admitir: essa negra é melhor do que eu em muitos talentos e habilidades.
    Rir da cara, na cara de @s racistas não dando a menor chance de que possam pensar que nós sabemos (e sabemos muito bem) quem somos, porque aqui estamos e de onde viemos é o que podemos chamar do uso da luva de pelica.
    Ah, e que não esqueçamos que o nosso empoderamento fortalece o empoderamento das mulheres negras que estão ao nosso redor.
    Juntas somos fortes!

    • Nênis Vieira

      O incômodo é gritante mesmo!
      Juntas vamos fazer cada vez mais essas pessoas engolirem o racismo delas!
      Obrigada por comentar, Francineide 🙂