O assassinato  pela PM do operário Robson Silveira da Luz e a proibição  de quatro meninos de frequentar o Clube de Regatas Tietê, à época um dos mais importantes de São Paulo, foram o estopim para que disséssemos “basta”. Há muito que estancávamos,  sozinhos,  o sangue jorrado  do corpo e da alma a herança da escravidão inacabada. Há muito que desejávamos nos rebelar.  Desmistificar o mito da democracia racial sem suavidade ou sorrisos de compreensão com o inimigo e sim com o sentimento de revolta dos abandonados a própria sorte.  Não tínhamos mais forças para minimizar  um único arranhão em nossas existências feridas. Éramos jovens, queríamos um Brasil mais negro e justo. Nossa paciência esgotara-se.  Há muito que desejávamos gritar, em praça pública, nossa indignação contra uma sociedade que violava nossa alegria de viver, nossa esperança em dias melhores negando os direitos básicos de um ser humano. Precisávamos mostrar que éramos gente.  Se ninguém estava enxergando, então um grupo de negros e negras destemido,  tomados  pelo espírito de Zumbi, retomaram a luta dos quilombos. Armados do desejo inadiável de respeito a sua identidade.  Sentindo-se  fortes,  movidos pelo milagre da união,  tomaram a praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, num final de tarde fria, em 7 de julho,  de 1978. Era o primeiro ato público contra a discriminação racial do país.

Homens e mulheres  iam chegando, saídos do trabalho, da escola, da favela, dos bairros, das entidades. Vinham para fazer história, para mudar a história do negro neste país. Éramos mais de mil. Lá estavam Abdias do Nascimento,  Lélia Gonzales,  Hamilton Cardoso,   Eduardo de Oliveira,  Milton Barbosa, os jornalistas Jamu Minka e Tânia Regina Pinto, o cineasta e antropólogo Celso Prudente, o promotor de Justiça Wilson Prudente e muitos outros simpatizantes da causa como eu.  Militante do movimento estudantil. Admiradora voraz do Movimento Negro americano via Panteras Negras do qual sorvi as águas até a última gota. Com ele, aprendi que a luta dos negros oriundos da diáspora  é também e, principalmente, do país que acorrentou  seus pés, mas não sua ideia de liberdade.

Naquela noite perturbadora, o coração batia forte.  As buzinas dos automóveis e o burburinho incansável das pessoas,  por conta do ineditismo do acontecimento, eram incapaz de acalmá-lo.  Paramos o trânsito, o centro da cidade.  Os presentes leram em coro, uma carta aberta chamando negros e negras a se organizarem  nos bairros, vilas, prisões, terreiros de candomblé, escolas de samba, igrejas, em todo lugar onde houvesse negros e negras, para dali atacar todo tipo de discriminação, formando um grande movimento unificado.  O acontecimento foi uma festa. Saímos dali, certos do passo importante que havíamos dado em direção a nossa emancipação. Unidos lemos em coro uma carta em que esperávamos contar com o apoio dos setores democráticos do país, criando assim as condições necessárias  para uma verdadeira democracia racial.

São Paulo assustou-se com a invasão programada dos quilombolas urbanos.  A metrópole, linha de frente na produção do progresso,  proibido aos filhos de Zumbi, em plena ditadura militar, parou perplexa.  Integrantes da policia civil, disfarçados de militantes misturavam-se  à multidão julgando-se invisíveis.  Estávamos atentos. Criamos esquema de segurança  para que ninguém do ato fosse preso, na noite dos  primeiros passos em direção aos direitos civis.

Os policiais babavam de vontade de bater, prender, expulsar da cidade aqueles  negros e negras que tiveram a audácia de usar as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para protestar contra a fome e a miséria frutos da discriminação racial ultrajante. Na noite de gala, os herdeiros dos escravocratas chegavam para  cumprir seu dever cultural, graças aos baixos salários, desemprego e má qualidade de vida que proporcionam aos trabalhadores negros e negras. Lá fora, os filhos da injustiça ousaram macular a festa  burguesa denunciando seus crimes. Rondando a noite reveladora, Zumbi orgulhou-se de seus descendentes!

Na edição de julho/agosto de 1978, o Versus, principal jornal de cultura e política do país para assuntos da América Latina e África,  publicou o seguinte texto de minha autoria. Com uma proposta ideológica de esquerda o Versus foi o primeiro jornal brasileiro a dedicar espaços para que jornalistas negros escrevessem sobre racismo, cultura, política e identidade. Ele também nos deu apoio intelectual e moral para que de sua sede surgissem ideias para a criação do Movimento Negro Unificado de 1978.

 

O SETE DE JULHO

Que data  é esta que já consideramos histórica?

Não falamos desta adormecida história oficial, escrita

para acalmar os espíritos,

Mas daquela que tem verdade, cheiro de terra e povo.

 

Sete de julho de 1978 tornou-se um dia histórico para todo o povo negro porque pela primeira vez, saímos à rua para protestar e denunciar o racismo existente neste país. O povo negro aqui chegou como escravo, mas encontrou formas de resistência para sair do cativeiro.

Combativo que é fugiu da exploração de seu senhor, na luta pela libertação em Palmares, criando uma sociedade nova. Fato este, como tanto outros,  ainda não devidamente esclarecido pela história oficial, numa tentativa de esconder do negro e da negra seu passado para que  não possam  exigir seu papel na sociedade.

Sabemos que os escravos e seus descendentes ajudaram e ainda ajudam a construir a riqueza deste país, dando-lhe também  toda a base de sustentação cultural. Nosso povo deu sangue nas diversas lutas internas e externa  para que o Brasil consolidasse sua independência política. Sabemos da participação maciça de negros na guerra do Paraguai, na guerra dos Canudos, na Inconfidência Mineira. Mas o que  recebemos como prêmio por tanta dedicação á pátria?

Recebemos a miséria, o desrespeito de parte  das autoridades e representantes  da classe dominante. Recebemos  o desconhecimento de nossos direitos de cidadãos, o desemprego, o subemprego, as piores moradias, o maior índice de doenças e mortalidade. O fantasma da escravidão ronda constantemente a vida do homem e da mulher negra. Muitas de nossas crianças estão sem estudar porque seus pais não têm condições de mandá-las à escola. A tuberculose e a verminose são as maiores responsáveis pela morte de negros. Doenças típicas de pessoas carentes de alimentação adequada.

Nossa juventude perambula pelas ruas sem trabalho e perspectiva de dias melhores. O roubo é a única solução para muitos jovens conseguir dinheiro. Este desafio ao sistema os leva aos reformatórios, onde estão em maior número. Quando saem de lá, caem nas cadeias, ou são simplesmente assassinados  pela polícia, preocupada em limpar as cidades do demônio social que julgam ser o negro.

Muitas de nossas mulheres, que deveriam estar construindo nossas famílias, formam longas fileiras nas zonas pobres de prostituição, fazendo desta escória uma maneira honesta de ganhar a vida.

Somos considerados cidadãos e cidadãs de segunda classe, mas no dia 7 de julho, em São Paulo, lemos unidos,  uma carta aberta à nação na qual dizíamos  não aceitar tal condição. Lutaríamos até a morte para mudá-la. Enquanto  pessoas bem vestidas e perfumadas entravam no Teatro Municipal de São Paulo para cumprir seu dever social, milhares de  negros abriam seu peito,  num grito sufocado  há anos, denunciando as péssimas condições em que viviam no país. Mais de mil negros, em sua maioria jovens, colocavam por terra a ideia da convivência  harmônica entre as duas raças. Denunciamos em praça pública o racismo covarde, do qual eram vítimas e os governos tentavam esconder.

Naquela noite, deixamos claro à sociedade brasileira que não nos calaríamos mais frente às constantes  violações  de nossos diretos. Atitude a qual estamos submetidos desde que pisamos nesta terra.  Desta vez,  eram mais de mil. Na próxima, triplicaríamos nosso número, pois sabíamos que somente unidos  encontraríamos forças  para construir uma sociedade mais justa.

OBS: Este texto foi escrito há 36 anos e  publicado no jornal Versus, edição julho/agosto de 1978. Versus foi  um dos mais importantes veículos alternativos da época, dedicado à política e cultura da América Latina e África.  Os jornalistas que participavam da seção Afro Latino América, criada por Versus, passaram a ocupar um importante espaço na história política e cultural do país, estando na origem das articulações da criação do Movimento Negro Unificado, surgido em 1978.  Eu, colocando em pauta a perversa discriminação da Mulher negra na sociedade brasileira.

O MNU conseguiu conquistas significativas após aquele momento revolucionário, mas ainda há muito por fazer. A luta pela emancipação de um povo é permanente. O repouso só virá com a vitória, por enquanto é necessário resistir ao racismo do cotidiano e continuar combatendo…combatendo…combatendo!

 

Imagem destacada: Revista de História