Em plena semana da consciência negra explode nas redes sociais vídeos de pessoas negras defendendo a tão criticada série “Sexo e as Negas”, veiculada pela Rede Globo de Televisão.

Não é a primeira vez que a comunidade negra sofre esse tipo de golpe da mídia oficial no mês de novembro. Em 2009 a emissora global colocou no ar a novela Viver a Vida, cuja protagonista Helena (de Manoel Carlos) era interpretada por Taís Araújo. A novela teve um desenrolar problemático cuja discussão passava pelas relações interraciais inclusive. O destaque mesmo fica para a cena do dia 16 de novembro, também semana da Consciência Negra, em que essa protagonista, mulher negra, se ajoelha diante de uma mulher branca para pedir perdão por algo que não tinha responsabilidade e recebe um tapa na cara como resposta. Será mero acaso? Ou seria uma insistência de, no período que escolhemos para destacar nossas mobilizações anti-racistas, a maior emissora de televisão do país nos mostrar quais são os lugares que essa sociedade branca e patriarcal designou para as mulheres negras?

O que fica explícito nesses vídeos é que foram arquitetados e ensaiados pelo autor da série, tanto é que todos  tem uma linha básica de discurso que se estrutura em dois pontos: a nossa suposta ignorância ao fazer uma crítica prévia à série e a generosidade de Falabella em empregar atrizes negras. Os depoimentos são destituídos de qualquer conhecimento do próprio programa defendido, visto que as falas se limitam em defender o autor sem que tenham apresentado qualquer elemento da trama que seja positivo ou que rebata frontalmente as críticas feitas. Todos os discursos buscam deslegimitar  a nós mulheres negras e as críticas, sem que se questione um quesito sequer do que trouxemos à discussão desde setembro. Fica evidente que eles não defendem o programa, nem transmitem confiança no que dizem sobre o mesmo, mas querem apenas fazer ou retribuir um favor ao Miguel Falabella, mais precisamente à Rede Globo.

Não é de hoje que se faz uso da prática de instrumentalizar homens e mulheres negras para deslegitimar pautas e questionamentos do Movimento Negro. Essa conversa aqui não é sobre capitães-do-mato, é muito maior. Essa conversa é sobre como o racismo se manifesta inclusive na cooptação dessas pessoas que, não são meramente inocentes (aliás, termo que também tem cunho racial e diz respeito às crianças nascidas dos ventre-livres pré-abolição) e que talvez tenham interesses materiais, políticos, sociais ou afetivos em fazer essa defesa. Em nenhuma dessas hipóteses o racismo deixa de ser elemento fundador e fundante desse processo. A propósito, entender que o racismo é estrutural e estruturante nesse país, nos faz perceber como nenhum caso de racismo está desassociado dos outros: desde o genocídio da juventude negra, à “profissão” de mulatólogo, por exemplo.

No início desse ano, denunciamos como essa “profissão” que tem o papel de reforçar e manter o estereótipo de mulata – expressão racista, a saber – às mulheres negras. O texto, que disseca a nossa indignação em sermos tratadas como mercadoria e carne mais barata sempre à disposição do patriarcado branco, incomodou os que com isso compactuam e lucram. Por isso, uma de nós tem sido acusada e sofrido com uma tentativa infame de ter sua imagem atingida.

Fica evidente que o racismo permeia de forma igual as duas questões: estamos falando de representatividade e sexualidade da mulher negra e nos dois casos, temos nossas vozes negligênciadas. Estamos dizendo o tempo inteiro que cansamos desse modelo hipersexualizado e estereotipado de se construir narrativas sobre nós. Cansamos de ser tratadas como objetos sexuais prontas para o consumo, seja na minissérie ou nas passarelas do samba: somos mais e o que exigimos é respeito e atenção ao que reivindicamos. A própria inserção das mulheres negras na programação e teledramaturgia da TV brasileira aprofunda o processo de estigmatização – de um lado a figura da “mulata” disponível e desejada pelos homens e do outro a “doméstica” cumprindo o papel do bom selvagem que cuida de seus opressores com toda abnegação.

É muito fácil apontar para as mulheres negras usando estratégias coloniais antigas – como promover a fala de celebridades negras elogiando e exaltando a minissérie global ou afirmando que a África doou seus filhos para se esquivar do fato que fomos arrancados, traficados, escravizados (expressão que implica na existência de um escravizador que gostaria de passar em brancas nuvens) ao passo que não se discute abertamente o que os meios de comunicação brasileiros, em especial essa emissora de radiodifusão,  tem feito de fato para superar os problemas de representatividade.

Representatividade essa que não reflete a diversidade do país, nem muito menos considera a opinião daquelas que gritam aos quatro ventos que não se sentem representadas. Não há alguma coisa estranha? Quais são os programas que pautam negritude e as suas diversidades? Porque esses programas (pressupondo que existem) estão fadados ao fracasso? Não tem audiência? Onde estão os produtores e produtoras negras? São elas que escrevem essas histórias que vemos na tv?

O problema está além do “bom programa”, do “bom dramaturgo”. O problema é a raiz da produção televisiva no Brasil e as relações de poder ali estabelecidas. É o acesso pouco democratizado aos bens de produção, à qualificação e ao incentivo digno a nossos atores, atrizes, diretoras e produtoras. Tendo isso em vista, afirmamos categoricamente: NÃO ESTAMOS TODAS LÁ!!!

O racismo no Brasil é estrutural e estruturante e isso explica a mais nova empreitada contra as mulheres negras nesse país. A objetificação dos corpos das mulheres negras não é novidade numa sociedade que se firmou em alicerces escravagistas e que deles não tem feito questão de se desvencilhar 126 anos após uma abolição oficial e, na prática, inconclusa. O que se destaca agora não é só a objetificação de corpos e sim a coisificação dos arcabouços intelectuais e emocionais de homens e mulheres negras que foram capitaneadas para defender a série. O cerne da questão agora é a pervesidade na deturpação da história dos povos africanos e da comunidade africana em diáspora.

Sobre a nossa crítica ter se antecipado à estreia do programa, detalhe que já tratamos à exaustão, é interessante reproduzir o que disse recentemente a escritora Ana Maria Gonçalves em resposta a uma das defensoras da série:

“Sendo inspirado em “Sex and the city”, por que não algo como “Sexo e o Rio de Janeiro”, ou “Sexo e o Cordovil”, ou mesmo “Sexo e a comunidade”? Mas tinha que ser “Sexo e as Negas”. Pois bem. Sabemos que durante o período escravagista, quando o corpo da mulher escrava pertencia ao seu dono, para qualquer fim, foi preciso, para que o estupro se tornasse moralmente aceitável, propagar sua devassidão. A mulher negra, sempre pronta para o estupro, tinha como contraponto a castidade da mulher branca, a esposa que, muitas vezes para se livrar das investidas do marido lhe propunha: “comigo não, vá lá com suas negas”. Aí temos, tudo junto, ainda hoje: sexo e as negas. Por isso a crítica ao título, ainda antes da estreia do seriado; principalmente porque, em várias entrevistas Falabella já havia adiantado que não estava ali para desconstruí-lo, mas para ressaltá-lo. A crítica ao título não é fruto da ignorância, mas do conhecimento histórico que, inclusive, as mulheres negras ainda carregam no corpo.”

Sobre o argumento de que a série é o espaço onde as atrizes e atores negrxs teriam a ocupar e que a não renovação de contrato para produção da mesma diminuiria o espaço da comunidade negra na teledramaturgia brasileira, a pergunta principal é: o espaço dx negrx na teledramaturgia brasileira já não é limitado a realizar papéis segundo alguns esteriótipos? Haver mais participação e presença de negrxs, LGBTs, mulheres e indígenas em papéis que não sejam apenas reafirmação de esteriótipo é um passo que não se dá pela benevolência do opressor, e no caso não apenas Falabella, mas a própria Rede Globo.

É dever da Rede Globo produzir material que apresente a diversidade existente no Brasil sem reforçar a esteriotipação, estigmatização e erotização dos corpos negros. Isso pelo simples fato de exibir sua programação numa concessão pública, uma espaço da qual ela não é dona, mas sim nós e principalmente nós maioria da população brasileira que se vê cotidianamente tão excluída e mal-representada nos programas de TV e coberturas jornalísticas.

É importante destacar que a telecomunicação é um serviço público explorado pela iniciativa privada por meio de concessão ou permissão. Há regras para que este serviço seja prestado, inclusive alguns órgão reguladores como a Anatel (que regula somente as concessões de TV fechadas) e o CONAR (Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária) que podem e devem ser acionados quando o público e a sociedade civil se sentem atingidos com determinados conteúdos.

Há alguns meses foi novamente trazido à baila a discussão sobre a regulação da mídia e a ignorância tem travado o debate por insistir no argumento raso e despropositado de censura e cerceamento da liberdade de expressão. O que se omite é que, em verdade, já existe um Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei nº 4117/62) que trata de uma série de questões importantes a essa discussão mas que, por conivência institucional, não são tratadas devidamente. Um dos artigos dessa lei, está escrito:

Artigo 53:  Constitui abuso, no exercício de liberdade da radiodifusão, o emprêgo dêsse meio de comunicação para a prática de crime ou contravenção previstos na legislação em vigor no país, inclusive:

promover campanha discriminatória de classe, côr, raça ou religião;

Porém, podemos observar que de fato esses abusos não andam sendo fiscalizados, muito menos punidos a partir dos conteúdos produzidos que temos o desprazer de contemplar nos conglomerados de comunicação no país. Regulamentar a mídia é uma das soluções para garantirmos a produção e participação democrática nos conteúdos, contemplando e incluindo as minorias políticas e a sociedade civil nas reproduções e representações midiáticas.

UBUNTU PRA QUEM É DE UBUNTU!

Essa facilidade de cooptação de homens e mulheres se dá pela perspectiva eurocentrada de militância e emponderamento individualista. Se fosse o contrário, nossas caminhadas se dariam de forma afroncentrada tal como propõe a filosofia UBUNTU que é uma palavra de origem Bantu e vem das línguas dos povos Banto, na África do Sul nas línguas Zulu e Xhosa. Tal filosofia foca nas alianças e relacionamento das pessoas umas com as outras e embora tenha a origem supramencionada, hoje está presente em toda África.

Desmond Tutu e Nelson Mandela interpretaram essa filosofia da mesma forma como nós a usamos em nossos tempos atuais, dado em nossos momentos de união contra o racismo e o machismo. Tendo vários significados, podemos resumir todos eles em um só: SOU O QUE SOU PELO QUE SOMOS. Ou seja, não posso ser feliz se o outro, que faz parte da minha comunidade, está triste, oprimido, humilhado etc.

“No Zimbábue por exemplo, Ubuntu tem sido usado como forma de resistência à opressão existente no país), e está intimamente ligado à ideia de uma Renascença Africana. Na esfera política, o conceito do Ubuntu é utilizado para enfatizar a necessidade da união e do consenso nas tomadas de decisão, bem como na ética humanitária envolvida nessas decisões.” Fonte

União, irmandade. É assim que utilizamos o termo UBUNTU para com as nossas e quando falamos as nossas estamos aqui falando daquelas que estão sendo humilhadas. Se uma mulher negra se sente humilhada e agredida sentimos o Ubuntu e todas nós assim nos sentimos também. Isso é nosso, nos foi herdado por África e nada tem a ver com camaradagem, amizade ou troca de favores. Assim como nossos instrumentos de luta também querem roubar nossos termo de união? NÃO. Branco, você não tem UBUNTU por que sequer entende a grandeza do que isso significa.

Não é por nossos empregos que nos unimos e compartilhamos o UBUNTU, é por uma humanidade igualitária, solidária de forma igual com pretas e pretos. É para que todas e todos sejam, estejam, empoderem-se e não apenas uma pequena parcela, que ao chegar em espaços de domínio branco esquece de onde veio e quem realmente é e esquece que ainda é maioria aqueles oprimidos e mal representados na mídia.

Não, você não pode usar UBUNTU para um branco que sangra o coração de mulheres pretas lembrando para elas a toda semana o lugar que lhe é de direito ocupar, o mais do mesmo.

Não dá pra utilizá-lo de forma descontextualizada e com a pretensão inversa, de aviltar e deslegitimar mulheres negras atribuindo às mesmas uma ignorância presumida, postura típica de colonizadores intelectuais e emocionais. Que nossos antepassados perdoem a profanação dessa filosofia que fundamentou a luta contra o apartheid na África do Sul e essa semana foi transfigurado em um discurso universalista para a defesa do segregador.  Nesse sentido, UBUNTU PRA QUEM É DE UBUNTU!

Imagem de destaque

Somos do Pretas Simoa – Gupo de Mulheres Negras do Cariri – Somos mães, filhas, estudantes, trabalhadoras e não aceitamos que emissoras racistas ganhem dinheiro com a imagem de nossos corpos!

Crédito – Boicote Nacional ao programa “Sexo e as Negas” da Rede Globo