Todo ano no mês de novembro me deparo com aquelas famosas frases que questionam a existência do Dia da Consciência Negra. Dessa forma, para iniciar esse texto vou me utilizar de uma frase que diz muito sobre o porquê da necessidade do dia 20 de novembro. A frase é do sociólogo Boaventura de Souza Santos e diz “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando nossa igualdade nos descaracteriza.” A meu ver ela responde a todos aqueles que, desavisadamente, defendem a não existência de um dia específico para lembrar as mazelas produzidas por uma sociedade branco-centrada contra a maioria de sua população e pregam um dia de consciência humana pois “somos todos iguais”. E eu pergunto: somos todos humanos ou somos todos macacos? Somos todos iguais aonde cara pálida? Decidam-se de uma vez!

Fico aqui refletindo sobre que princípio é esse de igualdade que vigora no imaginário desse povo para acharem natural o que os números estatísticos mostram em relação as diferenças sociais gritante entre negros e brancos no Brasil. Será que já ouviram falar em equidade? Se não, uma busca rápida no Google ajuda, mas para ficar mais fácil e como professora que sou (sempre na esperança que irão ler esse post) vou dar uma resumidinha: EQUIDADE: Nas relações interpessoais buscamos manter em equilíbrio a equação constituída por perdas e ganhos (…) ocorrendo assimetria no quadro intencional, seja por ganhos excessivos como de prejuízos intoleráveis, verificam-se condutas que visam restabelecer a interação, tornando-a justa. (HOMANS, 1968).

Estamos falando de direitos e oportunidades, de possibilidades de acesso e que a balança da justiça social seja equilibrada, coisa que não é possível visualizar em nossa sociedade. Não estou aqui para teorizar, citar doutores ou livros publicados sobre o tema, essa fala fazemos nas universidades para tentar promover um debate com a chamada “elite pensante”, e sim a palavra é bem essa TENTAR, pois acabamos falando para nós mesmos na maioria das vezes. Os intelectuais não negros que nossas universidades produzem, salvo algumas exceções, não querem debater com o povo preto que está invadindo a “sua universidade”, mas já aviso, vamos continuar invadindo!

Estou aqui para falar com todos esses sujeitos que destilam por suas redes sociais, sejam elas virtuais ou não, essa fala cansativa de que o que deve prevalecer é a consciência humana. Digo que o que falta a vocês, além de uma consciência negra é conhecimento histórico, cientifico, argumentação com embasamento no reconhecimento de classe, entender o que é privilégio, compreender do que se trata estratificação social. E aqui cabe outra frase feita: “Todo dia será dia da consciência negra enquanto a consciência humana for preconceituosa e racista”.

Antes que venham me acusar de racismo ao contrário (até porque não estou com paciência para ficar explicando que isso não existe e também porque tem textos ótimos a respeito que falam de forma bem didática, para os iniciantes, o porquê disso não ser possível), não me remeto exclusivamente aos não negros, existe muitos irmãos e irmãs que estão nessa de que nunca sofreram racismo no Brasil e resumem tudo a questão do mérito. Só digo uma coisa, me deem o endereço desse lugar onde basta querer que tudo é possível que é para lá que eu quero ir e levar todos as minhas companheiras (os) das periferias, dos morros, das senzalas, dos guetos, das senzalas da modernidade.

Um dia de consciência negra para que possamos lembrar aos privilegiados que estamos aqui, somos a maioria da população brasileira e queremos usufruir dos mesmos direitos, dos mesmos espaços, queremos nos enxergar nas campanhas publicitárias, nos programas de televisão (não de forma estereotipada e atrelada a pobreza e a violência, que fique claro). Que possamos falar e sermos ouvidos em qualquer lugar e ou situação, que a cor da nossa pele deixe de nos inferiorizar, deixe de ser um estigma. Para lembrarmos às sinhás e sinhôs que seu tempo já passou e que, principalmente, nós mulheres negras sempre fomos protagonistas da história, essa mesma história que vocês sempre contaram a seu favor, nos invisibilizando e ou nos destinando papeis hipersexualizados e de submissão.

Fomos as primeiras mulheres trabalhadoras desse país, pois enquanto muitas sinhás amargavam um casamento forçado fazendo seus bordados, nós trabalhávamos nas lavouras, nas casas grandes, abandonando nossos filhos a própria sorte (já se foram mais de cem anos e essa realidade ainda persiste). Aceitem, respeitem e calem-se quando uma de nós estiver falando de nossas dores, pois você jamais conseguirá dimensionar o que seja isso. Cansamos do seu protagonismo usurpador, do seu machismo silenciador, do seu determinismo equivocado.

Um dia da consciência negra sim, porque nossa história precisa ser recontada, onde nós somos os artistas principais, produtores, diretores. Somos quem queremos ser, não quem vocês desejam que sejamos. Revejam seus conceitos, analisem sua posição dentro da hierarquia social que molda o Brasil e esqueçam essa bobagem de democracia racial. Enquanto houver desigualdade e violência de qualquer tipo contra nosso povo, estaremos aqui gritando no seu ouvido que sua consciência pode estar calada, mas a nossa não se apaga nunca.

Encerro, dentro da proposta inicial, com a frase de Bertold Brecht “(…) em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.”