“É em nossos corpos, como primeiro território, onde operam os múltiplos mecanismos de dominação e se evidenciam nossas resistências, a insubordinação, a liberação em ações que conduzem à transformação com justiça e resgate do prazer e da criatividade.”

É novembro. Um tempo turbulento. Dizem que esses dias tem sido regidos por forças da natureza que não poupam os viventes de justiça. Há quem diga que as cabeças e corações precisam se proteger, corpos precisam se fechar.

É novembro. Temos assistido a reações duras no que diz respeito a nossa opinião de mulher negra: falamos de representatividade, de empoderamento e direito aos nossos corpos. Somos tratadas como ignorantes.

É novembro de 2014 e ainda somos retratadas na TV como as mulatas hipersexualizadas ou domésticas resignadas, as “boas selvagens” que precisam ficar gratas e condescendentes ao que o machismo, o sexismo, o racismo e o patriarcado nos oferece em forma de migalhas.

É novembro e nossas mães ainda choram sobre caixões que abrigam corpos negros, exterminados pela política sangrenta do genocídio da nossa juventude, dos nossos Claudias,Davis, DG’s,Geovanes, Joels, Amarildos.

É novembro, mas as campanhas de descriminalização e legalização do aborto se quer mencionam Jandira, Elisângela ou dão voz a tantas outras mulheres negras – que passaram ou souberam de histórias de morte por aborto ilegal, histórias de sofrimento e dor nos hospitais públicos institucionalmente racistas que se negam a tocar nossos corpos.

É novembro e cansamos!

Parafraseando Oléria, precisamos de outras histórias, precisamos de outros sentimentos e sentidos e o faremos. Falaremos!

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A voz será nossa, a escrita, a memória e os corpos; tudo será nosso e será para agora, pois cansamos da invisibilidade e prisão a que estamos submetidas. Estamos já escrevendo juntas outras possibilidades, produzindo outras imagens, reivindicando nosso direito a vida com dignidade e a saúde dos nossos. E é por isso que estaremos juntas com outras mulheres afrolatinas e caribenhas. Queremos ouví-las e dar voz a suas histórias, suas falas.

O que instantaneamente remete as poesias de Shirley Campbell Barr, as emoções no cinema de Viviane Ferreira e o texto e a fala com o corpo de Vera Lopes: mulheres afrolatinas e caribenhas que fazem seus caminhos, levando junto a memória e vida de tantas outras nós.

O XIII Encontro Latino Americano e Caribenho realizado em Lima clama por novos olhares, novos desafios:

Socializar o poder é o desafio chave para a construção da democracia radical. Aprender a aceitar e a controlar os conflitos,os projetos e as visões discrepantes.

O poder simbólico e o poder concreto. Mas sobre tudo o poder de falar por nós e por isso sermos respeitadas. O poder de construir nosso feminismo diverso, negro e interseccional. O poder de reger nossas ideias e construir a liberdade dos nossos corpos.

Em O corpo negro como local de discurso, Débora Ferreira nos fala que

O corpo negro não é um corpo único, individual, mas sim um corpo participativo, humanitário. (…) Esses corpos negros que, durante o período da diáspora africana, ressignificaram suas tradições levando consigo escritas performáticas, e sendo utilizados como ferramenta e linguagem, tornam-se receptáculo simbólico e expressivo transcendente neste deslocamento

E como tais, reivindicamos a tomada dos nossos corpos negros e invisíveis para nós e os consolidaremos na diáspora como ferramentas de revolução, emprestando às artes, a política e luta nossas expressões.

Juntas Blogueiras Negras, Blogueiras Feministas e a Universidade Livre Feminista, estaremos na XIII EFLAC, registrando o momento de diálogo dos diferentes feminismos, das diversas mulheres e suas criações, seus anseios e memórias. Fechando o novembro com esperança, com coragem e outras histórias.