Sempre é bom retomar o debate sobre o processo de invisibilização das “minorias” na sociedade não é nenhuma novidade. Muitas vezes em locais de trabalho as pessoas negras são confundidas  som outras pessoas negras, resultado de um processo profundo e histórico de negação do espaço público para nós. Em 2010 um estudo estado-unidense apontava, inclusive, que as mulheres negras são geralmente mais invisibilizadas no tratamento cotidiano do que mulheres brancas e homens brancos ou negros.

Somos silenciadas quando voltamos para casa nos apinhados transportes públicos sendo vítimas fáceis de violência sexual. Somos silenciadas quando vítimas de violência obstétrica. Somos silenciadas quando matam nossos filhos. E também somos silenciadas quando nossos argumentos e reflexões são colocados de lado com a facilidade que se joga uma bolinha de papel em uma lata de lixo.

Ser reconhecida como sujeito de direitos e não mais alguém que deva estar à margem da sociedade é um processo de luta contínuo. Não apenas na sociedade em geral, mas também nos espaços políticos – sejam de movimentos ou de organizações políticas da natureza que forem. A sintonia fina de como se infantiliza e se apaga os posicionamentos políticos apresentados por uma mulher negra é algo bastante engendrado na política.

O ignorar argumentos, a infantilização e a cobrança de como deve ser apresentado este ou aquele posicionamento são formas que aprofundam o silenciamento das mulheres negras na política e esta forma de atuação não é pensar em projeto de totalidade para emancipação, mas sim garantir as mulheres negras no espaço que a nós foi reservado: o de ficar calada e ajudar a organizar as coisas e não o de pensar e formular política.

Mesmo que nas estrutura social brasileira esteja comprovado que mulheres são mais de 50% da população, assim como negros – se cruzarmos os dados é provável que a maioria das mulheres seja negras. Ou seja, somos efetivamente o setor mais afetado pela política na sociedade e ao mesmo tempo o setor menos ouvido nos debates e formulações políticas, sejam os mais institucionais aos menos.

Falamos de legalização do aborto, em um cenário onde as mulheres negras morrem mais do que as brancas por abortos inseguros e ilegais, mas não somos nós as protagonistas visibilizadas no debate. Perdemos nossos filhos para a polícia, mas a questão da segurança pública é levado como um debate geral e não feminista. Assim acontece com diversas outras pautas estruturais da nossa sociedade que nos afetam diretamente, mas não são pautas feministas pelo fato de serem pautas gerais. Como se as opressões de gênero, de raça e de orientação sexual não fossem base fundante de  um sistema que se serve destas diferenças para justamente identificar quais são aqueles que devem permanecer no cabresto.

É importante lembrar que a invisibilização das mulheres negras na política também é fruto de uma sociedade estruturada de forma racista, machista, homolesbobitransfóbica e classista. Ora, se fazemos parte dos invisíveis, das marginalizadas, da maioria dos sujeitos sem direitos, então também fazemos parte da maioria dos párias que não tem lugar na política e na disputa desta. Não há como olhar qualquer processo de revolta popular no Brasil e não constatar a importância das mulheres negras nos embates contra os poderosos.

Se na malha social em geral nós mulheres negras já sofremos com o processo de invisibilização e isso é óbvio quando olhamos quais os espaços ocupados majoritariamente por nós na sociedade. Ao nos debruçarmos na política vemos escancarados os motivos: os temas que pra nós continuam sendo basilares para atuação ainda são predominantemente discutidos por homens brancos e não pela diversidade existente na sociedade brasileira.

Para nós mulheres negras o espaço da decisão e formulação política não é aquele que nos é reservado. Seja por que nossa opinião e posicionamento não ser valida para tomada de posição, seja quando incomodamos poderes e tentam nos enquadrar erroneamente como um setor social minoritário, justificando assim a não validade de nossas opiniões.

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Imagem de destaque – Candidatura da Angela como vice-presidente dos EUA, reprodução web.