Como foi bonito e emocionante ver gente negra subindo nas tribunas para falar de enfrentamento ao racismo, em novembro.

Como foi emocionante ver as caras pretas nas mesas de abertura dos eventos que discutem o racismo e o enfrentamento ao racismo, em novembro.

Como foi provocativo ver mulheres negras ocupando as salas de conferências para falar da necessidade de políticas públicas para mulheres negras, em novembro.

Esses dias enquanto passeava pelo facebook via emocionada a emoção das companheiras e companheiros a cada foto postada, de nossas irmãs e irmãos – inclusive eu – ocupando espaços em mesas, espaços em congressos, conduzindo trabalho, mas, ao mesmo tempo em que era acometida por uma forte comoção, eu também me sentia incomodada, inquieta, embora ali ainda não soubesse nomear o porquê, foi quando a uma visita a uma escola tudo se fez nítido para mim:

Chegando na escola, vejo as paredes repletas de produções de estudantes: cartazes denunciando o racismo, pinturas que tentavam reproduzir uma estética africana, máscaras africanas. Atabaques, Abês, vários outros instrumentos dispostos no pátio principal… E enquanto observada isso tudo na minha mente surgia a inquietação: só cabemos na escola em novembro? Só cabemos na escola no dia da consciência negra? Minha pergunta é: até quando?

Em novembro se vê gente preta, falando de suas dores, resgatando sua ancestralidade, partilhando as histórias ouvidas das bisavós das bisavós. Em novembro o povo preto fala, denuncia, anuncia. E eu me pergunto – por acaso fazemos isso somente em novembro?

Até quando nossas vozes continuarão correndo o risco de ser  folclorizadas e confinadas – quando com muita sorte – a um mês, ou a um dia no ano? Essa é a minha sensação ao final de cada mês de novembro. A sensação de somente existirmos em novembro.

Quando vejo minhas irmãs e meus irmãos brilhantes e no auge do seu brilhantismo trazendo suas reflexões e provocações eu me pergunto: até quando essas pessoas não poderão ser escutadas o ano inteiro? Até quando se surpreenderão ao escutar as nossas falas e ao ver nossas fotos nos eventos?

E uma voz, triste na minha cabeça responde: até quando nossa existência e nossa pauta forem confinadas ao mês de novembro.

Estamos lutando contra esse confinamento de nossa condição. Convido a cada irmã  e cada irmão a continuar levantando suas vozes, confirmando cada vez mais o mês de novembro como um mês de ativismo pelo fim do racismo e, ao mesmo tempo, intensificando a nossa militância no sentido de mostrar a essa sociedade que nós sabemos que a nossa luta é para podermos ser ouvidas durante todo ano, construindo e socializando as nossas pautas, erguendo as nossas vozes para sermos vistas/os. Que possamos continuar cada dia mais e mais exigir espaços, exigir exposições, exigir presença e pautar esse conteúdo.

Continuemos lutando para que seja dia da consciência negra todo dia.

Imagem de destaque – reprodução web.