Herdeira do talento e do axé das matriarcas sambistas, Cristiane dos Santos Pereira, a Cris Pereira das rodas de samba da capital federal, abrilhanta o mundo da música com uma presença doce e firme e sua voz de acalanto, digna das majestades negras do samba.

Música que acarinha a pele e derrama memória ancestral. Assim são a voz e o samba de Cris Pereira. E quem já ouviu sabe exatamente como doçura e força podem coabitar o mesmo canto.

Aos 35 anos, a sambista leva para onde vai o acalanto da voz e a emoção dos sambas que interpreta. No CD Folião de Raça, que você pode ouvir aqui, Cris traz tesouros como Dona Ivone Lara, acompanhados de músicas autorais e de compositores do samba de Brasília, como Vinícius de Oliveira, Artur Senna e Sérgio Magalhães. Aqui, podemos ouvir uma linda composição de Vinícius de Oliveira, na voz de Cris Pereira.

Cria de uma família carioca e capixaba, Cris cresceu em Brasília e nessa cidade também desenvolveu seu talento musical. Cantou em um coral erudito e, em 2005, iniciou a carreira na música popular com o grupo Batucada de Bamba.

Em carreira solo desde 2007, Cris Pereira carrega consigo as atribuições de cantora, compositora, Mãe de Poema (e gestando Flora <3), companheira de Guto Martins – também músico na capital federal, filha, produtora cultural e tantas outras. Sendo tantas coisas, e sendo como cada uma de nós, mulheres negras brasileiras.

Comum nas histórias de muitas famílias negras, a culinária e a música reúnem em torno de si grandes histórias, acontecimentos e vínculos. Na vida de Cris Pereira não é diferente. Foi em torno da “casa amarela” então morada dessa dadivosa filha de Oxum, que durante alguns anos, se encontraram amigos, sambistas, admiradores do samba e do cozido feito pela cantora – revivendo, por que não, a memória ancestral de Tia Ciata, e tantas outras que reuniram samba, resistência e culinária.

Hoje, a Casa Amarela já não é mais um espaço físico que abriga os encontros dos músicos, amigos e quem mais queira chegar. Mas segue sendo espaço etéreo e aconchegante que reúne afetos, histórias de amor e resistência em torno da grande figura agregadora que é Cristiane. Esse acalanto é possível perceber em várias das canções do CD Folião de Raça, do qual destaco Lágrima de Desilusão, de Sérgio Magalhães:

Academia

Historiadora por formação, Cris Pereira fez parte também da história recente do movimento negro na capital do país, quando constituiu na época de universitária, o EnegreSer, Coletivo de Estudantes Negros e Negras ns UnB.

Ainda no espaço acadêmico, Cristiane defendeu, em 2010, uma brilhante dissertação de mestrado em que se debruça sobre a obra de Leci Brandão e a influência da luta contra o racismo nessas composições. Leia aqui.

Fortalecida e movimentada pela força dessa resistência ancestral, Cris ajuda a escrever, junto com outras poderosas da música negra brasileira, uma nova forma de viver e afirmar a negritude para além do ritmo negro, com sua estética, identidade e enredos próprios, sendo poesia e amor por onde passa.

Mobilização

A força mobilizadora e o acolhimento fazem de Cris uma importante figura na construção coletiva do samba brasiliense. Além de abrir a casa e o coração para sambistas e amantes do gênero, ajuda na constante lembrança de que não há lugar melhor do que a rua para celebrar o samba.

Em parceria com Sérgio Magalhães e Guto Martins, idealizou o projeto “Plataforma do Samba”, que esse ano chegou a sua 8ª. edição. Uma grande roda,aberta e democrática,em comemoração ao Dia Nacional do Samba na rodoviária do Plano Piloto que reúne“o povo do samba” para fazer o“samba do povo”.

Ainda nesse caminho, Cris, seu companheiro Guto Martins e três produtoras culturais da cidade fundam em 2013 a Padê Produções. Um espaço para criação e execução de projetos que valorizem o cenário artístico do Distrito Federal em suas diversas dimensões.

Sempre em movimentos agregadores, Cris Pereira faz do samba sua voz e seus passos. Canta e ergue bandeiras no solo fértil e custoso da capital federal. Faz da sua música encanto e luta com sofisticação e simplicidade.

Como bem define sua parceira de ofício, a cantora Fabiana Cozza, “Cris faz samba como reza”.

Que os sons desse “folião” possam ganhar o mundo, e que os passos “de raça” de Cris Pereira sejam certeiros nos caminhos de ouro.

Este texto é a minha admiração, e desejo de que o país inteiro – e  o mundo – possam conhecer o talento dessa joia rara!

 Imagem de destaque – reprodução web.